Telma Miranda


Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças.
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.


Carlos Drummond de Andrade
Telma Miranda




"Entre o mar e a terra viajo há séculos
sem encontrar céu, sem encontrar céu,
mas tenho a ânsia desse país."

Jorge de Lima em "Tempo e eternidade"



Ao meio dia de hoje recebi a notícia da morte de Moacyr C. Lopes. Conheci Moacyr nos anos 80, quando cursava a faculdade de Letras, e desde então mantínhamos um laço de amizade. Li seus livros com muito interesse e um deles sempre me impressionou pelo vigor da narrativa e um certo clima fantástico: "Belona, latitude noite". O navio cargueiro Belona está perdido na noite, no mar, atingido por uma terrível tempestade e pela peste. Todos os passageiros estão perdidos - em sua própria existência. Belona representa, para mim, nossa própria travessia pela vida. Com os nossos enfrentamentos, paixões, descobertas e sobretudo a estranha vivência da experiência do tempo. Perdidos na noite, vagando pelo "mar" misterioso, buscamos rumo, direção, com os olhos voltados para as estrelas. Talvez seja possível também pensar Belona como uma metáfora de um país, cujo comandante precisa criar um leme, descobrir rumos, conduzir as pessoas. Porém, o mais surpreendente no livro é o jogo com o qual Moacyr nos leva a vivenciar uma forte experiência do tempo:

"...sim, o homem cria vínculos, forma uma tradição de tempo e vivência nos poucos minutos transcorridos..." (Belona, latitude noite)

Sim, Moacyr. Criamos vínculos afetivos, vivemos o tempo cronológico, mas, como disse um crítico (sobre este livro), "libertar-se do tempo é ingressar na eternidade da morte." Hoje, Moacyr, foi a sua vez. Amanhã seremos nós. Boa viagem.
Telma Miranda
Ato 1

DIVINA COMÉDIA


Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam:—"Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?"
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem:—"Homens! porque é que nos criastes?"



Este soneto do poeta português Antero de Quental (1842-1891) nos coloca diante da eterna questão humana: afinal, o mundo existe apesar de nós ou somos nós que o criamos? E se somos criadores, porque criamos os deuses?



Ato 2


O DESCONHECIDO

Tudo é ilusão.

A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade. Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.

Criar é mentir.

Para pensar o não‑ser criamo‑lo, passa a ser uma coisa. Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais.

Nós próprios, porque existimos, somos criações também, portanto ilusões. Mas somos criações de quem? Do Deus que nós próprios criamos? Como se o criamos nós, e lhe somos portanto anteriores? Isso é supondo real o tempo, que é outra criação nossa. Tudo é um amontoado de ilusões.

Aquilo a que chamamos verdade é aquilo a que também chamamos o ser. Verdadeiro é o que é. Mas o que é é ilusão. Por isso a verdade é a ilusão, é uma ilusão.

A que abismo vamos ter?

Quanto mais forte o pensamento, o sentimento, a vontade, maior o poder criador.

O que a ocultistas é verificável é falso. Há imortalidade, mesmo eternidade da alma, mas isto é falso. Há um Deus eterno, criador do céu e da terra, e isto é falso. Ser é não‑ser.

Nunca podemos deixar de criar, por isso nunca podemos deixar de mentir.

A própria ilusão é uma ilusão.

[...]

Não haverá graus na ilusão? Quanto mais criadora uma coisa é mais ilusória. Partindo do nosso espírito, vemos quais as maiores ilusões ...

Tudo se reduz a criar.

Tudo se reduz a iludir-se.

Portanto criar é mentir.



Esse texto filosófico de Fernando Pessoa, outro poeta português, nos transforma em seres criadores e, por isso mesmo, mentirosos. Criamos, mas tudo que criamos não passa de ilusão.



Ato 3

"Para Epicuro, os deuses são realmente o que há de melhor e mais excelente, de modo que podem ser os êmulos de nossas ações. Mas este ideal divino de vida feliz se projeta sobre o homem mais nobre não como um exercício arbitrário de desejo, poder e vontade despótica, mas como a máxima serenidade, a mais imperturbável ataraxia. Os deuses, mais do que qualquer um, são imperturbáveis por nossos feitos, seja para agradá-los, seja para afrontá-los. (...) Não precisamos temer os deuses, nem nos pautar por servi-los. Os deuses absolutamente não precisam em nada de nós."

