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Telma Miranda


História verídica

Um senhor deixa cair ao chão os óculos, que fazem um barulho terrível ao bater nos ladrilhos.  O senhor se abaixa aflitíssimo porque as lentes dos óculos custam muito caro, mas descobre assombrado que por milagre elas não se quebraram.
Agora esse senhor sente-se profundamente grato, e compreende que o acontecimento vale por uma advertência amigável, de maneira que se dirige a uma ótica e compra logo um estojo de couro acolchoado, com proteção dupla, como precaução.  Uma hora depois deixa cair o estojo e ao abaixar-se sem maior preocupação verifica que os óculos viraram farelo.  Esse senhor leva tempo para compreender que os desígnios da Providência são insondáveis e que na realidade o milagre aconteceu agora.


 Julio Cortázar - "Histórias de cronópios e de famas"






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Telma Miranda



Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pode ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis.  E lá no fundo está a morte,  se não corremos e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

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Instruções-exemplos sobre a forma de sentir medo

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Sabe-se de um caixeiro-viajante que começou a sentir dor no pulso esquerdo, justo debaixo do relógio de pulso.  Ao arrancar o relógio, o sangue jorrou: a ferida mostrava os sinais de uns dentes muito finos.
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Julio Cortázar - "História de cronópios e famas"
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Telma Miranda
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Telma Miranda

Em setembro de 2009, escrevi um texto sobre hábitos de leitura e Bienal, movida por uma matéria jornalística. Volto ao tema, igualmente inspirada pelos jornais. Desta vez, diferentemente do meu texto anterior (sobre a leitura), para me confraternizar com as idéias de Michèle Petit, expostas em uma entrevista publicada em 20 de fevereiro de 2010. Um trecho da entrevista vai ao encontro do que penso: "Certos discursos de glorificação da leitura dão vontade de jogar videogame! E os discursos jamais fizeram alguém ler, tampouco as campanhas de massificação para "criar" ou "formar" leitores. Seja pai ou professor, quem diz que uma criança tem que ler ( ou pior: que tem que gostar de ler!) faz da leitura um fardo ao qual ela precisa se submeter para satisfazer os adultos." Na verdade não é com suas idéias que comungo, mas sim com todo um pensamento já existente que ela, como antropóloga estudiosa, sistematizou em livros. A idéia da leitura (silenciosa ou compartilhada) como dispositivo para criar espaços de liberdade e resistência, de estruturação da subjetividade e das relações sociais é inegável. Há várias iniciativas neste sentido no Brasil (http://tracasdobem.blogspot.com/, http://www.aletria.com.br/, http://www.acordaletra.com.br/ e tantos outros), além de produções cinematográficas - como "Narrativas de Javé" e "Abril despedaçado." - que abordam o tema da transformação através da leitura. A questão não é, como foi dito, formar leitores mas compartilhar palavras e daí ser possível se apaixonar pelo livro, criando laços subjetivos e sociais. Lembro-me sempre, quando abordo esse assunto, de uma cena de um filme de 1960, dirigido por Kubrick, protagonizado por Kirk Douglas, um líder forte e corajoso do povo de Esparta. Uma noite estão todos ao redor de uma fogueira quando o poeta (interpretado por Tony Curtis) lê e magicamente todos ficam extasiados diante da leitura. O grande guerreiro Spartacus, que não sabia ler, se revela frágil e sensibilizado diante do poeta e da força de suas palavras. Cena comovente para quem sabe das transformações advindas da palavra - escrita ou falada. A viagem através das palavras é libertadora, pois ocorre na imaginação de cada um, onde não há cifras, grilhões e sim todas as possibilidades de existência.
Telma Miranda
"Era uma vez, há muito tempo atrás, num lugar muito distante... assim começam as histórias que driblam o tempo, situando-se nas coordenadas imaginárias de passado tão antigo que, paradoxalmente, “parece que foi ontem”. Neste lugar, os poetas são conhecidos como vates, porque fazem vaticínios, enquanto os narradores são conhecidos como aedos e, acompanhando-se à lira, cantam composições épicas.

