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Telma Miranda

 Joãozinho se recusa a colocar o tênis. É dezembro. Num shopping, domingo à tarde. Seu pai argumenta: veja, todos estão usando tênis. Joãozinho, com dois anos, ainda não contraargumenta, apenas insiste. Sinto já ter ouvido o contraargumento. Sim, do pai do Joãozinho que, com alguns anos mais de vida,  me disse: por que tenho que fazer o que todos fazem? Sinto em mim também a menina que tinha dois sapatos: um conga preto, com o qual caminhava muitas quadras até o colégio estadual, e um sapatinho preto de verniz, com um pequeno saltinho, que era usado exclusivamente na missa dominical. Diferente do colégio, onde todos usavam o mesmo conga, na igreja havia meninas que usavam outros sapatos e eles mudavam a cada domingo! Era sempre uma surpresa. Um dia, motivada pela emoção diante de um sapatinho cor de rosa com um lacinho de enfeite, perguntei à minha mãe: porque não tenho o que os outros têm? 

Joãozinho não cedeu: domingo no shopping sem tênis. O pai do Joãozinho, compreensivo, aceitou enquanto pensava que seria mesmo bom poder estar descalço naquele momento. 

A menina do conga, que se tornou avó do Joãozinho, tinha um constante pesadelo: estar na rua descalça, querer correr e não conseguir e sentir muita vergonha. Muitas análises vieram, com várias hipóteses, levando em consideração minhas dificuldades e situações vividas - como se elas fossem causas da vergonha que sentia de mim mesma. 

Pés descalços.  Significava a condição dos escravos, da pobreza - uma posição econômica e social. Ter um par de sapatos era a primeira coisa a ser feita para se considerar um homem livre ("calçar a liberdade"), mas ainda assim continuava sendo um "pé rapado".  

"Pés descalços" também significava humildade, despojamento. 

Nos meus sonhos, o sentimento era de vergonha, sensação de nudez, timidez, falta de confiança. Mas na juventude, quando eu e uma amiga tiramos os sapatos no meio do centro da cidade para "salvar" nossos dedinhos, a sensação de bem estar e liberdade me acompanha desde então.  

Apenas insista. Apesar de tudo e de todos. 



"A lei penal é como a serpente, só pica os descalços" 

https://professorlfg.jusbrasil.com.br/noticias/133203135/a-lei-penal-e-como-a-serpente-so-pica-os-descalcos
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Telma Miranda

Semi-desperto. Ouço um ronronar, dois, três. Silêncio. Penso: era um ruído decorrente de um pulmão “en-cigarrado” ou um resto de respiro de quem dorme? Que dia é hoje? Quarta? Quinta? Sim, é quinta. Sem compromissos. Ligo a TV e viro para o outro lado. Ouço as vozes e me desligo, num movimento de ida e volta no dia. Que começa sem mim. Até que o furão, a onça parda atropelada, a raposa ferida, a jibóia dormitada dentro de um cano e as  jararaquinhas dormideiras que comem escorpiões no cerrado me despertaram inteiramente.
Mesmo assim, um café não bastou. Voltei pra cama e pensei em tudo que já teria feito nessas duas horas de uma manhã de quinta.
Se o dia vai terminar, porque começá-lo?  Risinho de lado, pra dentro. Ora, o dia começa, sempre. Ele é que me começa.
Uma sonda chinesa toca o lado, até agora, oculto da Lua. Lado oculto para nós. E em nós, certamente. Cultivo de flores e verduras em solo lunar. Prefiro as verduras.
Segundo café. Sem açúcar e com a lembrança daquele croissant, naquela manhã, daquele dia, naquela estação.  Me lembrava, talvez por conta do croissant, do trecho inicial de Combray. A noite, os dias, o movimento lunar: tem seus começos e seus fins e seus recomeços.  Me lembrava, talvez por conta de Combray, que Proust iniciava suas manhãs lendo os jornais. Sim. Dizia ele que nas notícias curtas dos jornais podemos ler toda a tragédia e comédia da vida humana. Depois de um tempo comecei a achar também que as notícias formavam um mosaico e que talvez houvesse um sentido, uma ligação imperceptível entre elas, que nos trariam respostas sobre nossa humanidade.
O dia começa com as notícias. Também começo a montar meu mosaico. “Dark side of the moon”.
Enquanto ouço, me desligo. Nomes conhecidos; e minha atenção retorna: Renato Russo, pausa, Raul Seixas, pausa, Marcel Proust (“Nossos sentimentos vão se atrofiando por medo de sofrer”), Fernando Pessoa, Clarice Lispector. Quem é? Ah. Novo Embaixador. Relações Exteriores. Para que tantas citações afinal? Ah. Ele é um erudito. E talvez necessite mostrar que essa qualidade o define. Lembro de uma professora “explicadora”- eu tinha dificuldades em interpretação de textos -  que um dia solicitou à minha mãe permissão para levar-me ao cinema (após as explicações do dia), certamente como um pretexto para sair de casa e encontrar alguém (agora eu sei). Além da  blusa grande demais,  resolveu que poderia colocar em mim o mesmo batom que usava. Parou um instante, olhou distraidamente o meu rosto, meneou a cabeça para o lado direito em sinal, assim me pareceu, de desaprovação. E disse: “Quem é bonita, já é bonita. Não precisa mostrar.” Riu e falou rapidamente: “Quem quer mostrar que é algo é porque não é. Entendeu?” Se minha dificuldade de interpretação com textos escritos era o motivo de estar ali, percebi que talvez fosse por conta da cobrança escolar, pois havia entendido perfeitamente o texto dela.
Desligo. Eu e a TV. 
"Amanhã recomeço".
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Telma Miranda















Tríptico com melopeia

Sob a pele 
lento e surdo 
um lume. 
Pelas ruas 
somente a palha 
o velho cascalho 
das palavras.