Outro Fernando, Santoro, em seu livro "Arqueologia dos Prazeres".



Final

Lemos em Diógenes que Epicuro teria criado o tetrafármaco - um conjunto de quatro preceitos criados por ele como uma receita para bem viver. O primeiro deles remete justamente à criação dos deuses. Os homens os teriam idealizados à sua semelhança, diferindo apenas no poder excedente e na imortalidade. Ao projetar seus valores e ideais em seres imortais, os homens acabaram por criar, paradoxalmente, algo que se tornou mais poderoso e forte. Um poder divino ao qual se submetem mas que, ao mesmo tempo, desejam que decida de acordo com a vontade humana.

Criamos deuses para nossa servidão voluntária, abrindo mão de nossa liberdade de ação. Criamos os deuses e desejamos agradá-los - como de resto a todos - e nunca fazemos o suficiente. Estamos eternamente em dívida - de impossível quitação. Sem crédito, aguardamos a sentença:

"O peso do olhar divino sobre as ações humanas faz com que se esteja o tempo todo preocupado em agradar ou não desagradar os deuses, enquanto não se examinam realmente a virtude e a excelência das próprias ações. Responsabilizamos os deuses pelo que nos vem de bom ou de ruim, como se estivessem muito preocupados em nos recompensar ou castigar.(...) Com tudo isso, abrimos mão de exercer nossa liberdade na responsabilidade das decisões e das ações." ("Arqueologia dos prazeres" de Fernando Santoro).

Não sabemos - e nunca saberemos - se foram os deuses que nos criaram ou fomos nós que os inventamos. Não importa. Se os criamos como modelos aos quais queremos imitar e obedecer, o primeiro passo para uma vida feliz, segundo Epicuro, seria justamente livrar-nos dessas projeções transcendentais e viver de forma livre e plena. Afinal, "os deuses não estão nem aí para nós."
Telma Miranda
Vinha de ler e ouvir Pessoa (na voz de Bethânia). Lembro bem que aos dezessete (por aí) ler Pessoa-Caeiro fazia todo o sentido. Suas interrogações e exclamações ecoavam agudas no meu não-saber. E eram minhas! E um pensamento ingênuo nascia: ele sabe sobre mim! Seus versos eram meus - ou diziam de mim:

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


*** *** ***

Dormir! Não ter desejos nem esperanças!

*** *** ***

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!


*** *** ***

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!


*** *** ***

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?




Anos depois, talvez mais dezessete, fui apresentada à poesia de Marly de Oliveira. Novo arrebatamento! Havia encontrado uma poesia que sentia como minha, versos que me "diziam", uma nova voz que me levava novamente ao êxtase do sentir poético. O livro "Vida Natural", publicado em 1967, revelava uma poeta inquisitiva que me cativou desde então. Meio "pessoana", é verdade, com seu "questionamento sobre a perenidade das coisas e sobre nosso estar no mundo".

"O sentido das coisas,
onde achá-lo, senão nas próprias coisas?
Ou algo está por trás
da rumorosa vida de um inseto,
da quietude da flor, do meu espanto,
vivendo-nos tranquilo,
e cada dia nos absorve um pouco?"


Ainda

"Sonhamos o que vemos
ou somos nós o sonho
daquilo que não vemos no que vemos?"


E um dos meus preferidos:

"Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.

Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?

Aquela que ontem via
o que ora vejo, não é mais em mim?
Então me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra, ou me acrescento ao que já sou?

No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém."


Há muito....

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Há pouco ganhei um encarte com poemas de Marly na voz de Lauro Moreira Lima. No livro intitulado "O sangue na veia", encontramos versos "onde há o desejo de desligar o conceito de amor do de paixão" (palavras da própria Marly). E é dentre os 56 poemas que compõem este livro que Lauro escolhe alguns que são apresentados aqui neste vídeo. Para nosso enlevo e elevação da alma.


Telma Miranda



"É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar."
Hilda Hilst



Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo afora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos.
E o sol é sempre pontual todos os dias.