Vates e aedos debatem-se com a língua porque precisam encontrar uma única forma de dizerem com precisão o que querem dizer. Para tanto, recorrem a formulações alusivas e ambíguas, de modo a que ouvintes e leitores percebam em suas palavras o que querem, ou precisam, ler e ouvir. Apenas dessa maneira paradoxal, através da ambigüidade, comunica-se o que não se pode comunicar: a verdade de cada um.

Semelhante esforço de precisão depende de um esforço equivalente de concisão, para não se dizer nem mais nem menos do que é preciso ser dito. No entanto, a própria língua resiste à pretensão. O gesto de dizer ou escrever sugere o movimento de tentar encher com uma jarra cheia d’água, do alto da cabeça, pequena caneca no chão: se o fazemos com bastante cuidado, até acertamos a caneca, que todavia transborda muito antes de ser preenchida. A palavra, como a água, revela-se tão pletórica quanto insuficiente. “Não era bem isso o que eu queria dizer”, reclamam, desanimados, depois de uma discussão, ambos os namorados, porque, na verdade, nunca dizemos, ou sequer sabemos, o que queríamos dizer: sempre se fala mais – ”eu não disse isso!” – e menos – “você ainda não me entendeu!” – quando não se fala em versos.

Isso acontece porque a língua cotidiana não admite seu caráter pletórico e incompleto, enquanto a poesia parte desse reconhecimento. Por se reconhecer excessiva e incompleta, “a poesia aumenta o território do pensável, mas não diminui o território do impensável”, como já o disse Vilém Flusser. A poesia alarga o horizonte sensível, mas não resolve qualquer mistério. Em outras palavras, se sempre precisamos de outras palavras: faz-se poesia não para resolver os enigmas, mas sim para protegê-los.

A poesia, em si mesma enigmática, procura formalmente a concisão máxima, cortando-se em versos e ampliando o branco da página que a cerca. Talvez por isso façam tanto sucesso, no Ocidente, os poemas orientais do tipo haikai (ou haiku), usualmente reconhecidos como os menores poemas do mundo. Segundo Masuda Goga, o haikai é o poema conciso por definição, formado de dezessete sílabas distribuídas em três versos, na ordem 5-7-5, sem rima nem título.

O poeta que faz haikais (em japonês, um haijin) deve procurar a simplicidade cotidiana, recusando retórica grandiloqüente ou piegas. Como o zen, precisa evitar o raciocínio para poder captar o instante e a transitoriedade “em seu núcleo de eternidade”. O haikai não explica, não discursa – apenas, sugere."

A continuação desse texto está em:
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/editor34.htm

- um site de leitura obrigatório.
Telma Miranda
Pelo menos duas vezes por semana preciso atravessar a praça Getúlio Vargas, em Icaraí - Niterói, a caminho do consultório. Um dia me chamou a atenção a presença de um simpático senhor (certamente ele deve ser simpático), elegantemente vestido, sentado em uma daquelas mesas de concreto, absolutamente compenetrado sobre seus papéis e canetas. Sempre pela manhã, lá está ele. Observo e fico a imaginar (ah... sempre a cruel curiosidade) sua vida, sua história, sua escrita, seus amores. E nem o vento de primavera que chega o afasta de sua tarefa: estará escrevendo cartas? poemas? uma composição musical?. Mas ele permanece, incólume e impassível, comovendo-me. Atravesso.

Penso então em dois outros simpáticos e elegantes senhores. Um é poeta, Mário, Quintana, de Porto Alegre. Outro o grande pianista, Vladimir, Horowitz,da Ucrânia. E me deixo, então, embalar pelo vento de primavera que faz saltitar as folhas naquela manhã, lembrando os grilos do Mário, os dedos de Vladimir e aguardando sempre as boas novas que o vento nos pode trazer.

O que o vento não levou

"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
Mário Quintana.