Onde os claros, longos dias do Verão? 
Onde uns olhos amorosos, a chamar?

Tortos mortos rios
as planícies devastadas. 
Pedra e cal 
e a mó moendo infatigavelmente.

Distante, muito além 
um obstinado fagote
recorrente e rouco.

Henrique Chaudon


               Não resisti e embarquei, quando li esse belo poema do Henrique Chaudon, 
nos sons da memória.  Um fagote. 
              A primeira lembrança, certamente também para muitos, é a peça musicada de Prokofiev "Pedro e o Lobo". O som grave do fagote anunciava as advertências do avô contra o heróico desejo de Pedro: caçar o lobo. 
             A outra grata lembrança foi quando conheci Noel Devos em uma apresentação da  Orquestra Sinfônica Brasileira. Noel nasceu na França, mas veio para o Brasil na década de 50 como primeiro fagotista da OSB. Ainda tenho um LP dele, comprado na ocasião, intitulado: "Francisco Mignone - 16 valsas para fagote solo". Um solo de Noel Devos. E constatamos: um fagote recorrente e rouco. Ah... mas também tão doce...
   





Telma Miranda










 





Fevereiro. 2012. Quando ainda havia jornal nas bancas. 
  • Sábado de fevereiro. Há algo mais desanimador? (Claro, do meu ponto de vista - que é sempre a vista de um ponto.) Haveria algo mais animador? Ler jornal. Ora, ora, dirão alguns, nada mais desanimador. De novo, depende do ânimo de cada um. Começo a leitura. De novo, no primeiro caderno do jornal , quase nada. Segundo caderno: ótimo texto do Wisnik - que aprendi a admirar - sobre a poesia de Wislawa Szymborska (que nos deixou enlutados e melancólicos no primeiro dia desse fevereiro). No caderno Prosa e Verso, um texto lúcido e consistente do João Cezar sobre literatura e crítica. Pausa para um café. Retorno ao segundo caderno e me animo ao saber que sete cinemas de rua do subúrbio do Rio vão reabrir (Cine Cachambi!!!), que os bailes de carnaval estão em alta e que um subsecretário de Patrimônio (que lutou pela retirada das grades da Praça Tiradentes) afirma que "gente circulando traz mais segurança que as grades"! Meu sábado está salvo!
  • Uma grande amiga anuncia, no almoço de quinta no Sagrada Família da Rua do Rosário, que cansou de correr atrás da felicidade. E, incrivelmente, anda se sentindo mais feliz. Não me surpreendi, portanto, quando Guilherme Gutman, em sua resenha sobre a nova tradução do elucidativo texto freudiano - "Luto e melancolia" -, afirma que neste texto "há alimento suficiente para todos aqueles que, de algum modo, percebem que a felicidade não é o ponto de chegada de uma vida, mas, quando muito, um lugar de pouso." E que uma vida interessante pode ser mais ampla que uma vida feliz. Sábia, a minha amiga.
  • Last, but no least, um grande poema de Wislawa para salvar o sábado de todos nós:

Autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)
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Telma Miranda
Um acontecimento marcante da minha formação foi quando, no início da adolescência, participei de um grupo de jovens de uma paróquia em um subúrbio do Rio. Principalmente quando alguns componentes do grupo decidiram se insurgir contra as atitudes autoritárias e pouco cristãs do pároco. Criamos então um grupo independente e nos reuníamos inicialmente no porão da igreja e depois na casa de um dos participantes. Era início dos anos 70. Tocávamos violão, cantávamos em um coral, jogávamos War e líamos. Havia uma espécie de biblioteca ambulante. Eu era a "mascote" do grupo, pois era realmente muito mais jovem do que os outros participantes. Daí que, muito cuidadosos, eles me proibiram de ler dois livros que constavam da lista. Um de Jorge Amado (não era linguagem apropriada para uma menina) e outro de Herman Hesse de que, diziam, eu não compreenderia nada. Óbvio que peguei os dois e os li escondidos. "Tereza Batista" não chegou a me impressionar, mas ler "O Lobo da Estepe" foi uma experiência e tanto. Claro que não entendi nada, mas lembro que a experiência da leitura foi muito marcante. Bom, e o que seria um experiência marcante de leitura se não se entende nada?

Vez por outra me faço essa mesma pergunta. Leio poemas que muitas vezes não compreendo e mesmo assim às vezes gosto, às vezes não. E sei que muitas pessoas passam por essa espécie de "desconforto" e dizem apenas "nossa, que lindo!" no lugar de "nossa, não entendi nada". Em uma entrevista publicada no caderno Prosa e Verso (do jornal O Globo), em junho desse ano, por ocasião da FLIP, a poeta escocesa Carol Ann-Duffy diz não se interessar muito quando dizem que seus poemas são "acessíveis" (seja lá o que isso quer dizer). Diz ela: "Um bom poema deve ser acessível na superfície, mas ter algo mais por debaixo, de modo que ele talvez não seja o que parece." Sem dúvida. Aliás, o poema seu publicado no mesmo jornal não deixa nenhuma dúvida sobre a sua assertiva. *

Há poemas assim: entra-se aos poucos nele, ele cresce dentro da gente, e puff! se instala por completo, inteiro, unindo no mesmo flash o não-entendimento e uma compreensão absoluta.
Há aqueles que entendemos "de cara" e depois, oh, céus, vemos que havia muito mais e que há, na verdade, vários outros "entendimentos".
Há aqueles tão herméticos que só um outro poeta pra entender (às vezes nem isso...)
Há aqueles que passam e quase não sentimos, há aqueles que se mudam pra dentro da gente, há aqueles que nos deixam mudos, outros que nos instigam a falar deles.
Há uns que são bons pra ler em voz alta, outros, só na solidão mais absoluta.