Fernando Pessoa.
Telma Miranda
O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis (Alexandria,1863-1933)
Tradução: José Paulo Paes
Telma Miranda

Bouquet of flowers - Eugène Delacroix (1798/1863)



Vai alta no céu a lua da Primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Telma Miranda
"Sem Bach, a teologia seria desprovida de objetivo, a Criação fictícia, o nada peremptório. Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus."

E.M.Cioran (1911-1995)

Telma Miranda

Young woman with a wine glass - Octave Tassaert (1800/1874)


Vinho

A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci,
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.

Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste, à minha procura.

A taça foi brilhante e rara:
mas, com certeza enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.

Cecília Meireles (1901/1964)


Vinho e poesia: inevitavelmente pensamos em Omar Khayyam (poeta persa do séc. XI). Seus versos remetem ao vinho e ao amor - que deve ser vivido hoje. Apenas hoje. Pois tudo é sempre e somente provisório.

"Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã."

Se nada sabes, e tudo o que tem é hoje, diz o poeta, resta apenas o vinho:

"Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência."


"Ouço dizer que os amantes
Do vinho vão para o inferno.
Não há verdades na vida,
mas há evidentes mentiras.
Se porventura os amantes
Do amor e do vinho vão
Para o inferno, então vazio
Deve estar o paraíso".

"Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos."

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Pensamos também em Baudelaire (poeta francês do séc. XIX), em seu famoso poema, do qual um fragmento foi retirado e é muito divulgado como "citação":

"É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se."

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Bom, se tudo que temos é apenas este fim de tarde, então...
Andiamo! Uma garrafa de vinho!
É tudo que precisamos. Qualquer uma.
Mas...parece que falta algo. O quê?
Seguindo uma outra "citação":

"Para o vinho ter gosto de vinho, deve ser tomado com um amigo"

Saúde!

Telma Miranda
"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível.
E assim que consegui, voltei correndo pra ela."
Orson Welles



Children's games - Pieter Bruegel (1525/30 - 1569)

"Eu com as quatro,
eu com ela, eu sem ela,
eu por cima, eu por baixo."

...e lá íamos nós cantando, movimentando mãos, prestando atenção, experimentando posições. Sem querer (nem saber) íamos construindo um eu e tecendo laços com outros eus.

"Lá em cima daquela montanha,
avistei uma bela pastora,
que dizia em sua linguagem,
que queria brincar.
Bela pastora entra na roda,
para ver como se brinca.
Uma roda, roda e meia
Abraçais quem vós quereis."

As cantigas de roda... esquecemos? Mas ficamos marcados pela ciranda de mãos que dávamos, largávamos, dávamos de novo, e mais brincávamos, mais queríamos brincar.

"São três irmãos.
O primeiro já morreu;
o segundo vive conosco
e o terceiro não nasceu?"

- passado, presente e futuro! Adivinhávamos, sem saber que exatamente naquele momento vivíamos um tempo e construíamos outro.


Mas um dia o jogo muda e o brincar emudece.

Mais tarde, quando a poesia pode ser nossa possibilidade de redenção, como encontrá-la?

"Ela está para além da seriedade, naquele plano mais primitivo e originário a que pertencem a criança, o animal, o selvagem e o visionário, na região do sonho, do encantamento, do êxtase, do riso. Para compreender a poesia precisamos ser capazes de envergar a alma da criança como se fosse uma capa mágica, e admitir a superioridade da sabedoria infantil sobre a do adulto.", nos diz Huizinga em seu livro "Homo Ludens".

Tudo isso por causa de uma experiência recente. Tenho sempre certa cautela com vídeos que expõem crianças, seja de que forma for. Mas um deles me comoveu. O pequeno Howard parecia se divertir diante das pessoas que o assistiam, surpresas diante da potencialidade do menino. Não sei das condições reais, mas parecia uma brincadeira onde risos, seriedade, erros e acertos compõem, ao final, a música de um momento poético.

Telma Miranda
"As coisas que não levam a nada
tem grande importância.
Cada coisa ordinária é um elemento de estima."
Manoel de Barros


Quem nunca guardou um pétala de flor recebida do namorado na agenda? Ou um bilhetinho da melhor amiga dizendo que a amizade era para sempre? Ou uma embalagem de um bombom, um postal ou mesmo umas conchinhas catadas naquela tarde? Coisas insignificantes que significam tanto! Costumava também guardar esses objetos com carinho, como se cada um deles pudesse me devolver, em algum outro momento da vida, a emoção sentida. Como a personagem do filme mexicano "Coisas insignificantes", também me apegava a essas pequenas-grandes insignificantes coisas. Entretanto, no filme, as "coisas insignificantes" adormecidas na pequena caixa de Esmeralda possuem um valor diverso.