Telma Miranda

Mad Woman, Delacroix, 1822



Madness


A tal lucidez incomunicável

Que nos deixa mais sós

Não na noite infinda

Mas na manhã

apenas iniciada...



Escrevi isso há algum tempo. Sobre um verso de Pessoa: " A lucidez incomunicável é a pior solidão". Loucura e lucidez unidas na angústia da incomunicabilidade. Muitas vezes me surpreendo palavreando na tentativa de dar conta do tamanho da manhã. Daí a ilusão de clareza e urgência tamanha do papel. Ou da tela, anyway.
E me desconcerto, enquanto o mundo se desconserta.
Mas, paradoxalmente, toda essa loucura (habitada e alheia) que nos aprisiona também nos liberta. Como se brotasse, da alma desassossegada, uma chave que não abre coisa alguma mas que existe em si mesma como possibilidade. Tudo isso pra dizer que reli Clarice e me incomuniquei nela. E acordei com ela um acordo de silêncio. ( A incomunicabilidade junto à Clarice set me free...)


PS: Como não há mais bosques, decidi que a partir de amanhã vou caminhar todos os dias até a praia de Itacoatiara para des-palavrear o mundo. Quem sabe amanhece uma manhã lúcida de sol...
Telma Miranda



Em dias de Clarice, mal consigo rabiscar letras, quanto mais escrever palavras.
Impossível. Só ler e restar. Que nem barata morta esquecida num canto...
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Telma Miranda
Em tempos de Bienal é preciso uma reflexão. Hoje, no jornal "O Globo", lemos (relemos) a mesma ladainha: que as pessoas não têm o hábito de leitura, que o maior motivo é a falta de tempo e que o tal "hábito" se forma na infância. Primeira reflexão: "hábito" de leitura não se forma na infância. A primeira relação com a leitura é através do prazer e este só acontece quando encontramos o "primeiro" livro que realmente faça diferença. Este encontro pode acontecer a qualquer momento. Não adianta expor as crianças a livros (muitos deles subestimam qualquer sensibilidade), a exposições (idas obrigatórias pela escola), a peças de teatro "sofríveis", enfim, a toda uma série de atividades ditas culturais de que, dizem, precisamos participar. Ai daquele que ousa, diante do gato torto de Picasso, dizer que o pintor precisava de óculos. "Não, você não compreende. Isto é arte." E ponto. Voltando.
Quando temos nas mãos O tal livro, através do qual realizamos a grande experiência de leitura, aí sim, nos tornamos leitores. A aventura de ler torna-se uma paixão. Primeiro é a paixão, depois (claro) queremos mais, e a leitura pode assim se tornar um hábito. Este encontro pode acontecer a qualquer momento, em qualquer época: aos cinco anos, com o livro escolhido pelo avô, aos nove, na leitura silenciosa na escola, aos quinze com o livro emprestado pela melhor amiga, aos dezoito, com o livro-presente do namorado, aos trinta, quando compramos "A mulher de trinta anos" de Balzac. Segunda reflexão: a falta de tempo, citada como o grande motivo da falta de hábito de leitura, é o motivo, real sem dúvida, pelo qual deixamos de fazer tudo aquilo que nos traz prazer: não há tempo para conversas, para passeios, para ouvir música (sim, para ouvir música mesmo e não fazer uma trilha sonora para dirigir), enfim, o tempo não existe. E não existe mesmo. Por isso precisamos criá-lo. Terceira reflexão: temos que distinguir o leitor de um comprador de livros. A Bienal, por exemplo, que tem lá seus méritos, visa sobretudo o comprador de livros. Essa insistente estratégia junto ao público infantil, não nos enganemos, visa sobretudo à formação de um novo consumidor. O incômodo que causa em saber que há poucos leitores se transforma em um obstáculo às vendas e ao sucesso da indústria dos livros. Afinal, esta indústria não está preocupada com a leitura - e, com ela, que "as ideias voltem a ser perigosas" - e sim com seus lucros. É claro que existem histórias, como as relatadas no jornal, de pessoas que, ao terem contato com os livros - e a Bienal, como tantas outras iniciativas, é bem-vinda - possam se tornar leitores. Mas é preciso estar atento. Até porque há várias outras tentativas nesse sentido - como a de alguém que colocava livros usados em pontos de ônibus - que não tiveram nenhum apoio. Last but not least, o livro tem o poder de nos libertar e nos levar a um tempo sem ponteiros, um tempo de imersão, possibilitando uma inesquecível experiência. A leitura é ameaçadora, é transformadora. Nos tornamos leitores quando um livro se torna "um espelho coberto de areia sobre o qual depositamos, cheios de temor e de pudor, o que trazemos escrito dentro de nós."(José Castello). Só a verdadeira arte é capaz de nos transformar: é quando após a leitura de um livro, de um filme, de um quadro, nos sentimos outra pessoa e, paradoxalmente, nos sentimos, como nunca, tão intensa e verdadeiramente nós mesmos.
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Telma Miranda
Ainda "habitada" por Orlando (não é fácil partir para outra aventura) preciso compartilhar palavras. Não para me libertar, pois me quero presa a elas para sempre, mas porque talvez assim minha prisão seja ainda mais doce.