Recortei de um jornal antigo (que espero seja deste século, senão, imaginem, guardar jornal do século passado!!!) poesias que, lembro-me bem, me deixavam meio intrigada na época. Primeiro, era mesmo poesia? Segundo, que diacho quer ela dizer com isso? Mas lembro também que ficava, mesmo sem entender, paralisada/mobilizada/extasiada. ** Será que eu era mais jovem e, mesmo não tendo os treze de quando da leitura de Hesse, ainda podia sentir essa estranha sensação? Talvez tenha sido a mesma sensação como a que descreveu Stephen Greenblatt (ah, essa entrevista, ao contrário, é recentíssima: sábado 03/12/2001 no Prosa e Verso) sobre sua experiência de ter lido "O processo" de Kafka e não ter entendido absolutamente nada. "Não compreendi as relações entre os personagens, não entendi por que o homem cometeu suicídio no final da história, nada fazia sentido pra mim. Fechei o livro, e me lembro de momentos depois sentir um incrível...não posso realmente explicar, não tenho as palavras certas para isso. Mas foi algo como se alguém tivesse tangido com força uma corda dentro de mim. Isso não aconteceu porque eu entendi, mas porque eu não entendi".

Ah....
Entendi!




* Faço a transcrição do poema de Carol Ann-Duffy em inglês pois ainda não há tradução:

Cold

It felt so cold, the snowball which wept in my hands,
and when I rolled it along in the snow, it grew
till I could sit on it, looking back at the house,
where it was cold when I woke in my room, the windows
blind with ice, my breath undressing itself on the air.
Cold, too, embracing the torso of snow which I lifted up
in my arms to build a snowman, my toes, burning, cold
in my winter boots; my mother's voice calling me in
from the cold. And her hands were cold from peeling
then dipping potatoes into a bowl, stopping to cup
her daughter's face, a kiss for both cold cheeks, my cold nose.
But nothing so cold as the February night I opened the door
in the Chapel of Rest where my mother lay, neither young, nor old,
where my lips, returning her kiss to her brow, knew the meaning of cold.


** Aí vão três "experiências" colhidas da Folha de São Paulo. Há muito tempo. São de Ledusha Spinardi:

1.
Sustenidos e Bemóis

Bela bélica e babélica Ofé-
lia à beira do lago. Lima a lín-
gua em labaredas seca para
serrar até o sono dos sapos.
Gelada de mato e garoa a
ninfa espia da moita. Ofélia
freme. Mastiga palavras mal
ditas. Enquanto abana faís-
cas frésias salpicam-lhe a fa-
ce. Alfa, a ninfa, senta-se aos
pés da outra. Garças alvas
pinçam poças, lentas nas
pernas flébeis. As duas mi-
ram. Olhos de lágrimas fá-
ceis. Uma ais outra ohs: sus-
tenidos e bemóis. Suspiros
em róseo uníssono pertur-
bam girassóis.

2.
Bálsamos urbanos

Meus olhos derrapam no
sorriso implícito. Água que
aflora fria da pedra e lambe a
pele salgada, jorro vigoroso
de vinho fresco na sede sen-
sual da alma e do corpo. Su-
bo essa escada rolante às
mesmas 18h17. O tumulto
dos passos no granito em
torno soa como Debussy aos
meus ouvidos. A pálida pos-
sibilidade de que tudo se re-
pita faz crepitar meu umbi-
go. Metida na polpa sucu-
lenta da vida, atenta a certos
encantamentos que na cida-
de surrada pela urgência e
pelo excesso escasseiam, sa-
boreio os respingos incertos
da felicidade.

3.
Terra à vista

Na solitude líquida do
mergulho, acidentes de per-
curso, escalas involuntárias
nos esqueletos dos cascos de
navios esquecidos, silêncio
turvo povoado de sombras e
ímãs. Olhos arregalados na
dança intraduzível. Depois
dos muitos sustos, do des-
conforto limboso nos pés,
feixes intermitentes de luz
sinalizaram a existência ple-
na da superfície. Na esme-
ralda de sonho e algas dei-
xou a lua submersa aos ui-
vos. Tateando a substância
renovada que a envolvia, po-
de sentir a cauda ondulante,
tecida em finos fios, conchas
e sílabas. Lambeu a leda lá-
grima da água e lançou o te-
souro da juventude aos pei-
xes.
Telma Miranda
Um jovem amigo (muito jovem, adolescente ainda) me perguntou um dia como escrever uma crônica. Dei-lhe uma resposta nada original: observe uma borboleta ( não precisa ser a famosa borboleta amarela do Braga) e depois escreva sobre o acontecido: a borboleta, o dia, seus pensamentos, suas sensações. Simples assim? Bom (pensei em refutar, dissertar, explicar, mas desisti)... é... simples assim.

Revendo jornais antigos, encontro uma crônica de Luis Fernando Veríssimo intitulada "Crônica:definições". Com seu humor habitual, ele faz uma distinção - quanto à qualidade da crônica - entre:
a) crônica; b) croniqueta; c) cronicão; d) cronicaço.
Cronicaço é a grande crônica, aquela que consagra seu autor, diz Veríssimo. Já cronicão é a crônica grande, "tem até ponto e vírgula e citação do Montaigne". A crônica é "qualquer crônica, ou uma crônica qualquer". Vamos à croniqueta. Diz ele:

Croniqueta não é o nome científico da crônica curta, como pode parecer. É uma crônica inconsequente, geralmente sobre coisa nenhuma, escrita com desinteresse para ser lida com pouco caso e cara de nojo. Se muita gente recorta crônicas do jornal para guardar, muitos recortam, cuidadosamente, a croniqueta para atirar no chão e pular em cima, gritando argkght!