Esmeralda é uma adolescente tímida, silenciosa, que resgata objetos esquecidos e os coloca em uma pequena caixa. Não os compreende, muito menos percebe a importância deles. Apenas acaricia os objetos como se, com esse gesto, pudesse resgatar um vínculo afetivo perdido. Eles não lhe pertencem, nem trazem nenhuma recordação vivida. Abandonadas e posteriormente recolhidas por Esmeralda, as coisas "insignificantes" adormecem na caixa, "significando" algo ainda por nascer. Tais objetos, de alguma forma, se relacionam com gestos de amor inconclusos, incompreendidos, e que quedaram inúteis em sua intenção. Foram "criados" em momentos onde a palavra não foi possível, embora as pessoas, ainda assim, acreditassem que, através deles, pudessem comunicar suas emoções. Os pequenos objetos "insignificantes" adormecidos dentro do baú de Esmeralda não pertencem a ninguém. Apenas resistem, na esperança de cumprirem seu papel: "dizer" um afeto. Cada um deles remete a uma história, na qual há fundamentalmente uma impossibilidade de amar. Ou talvez uma enorme dificuldade de expressar esse amor. O que dá no mesmo. Os objetos representam tanto "a ausência da comunicação como a sua possibilidade".

A silente menina se torna guardiã da caixa, já repleta de segredos, silêncios, gritos: tantas mensagens de amor que não chegaram a seu destino. Até o dia em que, ao valorizar seus próprios laços afetivos, Esmeralda percebe que não precisa mais dos objetos alheios, pois descobre em si a possibilidade de efetivamente amar. Abandona a caixa, se aproxima da irmã e compartilha um momento de delírio da avó, acreditando agora que é possível conceber um outro mundo, um mundo de afetos compartilhados.
Telma Miranda

Diogo Macedo, escultor português (1889/1959)



Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

Fernando Pessoa (1888/1935)
Telma Miranda

"O homem (se) constrói o mito da perfeição pela dificuldade de aceitar a inerente imperfeição e incompletude dos atos da vida. Quanto mais o ser humano se ausculte, será para defrontar-se com a impossibilidade de alguma solução pacificadora, permanente, perfeita e acabada. Somos um fazer-se sem descanso. Só temos paz nos raros momentos em que acertamos ou intuímos a existência de uma plenitude cuja percepção escapa, logo depois de alcançada.
Os casos de amor vivem rondados por frustração ou arrependimento. Não o amor. Este é íntegro, irrefutável, cristalino, pleno e indubitável; mas os amantes, seus precários portadores. Quase sempre o tamanho do amor é maior que o dos amantes. As pessoas têm mais amor do que podem. Daí o fardo pesado que é carregar a chance de felicidade.
O amor é pleno mas cada amante vive envolto numa teia de limitações. Sobrevém a eterna disjuntiva: frustração ou arrependimento. Entregar-se a um amor é abandonar outros. Optar é renunciar. E, do que se renuncia e abandona, pode provir, depois, arrependimento. Afastar-se de um amor, ainda que por lúcidas razões, pode gerar, adiante, a frustração pelo que se deixou de viver.
Arrependimento e frustração são, pois, duas ameaças inevitáveis para amantes que se descobrem viáveis em pele, olho, poesia e suspiro, na mesma medida em que se sabem cercados de repressões, compromissos, impossibilidades ou, então , exorbitantes preços existenciais a pagar pela meia felicidade.
Viver implica essa dolorosa tarefa (suplício e enigma): a de integrar esses pedaços opostos, incorporando dificuldades, vivenciando a eterna imperfeição de tudo. Viver é descobrir-se inocente e virgem quando já se considerava pronto, vivido, definido e auto-suficiente. Somos fadados a ser pessoas sempre nalgum limiar. Quanto mais conhecimento e vivência, novos limiares.
O sofrimento do homem deriva dessa estranha divisão de sua alma: ele precisa de nitidez, de encaixes perfeitos, de caminhos retos, mas só lhe é dado viver situações provisórias e incertas, sinuosos pedaços de retidão, o que o leva a manifestar até pela mentira as suas mais fundas verdades.
O amor, porém (não os amantes), rompe esse exercício de sofrimento pois liga o homem a uma finalidade. Por isso o amor permite o sabor-saber, fugidio e delicioso, de algo pleno, sempre fora e além de nós, mas vivido em nós (por isso o enigma), uma certeza adivinhada (e breve vivida) de plenitudes impossíveis aqui.
O amor traz a certeza secreta de uma instância de paz, plenitude e perfeição da qual a vida é um aprendizado, por isso incompleta e inacabada, provisória e sempre em busca. O amor é o filme, mas a vida e os amantes são o trailer de um filme que se intui possível, porém nunca alguém o verá.
O amor é pleno mas os amantes precários, impossíveis, atrapalhados por eles mesmos e suas opções sempre "certo/erradas".
No amor, a todo certo ideal corresponde algum erro real de exercício. Por isso, quem ama vive a misturar pedaços de verdades pela impossibilidade de viver a totalidade. Aqui residem o suplício e o enigma de viver: o amor é total, pleno, mas a vida de quem ama é feita de pedaços, de renúncias ou arrependimentos, de impossibilidades ou carências. Aceitar o enigma sem o deslindar é aprender a viver: é amadurecer. E exige trabalho interior penoso, grandeza, equilíbrio e autoconhecimento.
Somos um todo fragmentado que para se recompor e harmonizar precisa viver as divisões, os sofrimentos e os açoites das mentiras que conduzem às nossas verdades mais profundas. Viver em plenitude todos os pólos de que somos compostos, eis a ressurreição em vida. O amor, em sua qualidade de rio de muitas vertentes, ajuda e ilumina esse processo de autodesconhecimento permanente que é a única forma de autoconhecer-se. Por isso o amor é um estranhamento; e ao vivê-lo, os amantes atrapalham-se, atropelando-o."