Lovers in the country. G. Coubert, 1844





Sobre o homem/mulher:

"Orlando transformara-se em mulher - não há que negar. Mas, em tudo o mais, continuava precisamente o que tinha sido. A mudança de sexo, embora alterando o seu futuro, nada alterava da sua identidade."

"Um pouco de carne, senhora? - perguntou. (...) Qual o êxtase maior? O da mulher ou o do homem? Não serão talvez o mesmo? Não, pensava, este é o mais delicioso (agradecendo ao capitão, mas recusando); recusar e vê-lo entristecer. Bem, aceitaria, se ele o desejava, um pedacinho pequenino, o menorzinho possível. Isto era a coisa mais deliciosa: ceder e vê-lo sorrir. Pois nada(...) é mais divino do que resistir e ceder, ceder e resistir."

"Recordava como tinha insistido, nos seus tempos de rapaz, em que as mulheres devem ser obedientes, castas, perfumadas e caprichosamente enfeitadas. "Agora, tenho de pagar com o meu corpo por aquelas exigências", refletiu; "pois as mulheres não são ( a julgar pela minha própria curta experiência do sexo) obedientes, castas, perfumadas e caprichosamente enfeitadas já por natureza. Só podem conseguir essas graças, sem as quais não lhes é dado desfrutar nenhuma das delícias da vida, mediante a mais enfadonha disciplina. Só o penteado", pensava, "me tomará uma hora, todas as manhãs; outra hora para mirar-me ao espelho; há o espartilho, o banho, os pós, há que trocar a seda pela renda e a renda pelo brocado; há que ser casta o ano inteiro."

"É melhor", pensou, "estar vestida de ignorância e pobreza, que são os obscuros ornamentos do sexo feminino; é melhor deixar a outros o governo e a disciplina do mundo; é melhor estar livre da ambição marcial, do amor ao poder e de todos os outros desejos varonis, desde que se possam fruir em toda a plenitude os mais sublimes arrebatamentos do espírito humano, que são", disse em voz alta, como era seu costume quando estava profundamente comovida, "contemplação, solidão, amor." "Graças a Deus que sou mulher", gritou.

"Orlando já sabia, pela sua própria experiência de homem, que os homens choram tão frequentemente e tão sem razão quanto as mulheres; começava, porém, a perceber que as mulheres se escandalizam quando os homens manifestam sua emoção diante delas, e estava escandalizada."

"Mesmo agora (...) estava em vias de fabricação. A mudança era incessante; a mudança talvez não cessasse nunca. (...) Como tinha mudado tão pouco em tantos anos. Fora um rapaz melancólico, enamorado da morte, como são os rapazes; depois amoroso e exuberante; (...)Apesar de todas essas mudanças - refletia - tinha ficado fundamentalmente a mesma. Afinal de contas, nada mudou."