Considerações. Primeiro, se guardei essa crônica do Veríssimo ( e nada de argkght!) é porque não a considerei inconsequente. Eis aqui o resultado (tudo bem, tudo bem; se o resultado não é tão bom, a culpa é minha e não do objeto inspirador). Segundo, se essa minha croniqueta for lida, espero que seja salva pelo menos em consideração às referências que faço ao grande cronista (também porque vai ser mais complicado pular em cima da tela do computador). Terceiro, gostaria de acrescentar outra categoria: a croniquinha. Que não quer dizer que seja curta, nem completamente inútil. O diminutivo indicaria o lado afetivo de, por exemplo, achar um recorte de um jornal antigo, ler com prazer e escrever sobre os pensamentos e sensações decorridas da leitura. Tudo bem, tudo bem. Sei que não é simples assim. Mas pode ser. Pelo menos para uma croniquinha. Que nem esta.
Telma Miranda
Todos nós temos nossas manias. Tenho algumas. (Vamos lá, confesse!). Tenho várias. (Agora que confessei, não consigo me lembrar de mais de duas). Tenho algumas. Uma delas é guardar jornais para ler depois. Sempre acreditamos em um "depois" (idealizado, claro) como sendo mais propício: com mais tempo, mais chuva, mais tranquilidade. E sempre nos surpreendemos quando o idealizado não acontece. Condição humana.

Enfim, humanamente maníaca, guardava-os em um canto. E os jornais se acumularam, entulhando-me. Um dia de dezembro dou-me (a) conta do acontecido. Diante da "barata" (não literalmente, por favor, que não tenho sucos gástricos lispectorianos), paralisei-me. E agora? Jogo tudo fora e me orgulho de mim mesma por tal ato inesperado e heróico? Ou dou ainda uma "olhadinha" e guardo "apenas" o que ainda possa ter algum "interesse"?

Já adivinharam a resposta. Certamente não estaria aqui (des)escrevendo minha "vitória" e, sim, escrevendo para.... (Umberto Eco disse em uma entrevista no Caderno Mais, Folha de São Paulo em 11 de maio de 2008 que ele continua escrevendo porque.... ih.... esse se foi ...) dar continuidade e substância à minha mania. Mas, caríssimos, tenho que confessar (de novo?) que o prazer é enorme. E em dobro. Explico. Primeiro prazer é o de fazer acontecer "o" dia ideal. Sábado, chuvinha inesperada e temperatura amena mais inesperada ainda em dias de dezembro, ouvindo "Desert Rose" de Sting, mergulho minhas mãos entre os papéis-jornais. Abaixo o volume. Leio (achei! Umberto Eco!):

Não acredito na felicidade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo - sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram 10 segundos ou meia hora. (...) Existem momentos de felicidade quando vc consegue expressar alguma coisa que o deixa contente. (...) Acredito ainda que a vida serve apenas para recordar nossa própria infância. Cada momento em que consigo me recordar bem de um instante de minha infância é um momento de felicidade, mas isso não quer dizer que os momentos de minha infância tenham sido momentos de felicidade. A infância e a adolescência são períodos muito tristes. (...) Algo de muito bonito que ocorre ao envelhecermos é que nos recordamos de um multidão de coisas da infância que tinham sido esquecidas. (...) Por isso, vou ao encontro de minha velhice com muito otimismo, porque, quanto mais envelheço, mais recordações tenho de minha infância.

E eis meu segundo grande momento de prazer: perceber a felicidade nos poucos segundos dessa leitura. E não importa se concordo ou não com o depoimento, se foi escrito em 2008 ou 2010, se foi de Umberto ou Borges. A felicidade, quase não a sinto mais, foi do acontecimento em si: a música, o vento entrando pela janela, o contato com o papel-jornal, a pausa, nova música ("Fragile" ainda com Sting), e o cheiro da dama-da-noite que insiste em tanto florir nessa manhã de fim de primavera.

Momentos memoráveis. E de repente o que era passado se torna presente e o presente se enche de um passado tão vivo. Daí que as lembranças evocadas pelos jornais antigos podem se tornar tão doces "presentes"...


PS:
1.Em entrevista publicada no caderno Prosa e Verso do Jornal O Globo - 31 de janeiro de 2009 - uma pianista chinesa afirma que há humor na música de Bach, principalmente nas "Variações Goldberg". Na décima e décima oitava. A conferir.
2. É possível que o título dessa postagem se torne um "marcador" e aí teremos outras "croniquinhas" acerca de "Jornais Antigos". Ou não.
3. Se houver a próxima, será exatamente sobre "Crônica:definições" - texto de Veríssimo publicado em.... sei lá, só sei que foi em uma revista de um jornal já extinto. Ui!
4. Me apaixonei (de novo) pelo Sting.
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Telma Miranda



Os dias nunca mais serão os mesmos em Realengo. A vida se desfez. Faltam peças fundamentais no quebra-cabeça e, por isso, já não há sentido. A dor é tamanha que ecoa dentro de todos nós. Como fazer para recuperar os dias? Não há como. Nunca mais a vida será a mesma. As peças continuarão ausentes e o mundo queda em um silêncio/grito mortal. Quase impossível lidar com as perdas, os absurdos, o não-entendimento. Neste momento só cabe a dor de tudo sentir e nada compreender. E a cada dia, mais dor parece advir e quanto maior a dor, menos se torna possível entender. Mas justamente neste momento é preciso não adoecer e sim adolescer. Sem dúvida, é preciso ser Karine ou Larissa e imaginar uma nova vida a partir da presença de suas ausências. Uma vida diferente, sim, muito diferente do que se imaginava. Por isso mesmo, imaginar é preciso. Sonhar, como elas, um mundo possível. E aí um dia - de sol ou de chuva -, diante de um mundo sem sentido, poder reunir os fragmentos e inventar um novo desenho, novos rumos. Como só a adolescência é capaz.
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Telma Miranda


