Telma Miranda




Todos nós -
pedras, homens, reluzentes copos ao sol,
latas de conserva, gatos e árvores -
somos ilustrações em um texto.
Em algum lugar, somos desnecessários;
E neste lugar apenas o texto é lido -
as figuras se desfazem como um corpo morto.
Quando sobre a espessa grama sopra o vento da morte
Varrendo do ocidente todos os desenhos
E nuvens emergem -
Chega então a noite, e as estrelas leem.

Aaron Zeitlin (1898/1973)
Tradução de André Sena
Telma Miranda



 V

 Não lhe ergais lápides. Que a rosa apenas
 floresça ano após ano em seu louvor.
 Pois é Orfeu. Sua metamorfose
 neste e naquele. Não nos afadiguemos

 por outros nomes. Uma vez por todas:
 é Orfeu quando há canto. Ele vem e vai-se.
 Não é já muito que à taça das rosas
 alguns dias por vezes sobreviva?

 Se entendêsseis ao menos que ele tem de morrer!
 Mesmo quando de morrer ele sinta medo.
 Quando o seu verbo vence o estar-aqui,

 ei-lo além já, onde vós não chegais.
 Da lira a grade não lhe tolhe as mãos.
 E ele obedece ultrapassando.

 Sonetos a Orfeu - Rilke (1875-1926) (Versão portuguesa de Paulo Quintela)

 Trecho da ópera de Gluck - "Orfeo e Eurídice" - com o maior pianista brasileiro.
Telma Miranda