Man writing a letter. Met Su, 1662

Sobre escrever:

"Estava descrevendo, como todos os poetas jovens sempre descrevem, a natureza, e, para determinar precisamente um tom de verde, olhou (e nisso mostrou mais audácia que muitos) para a própria coisa, que era um loureiro por baixo da janela. Depois disso, naturalmente, não pôde mais escrever. Uma coisa é o verde na natureza; outra coisa, na literatura. Entre a natureza e as letras parece haver uma natural antipatia; basta juntá-las para que se estraçalhem. O tom de verde que Orlando agora via estragou-lhe a rima, quebrou-lhe o metro."

"Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura. Muita gente de seu tempo, mais ainda, da sua hierarquia, se livrou desse mal, e tinha assim a liberdade de correr, cavalgar ou amar como bem lhe apetecesse. (...) Porque a doença de ler, uma vez tomando conta do organismo, enfraquece-o a ponto de torná-lo fácil presa desse outro flagelo que habita no tinteiro e supura na pena. O desgraçado dedica-se a escrever."

"Qualquer pessoa regularmente familiarizada com os rigores da composição dispensará pormenores; como escreveu e pareceu-lhe vil; corrigiu e rasgou; aparou; acrescentou; extasiou-se; desesperou-se; teve suas noites boas e suas manhãs ruins; apreendeu idéias e perdeu-as; viu diante de si o seu livro nítido, e desvaneceu-se; personificou seus heróis, enquanto comia; recitou suas falas, a caminhar; ora chorava; ora ria; vacilou entre este e aquele estilo; ora preferia o heróico e pomposo, em seguida, o singelo e simples; agora os vales de Tempe, depois os campos de Kent ou Cornwall; e não chegou a saber se era o mais divino dos gênios ou o maior louco do mundo."

"...Orlando retirava-se sozinho para o seu quarto. Lá, com a porta fechada, e certo da sua solidão, tirava um velho caderno, cosido com seda roubada ao costureiro de sua mãe e rotulado, com uma redonda letra de colegial, O Carvalho - poema. Nele escrevia até muito além da meia-noite. Mas como apagava tanto quanto escrevia, no fim do ano o total de versos costumava ser bastante menor do que no princípio, e era como se, à medida que o escrevesse, o poema fosse ficando inteiramente por escrever."

"A letra s - reflete - é a serpente no Éden do poeta. Mas o s não era nada, em sua opinião, comparado à terminação "ando". O particípio presente é o próprio demônio, pensava(...). Evitar tais tentações é o primeiro dever do poeta, concluía, pois, como o ouvido é a antecâmara da alma, a poesia pode arruinar e destruir com mais segurança do que a luxúria ou a pólvora. O ofício do poeta, continuava, é portanto o mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para os outros é inatingível."

"Pois, se é temerário entrar desarmado no antro do leão, se é temeráio navegar pelo Atlântico num barco a remo, temerário ficar num pé só no alto da Catedral de São Paulo, é ainda mais temerário ir para casa a sós com um poeta. O poeta é ao mesmo tempo um leão e o Atlântico. Um nos afoga e o outro nos rói. Se sobrevivemos aos dentes, sucumbimos nas ondas. Um homem que pode destruir ilusões é, ao mesmo temo, fera e dilúvio."

"A mais banal conversação é muitas vezes a mais poética, e a mais poética é precisamente a que se não pode anotar. Razão pela qual aqui deixamos um grande espaço em branco, o que servirá para indicar que o espaço está completamente repleto."



A Dance to the music of time. Nicolas Poussin, 1635



Sobre o tempo:

"Mas, desgraçadamente, o tempo, que faz florescerem e murcharem animais e vegetais com espantosa pontualidade, não tem sobre a mente humana um efeito tão simples. A mente humana atua com igual estranheza sobre o corpo do tempo. Uma hora, instalada no estranho elemento do espírito humano, pode ser distendida cinquenta ou cem vezes mais do que a sua medida no relógio; inversamente, uma hora pode ser representada no tempo mental por um segundo. Esse extraordinário desacordo entre o tempo do relógio e o tempo do espírito é menos conhecido do que devia ser, e merece mais profundas investigações. Mas o biógrafo, cuja tarefa, como já dissemos, tem de ser limitada, deve reduzir-se a declarar: quando um homem chega aos trinta anos, como Orlando, o tempo dedicado a pensar se torna estranhamente longo, e o tempo dedicado a agir estranhamente curto."