Todo início de ano é assim: tudo é novo e tudo se repete. Ansiamos pelo novo ou insistimos em projetos não realizados, sempre na expectativa de que boas novas acontecerão. No fundo, a grande interrogação humana: temos, afinal, um destino? As opiniões, óbvio, são várias e variam de acordo com a fé, ideologia, filosofia de cada um. Sabemos, todos nós, que não há resposta. Cada um acredita na sua versão: é apenas uma questão de fé. Daí a encruzilhada: tenho desejo, exerço minha vontade, faço acontecer ou há algo mais que desconheço e que estranhamente sinto que concorre não a meu favor? É exatamente este o ponto crucial de nosso sofrimento: como não podemos saber, o que mais desejamos é justamente saber. Saber o futuro, o que nos espera. Saber, enfim, o tal destino.
Muitos filósofos, teólogos, poetas já se debruçaram sobre esse assunto. O poeta Emílio Moura, em seu poema intitulado "Interrogação", nos revela uma bela imagem. Vejamos:




INTERROGAÇÃO

Sozinho, sozinho, perdido na bruma.
Há vozes aflitas que sobem, que sobem.
Mas, sob a rajada ainda há barcos com velas
e há faróis que ninguém sabe de que terras são.

- Senhor, são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco?
Eu tenho as mãos cansadas
e o barco voa dentro da noite.



Aí temos o homem, sozinho, perdido na bruma, na "noite", com uma pergunta e sem resposta. É o quadro da nossa condição humana: somos absolutamente sós, perdidos, buscando compreender a vida, a morte. Podemos entender as ondas como o destino, o imponderável, o que nos cerca e que não podemos controlar. Seriam as ondas que dirigem o barco? Ou seriam os remos - as minhas mãos, o meu trabalho, os meus esforços, a minha responsabilidade, as minhas escolhas - que me levariam em segurança para a praia? Não sabemos. Nunca saberemos. Na dúvida, usemos os remos.
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Telma Miranda




"Entre o mar e a terra viajo há séculos
sem encontrar céu, sem encontrar céu,
mas tenho a ânsia desse país."

Jorge de Lima em "Tempo e eternidade"



Ao meio dia de hoje recebi a notícia da morte de Moacyr C. Lopes. Conheci Moacyr nos anos 80, quando cursava a faculdade de Letras, e desde então mantínhamos um laço de amizade. Li seus livros com muito interesse e um deles sempre me impressionou pelo vigor da narrativa e um certo clima fantástico: "Belona, latitude noite". O navio cargueiro Belona está perdido na noite, no mar, atingido por uma terrível tempestade e pela peste. Todos os passageiros estão perdidos - em sua própria existência. Belona representa, para mim, nossa própria travessia pela vida. Com os nossos enfrentamentos, paixões, descobertas e sobretudo a estranha vivência da experiência do tempo. Perdidos na noite, vagando pelo "mar" misterioso, buscamos rumo, direção, com os olhos voltados para as estrelas. Talvez seja possível também pensar Belona como uma metáfora de um país, cujo comandante precisa criar um leme, descobrir rumos, conduzir as pessoas. Porém, o mais surpreendente no livro é o jogo com o qual Moacyr nos leva a vivenciar uma forte experiência do tempo:

"...sim, o homem cria vínculos, forma uma tradição de tempo e vivência nos poucos minutos transcorridos..." (Belona, latitude noite)

Sim, Moacyr. Criamos vínculos afetivos, vivemos o tempo cronológico, mas, como disse um crítico (sobre este livro), "libertar-se do tempo é ingressar na eternidade da morte." Hoje, Moacyr, foi a sua vez. Amanhã seremos nós. Boa viagem.
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Telma Miranda
Ato 1

DIVINA COMÉDIA


Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam:—"Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?"
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem:—"Homens! porque é que nos criastes?"



Este soneto do poeta português Antero de Quental (1842-1891) nos coloca diante da eterna questão humana: afinal, o mundo existe apesar de nós ou somos nós que o criamos? E se somos criadores, porque criamos os deuses?



Ato 2


O DESCONHECIDO

Tudo é ilusão.

A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade. Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.

Criar é mentir.

Para pensar o não‑ser criamo‑lo, passa a ser uma coisa. Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais.

Nós próprios, porque existimos, somos criações também, portanto ilusões. Mas somos criações de quem? Do Deus que nós próprios criamos? Como se o criamos nós, e lhe somos portanto anteriores? Isso é supondo real o tempo, que é outra criação nossa. Tudo é um amontoado de ilusões.

Aquilo a que chamamos verdade é aquilo a que também chamamos o ser. Verdadeiro é o que é. Mas o que é é ilusão. Por isso a verdade é a ilusão, é uma ilusão.

A que abismo vamos ter?

Quanto mais forte o pensamento, o sentimento, a vontade, maior o poder criador.

O que a ocultistas é verificável é falso. Há imortalidade, mesmo eternidade da alma, mas isto é falso. Há um Deus eterno, criador do céu e da terra, e isto é falso. Ser é não‑ser.

Nunca podemos deixar de criar, por isso nunca podemos deixar de mentir.

A própria ilusão é uma ilusão.

[...]

Não haverá graus na ilusão? Quanto mais criadora uma coisa é mais ilusória. Partindo do nosso espírito, vemos quais as maiores ilusões ...

Tudo se reduz a criar.

Tudo se reduz a iludir-se.

Portanto criar é mentir.



Esse texto filosófico de Fernando Pessoa, outro poeta português, nos transforma em seres criadores e, por isso mesmo, mentirosos. Criamos, mas tudo que criamos não passa de ilusão.



