Telma Miranda

Morada


Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos
nas nossas pequenas razões. Estas ruas
ainda prometem mais do que podem cumprir?
A breve epifania do amor ou simplesmente
um cúmplice que nos diga, à mesa de um café,
que não faz mal, que pouco importam
as perdas e danos que sofremos.

De qualquer modo o mundo continua.

Entre o medo e a esperança
procuramos a nossa incerta morada
e enquanto isso envelhecemos mais um dia,
colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças,
nos quintais, a noite aparece depois do jantar
cheia de boas promessas, mas já vem condenada
ao tropel dos crentes, ao cego movimento da manhã.



A nossa vez


É o frio que nos tolhe ao domingo

no Inverno, quando mais rareia

a esperança. São certas fixações

da consciência, coisas que andam

pela casa à procura de um lugar


e entram clandestinas no poema.

São os envelopes da companhia

da água, a faca suja de manteiga

na toalha, esse trilho que deixamos

atrás de nós e se decifra sem esforço

nem proveito. É a espera


e a demora. São as ruas sossegadas

à hora do telejornal e os talheres

da vizinhança a retinir. É a deriva

nocturna da memória: é o medo

de termos perdido sem querer


a nossa vez.


Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Lisboa: Averno, 2005

Telma Miranda
Primeira Elegia

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face - a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos - talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

(...)

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. - Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações - que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

Elegias de Duíno - Rilke (1875-1926)

Para Professora Elsa Savino, que compartilhava seu amor pela poesia.
Grazie per tutto.



Telma Miranda






ESPANTA-ESPÍRITOS

Amanhã tudo será pior
ainda, eu sei: o hábito, a inércia,
o sem remédio da vida - tão pouco
haverá a salvar.

Por toda a cidade os desconhecidos
subirão outro degrau para o escuro
da noite, e a memória será talvez
um remorso:

aquela manhã de sol
na varanda, o espanta-espíritos
com peixes de alumínio num rosário
de contas profanas.

Ainda o tens? Ainda canta,
de madrugada, se o vento sopra
do mar?

Não importa. Foi sempre de menos
o muito que pedimos

e a parte que tivemos.

Rui Pires Cabral (Portugal - 1967)










É FAVOR FECHAR A PORTA

Descer a rua numa noite de Agosto
e por momentos nada ouvir senão
uma voz na cabeça que faz e repete
o poema mais desnecessário;

ver por toda a parte os sinais
perdidos e as cicatrizes dum fortuito
trânsito: alguém insiste em abrir
ao perigo a porta do número 133,
enquanto os rapazes do café vizinho
fumam sob o toldo à hora do fecho
e invadem o verso com uma frase
avulsa: coitado, morreu-lhe a filha;

tomar à esquina o táxi onde espera
um homem sem rosto, seguir
essa estrada - para um recomeço
ou uma despedida? - e entender
de súbito que tudo é por acaso,
não ter a ilusão doutra certeza.

Rui Pires Cabral (Portugal - 1967)