"A verdadeira extensão da vida de uma pessoa, diga o que disser o Dicionário Biográfico Nacional, é sempre matéria discutível. Porque é difícil esse registro do tempo: nada o desordena mais rapidamente que o contato com qualquer das artes."

"A memória faz a sua agulha correr para dentro e para fora, para cima e para baixo, para cá e para lá. Não sabemos o que vem em seguida, o que virá depois."
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Telma Miranda

Uma grande e inesquecível experiência de leitura! Reler Orlando, de Virgínia Woolf (na tradução primorosa de Cecília Meireles) foi um verdadeiro êxtase. É uma obra prima. Orlando nasce homem no século XVI, transforma-se em mulher e vai até o século XX. Um passeio pela história da Inglaterra (a descrição da inundação no final do primeiro capítulo é primorosa: é o próprio fluxo da história). O relógio toca as badaladas: o céu claro do século XVIII torna-se escuro no século XIX. As casas ficam recobertas de heras e há umidade por toda a parte: no madeiramento, nos pensamentos, no tinteiro. "Os adjetivos se multiplicaram; a poesia lírica tornou-se poema épico; e pequenas bagatelas, que tinham sido ensaios de uma coluna, eram agora enciclopédias de dez ou vinte volumes." Orlando um dia acorda mulher, olha em volta e percebe que todos andam aos pares: é a era do casamento. Lady Orlam se casa e rende-se à maternidade. Chega o século XX: a água aquecida, "a um toque a sala inteira estava iluminada", a fábrica de guarda-chuvas, o trem, as vitrines, "uma loja que vendia livros", os empregados de banco, a fragmentação da identidade do ser humano, os "rios de gente". A hera havia secado. E Lady Orlam presta, então, uma reverência ao espírito da época...
Tudo é genial. Cada página, cada parágrafo, cada palavra nos ata para sempre ao próprio ato de ler. Passear pelas frases, conduzida por Virgínia e Cecília através das palavras escolhidas, é uma experiência absolutamente necessária e imprescindível. Tempo infinito da mais pura Beleza.
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Telma Miranda
"Amar é regozijar-se, ou mais exatamente, amar é regozijar-se com. Imagine que alguém lhe diga: "Fico contente com a idéia de que você existe", ou então "quando penso que você existe, fico contente". Você vai considerar isso uma declaração de amor - e com razão. Mais do que isso, é uma declaração de amor que não lhe pede nada. Vocês podem objetar: "Mas, quando alguém diz "eu te amo", também não está pedindo nada..." Está sim. E não apenas que o outro responda "eu também". Ou antes, tudo depende de que tipo de amor se declara. Quando você diz "eu te amo", isso significa: "Você me falta" e, portanto, "eu te quero". Então é, sim, pedir alguma coisa, é até mesmo pedir tudo, já que é pedir alguém, já que é pedir a própria pessoa! "Eu te amo: quero que você seja minha". Ao passo que dizer "Estou contente com a idéia de que você existe" não é pedir absolutamente nada: é manifestar uma alegria, em outras palavras, um amor que, é claro, pode ser acompanhado de um desejo de união mas que não poderia ser reduzido a ele. Tudo depende do tipo de amor de que se dá prova, por que tipo de objeto. É aí que residem, explica Spinoza, "toda a nossa felicidade e toda a nossa miséria."
Este é um trecho livre de uma passagem de um pequeno grande livro chamado A Felicidade Desesperadamente, do filósofo francês André Comte-Sponville. Esta é uma indicação de leitura para todos aqueles que ficam felizes quando pensam que certas pessoas existem.
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Telma Miranda