Ato 3

"Para Epicuro, os deuses são realmente o que há de melhor e mais excelente, de modo que podem ser os êmulos de nossas ações. Mas este ideal divino de vida feliz se projeta sobre o homem mais nobre não como um exercício arbitrário de desejo, poder e vontade despótica, mas como a máxima serenidade, a mais imperturbável ataraxia. Os deuses, mais do que qualquer um, são imperturbáveis por nossos feitos, seja para agradá-los, seja para afrontá-los. (...) Não precisamos temer os deuses, nem nos pautar por servi-los. Os deuses absolutamente não precisam em nada de nós."

Outro Fernando, Santoro, em seu livro "Arqueologia dos Prazeres".



Final

Lemos em Diógenes que Epicuro teria criado o tetrafármaco - um conjunto de quatro preceitos criados por ele como uma receita para bem viver. O primeiro deles remete justamente à criação dos deuses. Os homens os teriam idealizados à sua semelhança, diferindo apenas no poder excedente e na imortalidade. Ao projetar seus valores e ideais em seres imortais, os homens acabaram por criar, paradoxalmente, algo que se tornou mais poderoso e forte. Um poder divino ao qual se submetem mas que, ao mesmo tempo, desejam que decida de acordo com a vontade humana.

Criamos deuses para nossa servidão voluntária, abrindo mão de nossa liberdade de ação. Criamos os deuses e desejamos agradá-los - como de resto a todos - e nunca fazemos o suficiente. Estamos eternamente em dívida - de impossível quitação. Sem crédito, aguardamos a sentença:

"O peso do olhar divino sobre as ações humanas faz com que se esteja o tempo todo preocupado em agradar ou não desagradar os deuses, enquanto não se examinam realmente a virtude e a excelência das próprias ações. Responsabilizamos os deuses pelo que nos vem de bom ou de ruim, como se estivessem muito preocupados em nos recompensar ou castigar.(...) Com tudo isso, abrimos mão de exercer nossa liberdade na responsabilidade das decisões e das ações." ("Arqueologia dos prazeres" de Fernando Santoro).

Não sabemos - e nunca saberemos - se foram os deuses que nos criaram ou fomos nós que os inventamos. Não importa. Se os criamos como modelos aos quais queremos imitar e obedecer, o primeiro passo para uma vida feliz, segundo Epicuro, seria justamente livrar-nos dessas projeções transcendentais e viver de forma livre e plena. Afinal, "os deuses não estão nem aí para nós."
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Telma Miranda
Vinha de ler e ouvir Pessoa (na voz de Bethânia). Lembro bem que aos dezessete (por aí) ler Pessoa-Caeiro fazia todo o sentido. Suas interrogações e exclamações ecoavam agudas no meu não-saber. E eram minhas! E um pensamento ingênuo nascia: ele sabe sobre mim! Seus versos eram meus - ou diziam de mim:

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


*** *** ***

Dormir! Não ter desejos nem esperanças!

*** *** ***

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!


*** *** ***

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!


*** *** ***

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?




Anos depois, talvez mais dezessete, fui apresentada à poesia de Marly de Oliveira. Novo arrebatamento! Havia encontrado uma poesia que sentia como minha, versos que me "diziam", uma nova voz que me levava novamente ao êxtase do sentir poético. O livro "Vida Natural", publicado em 1967, revelava uma poeta inquisitiva que me cativou desde então. Meio "pessoana", é verdade, com seu "questionamento sobre a perenidade das coisas e sobre nosso estar no mundo".

"O sentido das coisas,
onde achá-lo, senão nas próprias coisas?
Ou algo está por trás
da rumorosa vida de um inseto,
da quietude da flor, do meu espanto,
vivendo-nos tranquilo,
e cada dia nos absorve um pouco?"


Ainda

"Sonhamos o que vemos
ou somos nós o sonho
daquilo que não vemos no que vemos?"


E um dos meus preferidos:

"Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.

Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?

Aquela que ontem via
o que ora vejo, não é mais em mim?
Então me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra, ou me acrescento ao que já sou?

No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém."


Há muito....

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Há pouco ganhei um encarte com poemas de Marly na voz de Lauro Moreira Lima. No livro intitulado "O sangue na veia", encontramos versos "onde há o desejo de desligar o conceito de amor do de paixão" (palavras da própria Marly). E é dentre os 56 poemas que compõem este livro que Lauro escolhe alguns que são apresentados aqui neste vídeo. Para nosso enlevo e elevação da alma.


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Telma Miranda
"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível.
E assim que consegui, voltei correndo pra ela."
Orson Welles



Children's games - Pieter Bruegel (1525/30 - 1569)

"Eu com as quatro,
eu com ela, eu sem ela,
eu por cima, eu por baixo."

...e lá íamos nós cantando, movimentando mãos, prestando atenção, experimentando posições. Sem querer (nem saber) íamos construindo um eu e tecendo laços com outros eus.

"Lá em cima daquela montanha,
avistei uma bela pastora,
que dizia em sua linguagem,
que queria brincar.
Bela pastora entra na roda,
para ver como se brinca.
Uma roda, roda e meia
Abraçais quem vós quereis."

As cantigas de roda... esquecemos? Mas ficamos marcados pela ciranda de mãos que dávamos, largávamos, dávamos de novo, e mais brincávamos, mais queríamos brincar.

"São três irmãos.
O primeiro já morreu;
o segundo vive conosco
e o terceiro não nasceu?"

- passado, presente e futuro! Adivinhávamos, sem saber que exatamente naquele momento vivíamos um tempo e construíamos outro.


Mas um dia o jogo muda e o brincar emudece.

Mais tarde, quando a poesia pode ser nossa possibilidade de redenção, como encontrá-la?

