Telma Miranda


Lake George - John Frederick Kensett (1860)



Abril

Eu disse: quem pôs aqui este rio?
Alguém tinha desenhado na paisagem
um cenário para a nossa história.
Manchas inteiras de urze, papoilas,
giestas. Até se disse em Terena
que Abril não vinha assim tão verde

há muito tempo. Sim, tinha chovido muito
nesse ano, mas nada esteve por acaso,
nem o céu de manhã cedo nos castelos
com a erva a crescer dentro e fora das muralhas,
nem sequer a nossa primeira noite, aquela

em que esperaram por mim noutro lugar.
Sozinho, sem outra defesa que não fosse
a minha própria solidão, eu estive onde tu
me pudesses encontrar. E depois subimos juntos
a rua molhada. E já chovia por Abril sem o sabermos.


Rui Pires Cabral (1967)

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Telma Miranda



Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,
Lo mismo que un árbol en tiempos de otoño se quedan sin hojas.
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,
Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.

Uno vuelve siempre a los viejos sitios en que amó la vida,
Y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
Que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Demorate aquí, en la luz mayor de este mediodía,
Donde encontrarás con el pan al sol la mesa tendida.

Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
Que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Telma Miranda










 





Fevereiro. 2012. Quando ainda havia jornal nas bancas. 
  • Sábado de fevereiro. Há algo mais desanimador? (Claro, do meu ponto de vista - que é sempre a vista de um ponto.) Haveria algo mais animador? Ler jornal. Ora, ora, dirão alguns, nada mais desanimador. De novo, depende do ânimo de cada um. Começo a leitura. De novo, no primeiro caderno do jornal , quase nada. Segundo caderno: ótimo texto do Wisnik - que aprendi a admirar - sobre a poesia de Wislawa Szymborska (que nos deixou enlutados e melancólicos no primeiro dia desse fevereiro). No caderno Prosa e Verso, um texto lúcido e consistente do João Cezar sobre literatura e crítica. Pausa para um café. Retorno ao segundo caderno e me animo ao saber que sete cinemas de rua do subúrbio do Rio vão reabrir (Cine Cachambi!!!), que os bailes de carnaval estão em alta e que um subsecretário de Patrimônio (que lutou pela retirada das grades da Praça Tiradentes) afirma que "gente circulando traz mais segurança que as grades"! Meu sábado está salvo!
  • Uma grande amiga anuncia, no almoço de quinta no Sagrada Família da Rua do Rosário, que cansou de correr atrás da felicidade. E, incrivelmente, anda se sentindo mais feliz. Não me surpreendi, portanto, quando Guilherme Gutman, em sua resenha sobre a nova tradução do elucidativo texto freudiano - "Luto e melancolia" -, afirma que neste texto "há alimento suficiente para todos aqueles que, de algum modo, percebem que a felicidade não é o ponto de chegada de uma vida, mas, quando muito, um lugar de pouso." E que uma vida interessante pode ser mais ampla que uma vida feliz. Sábia, a minha amiga.
  • Last, but no least, um grande poema de Wislawa para salvar o sábado de todos nós:

Autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)
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