"Ela está para além da seriedade, naquele plano mais primitivo e originário a que pertencem a criança, o animal, o selvagem e o visionário, na região do sonho, do encantamento, do êxtase, do riso. Para compreender a poesia precisamos ser capazes de envergar a alma da criança como se fosse uma capa mágica, e admitir a superioridade da sabedoria infantil sobre a do adulto.", nos diz Huizinga em seu livro "Homo Ludens".

Tudo isso por causa de uma experiência recente. Tenho sempre certa cautela com vídeos que expõem crianças, seja de que forma for. Mas um deles me comoveu. O pequeno Howard parecia se divertir diante das pessoas que o assistiam, surpresas diante da potencialidade do menino. Não sei das condições reais, mas parecia uma brincadeira onde risos, seriedade, erros e acertos compõem, ao final, a música de um momento poético.

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Telma Miranda
"As coisas que não levam a nada
tem grande importância.
Cada coisa ordinária é um elemento de estima."
Manoel de Barros


Quem nunca guardou um pétala de flor recebida do namorado na agenda? Ou um bilhetinho da melhor amiga dizendo que a amizade era para sempre? Ou uma embalagem de um bombom, um postal ou mesmo umas conchinhas catadas naquela tarde? Coisas insignificantes que significam tanto! Costumava também guardar esses objetos com carinho, como se cada um deles pudesse me devolver, em algum outro momento da vida, a emoção sentida. Como a personagem do filme mexicano "Coisas insignificantes", também me apegava a essas pequenas-grandes insignificantes coisas. Entretanto, no filme, as "coisas insignificantes" adormecidas na pequena caixa de Esmeralda possuem um valor diverso.


Esmeralda é uma adolescente tímida, silenciosa, que resgata objetos esquecidos e os coloca em uma pequena caixa. Não os compreende, muito menos percebe a importância deles. Apenas acaricia os objetos como se, com esse gesto, pudesse resgatar um vínculo afetivo perdido. Eles não lhe pertencem, nem trazem nenhuma recordação vivida. Abandonadas e posteriormente recolhidas por Esmeralda, as coisas "insignificantes" adormecem na caixa, "significando" algo ainda por nascer. Tais objetos, de alguma forma, se relacionam com gestos de amor inconclusos, incompreendidos, e que quedaram inúteis em sua intenção. Foram "criados" em momentos onde a palavra não foi possível, embora as pessoas, ainda assim, acreditassem que, através deles, pudessem comunicar suas emoções. Os pequenos objetos "insignificantes" adormecidos dentro do baú de Esmeralda não pertencem a ninguém. Apenas resistem, na esperança de cumprirem seu papel: "dizer" um afeto. Cada um deles remete a uma história, na qual há fundamentalmente uma impossibilidade de amar. Ou talvez uma enorme dificuldade de expressar esse amor. O que dá no mesmo. Os objetos representam tanto "a ausência da comunicação como a sua possibilidade".

A silente menina se torna guardiã da caixa, já repleta de segredos, silêncios, gritos: tantas mensagens de amor que não chegaram a seu destino. Até o dia em que, ao valorizar seus próprios laços afetivos, Esmeralda percebe que não precisa mais dos objetos alheios, pois descobre em si a possibilidade de efetivamente amar. Abandona a caixa, se aproxima da irmã e compartilha um momento de delírio da avó, acreditando agora que é possível conceber um outro mundo, um mundo de afetos compartilhados.
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Telma Miranda

The Reader - Fragonard (1732/1806)


Era uma manhã de junho. Colégio Pedro II, em São Cristóvão. Com frio, sem nada pra fazer no recreio e irritada com alguma implicância feita por um dos colegas, entrei pela primeira vez na biblioteca: uma sala toda envidraçada que víamos do pátio e à qual não dávamos importância maior. Sozinha, tímida, sem saber direito o que fazer, caminhei por entre as estantes tentando lembrar um nome, qualquer, que me tirasse daquele desconforto. Foi então que li: Carlos Drummond de Andrade. Abri o livro:

COTA ZERO

STOP.
A vida parou
ou foi o automóvel?


Uma sensação... não sei dizer. Um soco? Uma surpresa?
Como assim? Era um poema? Uma pergunta? Haveria uma resposta?
O que faço agora? Fecho o livro e vou embora? Finjo que isso nunca existiu?
Volto para a minha vida? Qual vida, se agora....

Foi nessa manhã de junho que nasci.

*******

Em outras tardes de junho, a dor de me saber só, de possuir a lucidez dos que se instalam nas sombras, de me sentir diminuta na imensidão de mim mesma me impelia a crescer, talvez muito mais do que suportaria e menos do que (ainda não sabia) seria possível.


VERBO SER

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor.
Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer?
Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser?
Dói? É bom? É triste?

Ser; pronunciado tão depressa,
e cabe tantas coisas
Repito: Ser, Ser, Ser.
Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a?
Posso escolher?
Não dá para entender.
Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser.
Esquecer.



*******

E nas longas noites insones, quando o amor me comovia e lágrimas de saudade faziam brilhar as estrelas, a palavra poética mais uma vez dava sentido a tudo. A tudo aquilo que não tem sentido algum.


AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
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Telma Miranda

Todos os anos, principalmente na Semana Santa, era obrigatório pedir a benção à minha madrinha, que com toda a "pompa e circunstância" dizia: Que Deus a abençoe! Madrinha Delva. Ela se orgulhava dos afilhados - de fé e de coração - cujos feitos traziam um colorido para sua vida tão humilde. No último sábado fui pedir-lhe a derradeira benção. E ela, incrivelmente, ainda foi capaz de me abençoar ao me proporcionar um reencontro com estranhos que de repente reconheço como primos, tios, tias de um outro tempo. E novamente de agora. Me surpreendo diante de tanto afeto. Sempre me pergunto que sentimento é esse que transforma, em segundos, pessoas desconhecidas em parentes queridos. E a generosidade com que trocamos olhares de reconhecimento foi ainda maior, preenchendo uma existência não-comum mas repentinamente compartilhada. Na despedida, agradeço mais essa benção e percebo que, após tantas outras recebidas, era a minha vez e ousei dizer-lhe: Que Deus, em sua infinita misericórdia, a abençoe!
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Telma Miranda

Ah! se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só prá ser um sonho

Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria

E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, oh brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar.

Johnny Alf

Para lembrar momentos vividos (certamente guardados na memória do coração) por aqueles que compartilharam, na juventude, os sonhos de amor e a beleza da canção.
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Telma Miranda

Em setembro de 2009, escrevi um texto sobre hábitos de leitura e Bienal, movida por uma matéria jornalística. Volto ao tema, igualmente inspirada pelos jornais. Desta vez, diferentemente do meu texto anterior (sobre a leitura), para me confraternizar com as idéias de Michèle Petit, expostas em uma entrevista publicada em 20 de fevereiro de 2010. Um trecho da entrevista vai ao encontro do que penso: "Certos discursos de glorificação da leitura dão vontade de jogar videogame! E os discursos jamais fizeram alguém ler, tampouco as campanhas de massificação para "criar" ou "formar" leitores. Seja pai ou professor, quem diz que uma criança tem que ler ( ou pior: que tem que gostar de ler!) faz da leitura um fardo ao qual ela precisa se submeter para satisfazer os adultos." Na verdade não é com suas idéias que comungo, mas sim com todo um pensamento já existente que ela, como antropóloga estudiosa, sistematizou em livros. A idéia da leitura (silenciosa ou compartilhada) como dispositivo para criar espaços de liberdade e resistência, de estruturação da subjetividade e das relações sociais é inegável. Há várias iniciativas neste sentido no Brasil (http://tracasdobem.blogspot.com/, http://www.aletria.com.br/, http://www.acordaletra.com.br/ e tantos outros), além de produções cinematográficas - como "Narrativas de Javé" e "Abril despedaçado." - que abordam o tema da transformação através da leitura. A questão não é, como foi dito, formar leitores mas compartilhar palavras e daí ser possível se apaixonar pelo livro, criando laços subjetivos e sociais. Lembro-me sempre, quando abordo esse assunto, de uma cena de um filme de 1960, dirigido por Kubrick, protagonizado por Kirk Douglas, um líder forte e corajoso do povo de Esparta. Uma noite estão todos ao redor de uma fogueira quando o poeta (interpretado por Tony Curtis) lê e magicamente todos ficam extasiados diante da leitura. O grande guerreiro Spartacus, que não sabia ler, se revela frágil e sensibilizado diante do poeta e da força de suas palavras. Cena comovente para quem sabe das transformações advindas da palavra - escrita ou falada. A viagem através das palavras é libertadora, pois ocorre na imaginação de cada um, onde não há cifras, grilhões e sim todas as possibilidades de existência.
Telma Miranda
A verdadeira viagem de descoberta
não consiste em procurar novas paisagens,
mas em ter novos olhos...

(Marcel Proust)


Percebi isso há muito tempo. Quando, não sei ao certo. Era muito pequena, mas lembro que meu pai me levava a passear em Niterói e ficávamos horas esperando a hora de embarcar em uma enorme barcaça que atravessava a baía levando os carros - como o karmanguia azul de meu pai- e minha admiração. O rosto gelava com o vento, enquanto os olhos - espremidos - se fartavam de paisagem durante aquela travessia que durava uma eternidade. Alguns anos mais tarde, já universitária, voltava da faculdade na barca das 23:00. A paisagem noturna era sempre estranha, com luzes brilhantes contrastando com o breu da baía. Mais alguns anos e muitas idas e vindas, sempre me surpreendo, pois a cada vez que desbravo a baía, ela é sempre a mesma e sempre outra. Um dia, uma amiga me disse que, durante uma viagem, teve uma experiência interessante: aprendeu sobre o "olhar de turista". Sim, olho de turista. Um olho admirado, como quem vê pela primeira vez. Como um olho de um poeta, de um filósofo, ou mesmo de alguém disposto a viver somente aquele dia. Palavras dela: "atravessar a baía hoje, para mim, é sempre um passeio e me encanto sempre, como alguém que está de passagem". Mais. Ela fala sobre uma certa elegância que nada tem a ver com recursos financeiros. Palavras ainda dela: "posso ir a Paris, não visitar o Louvre e ficar lendo Drummond sentada em um banco do Jardim de Luxemburgo, assim como posso ler Baudelaire em francês a bordo da barca Itapuca". Sábia essa minha amiga; e a compreendo perfeitamente. E imagino que, mesmo não sendo mais aquela menina admirada com a travessia, sei que de alguma forma ainda sou ela. Que mesmo diante de um mundo de sempre (e sempre outro) e das mesmas paisagens, sei que ainda é possível descobrir novos olhares.


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Me lembro ainda de um apólogo ( ou uma parábola, enfim) que havia no livro de leitura silenciosa, nos anos idos. Um homem queria saber o que é a felicidade. Resolveu perguntar a um sábio que, naturalmente, respondeu que não sabia, mas poderia indicar um caminho e pede que ele lhe diga o que está vendo:
- Vejo o mundo, senhor...
- Olha mais!
- Vejo campos, serras, nuvens no céu, bois no campo...
- Olha mais!
- Nada mais vejo, senhor!
- Olha bem!
- Senhor, nada mais vejo.
- Como posso te mostrar o caminho da felicidade, se é isso apenas o que vêem os teus olhos?
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Telma Miranda
Janeiro



Um cavaleiro de copas sorri
memórias de temporais
nas mãos um barco
no peito um entardecer


nos olhos um cisco
que teima em
não se desfazer...


Telma Miranda
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