Artur da Távola (1936-2008)
Telma Miranda

The Reader - Fragonard (1732/1806)


Era uma manhã de junho. Colégio Pedro II, em São Cristóvão. Com frio, sem nada pra fazer no recreio e irritada com alguma implicância feita por um dos colegas, entrei pela primeira vez na biblioteca: uma sala toda envidraçada que víamos do pátio e à qual não dávamos importância maior. Sozinha, tímida, sem saber direito o que fazer, caminhei por entre as estantes tentando lembrar um nome, qualquer, que me tirasse daquele desconforto. Foi então que li: Carlos Drummond de Andrade. Abri o livro:

COTA ZERO

STOP.
A vida parou
ou foi o automóvel?


Uma sensação... não sei dizer. Um soco? Uma surpresa?
Como assim? Era um poema? Uma pergunta? Haveria uma resposta?
O que faço agora? Fecho o livro e vou embora? Finjo que isso nunca existiu?
Volto para a minha vida? Qual vida, se agora....

Foi nessa manhã de junho que nasci.

*******

Em outras tardes de junho, a dor de me saber só, de possuir a lucidez dos que se instalam nas sombras, de me sentir diminuta na imensidão de mim mesma me impelia a crescer, talvez muito mais do que suportaria e menos do que (ainda não sabia) seria possível.


VERBO SER

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor.
Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer?
Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser?
Dói? É bom? É triste?

Ser; pronunciado tão depressa,
e cabe tantas coisas
Repito: Ser, Ser, Ser.
Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a?
Posso escolher?
Não dá para entender.
Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser.
Esquecer.



*******

E nas longas noites insones, quando o amor me comovia e lágrimas de saudade faziam brilhar as estrelas, a palavra poética mais uma vez dava sentido a tudo. A tudo aquilo que não tem sentido algum.


AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Telma Miranda

Todos os anos, principalmente na Semana Santa, era obrigatório pedir a benção à minha madrinha, que com toda a "pompa e circunstância" dizia: Que Deus a abençoe! Madrinha Delva. Ela se orgulhava dos afilhados - de fé e de coração - cujos feitos traziam um colorido para sua vida tão humilde. No último sábado fui pedir-lhe a derradeira benção. E ela, incrivelmente, ainda foi capaz de me abençoar ao me proporcionar um reencontro com estranhos que de repente reconheço como primos, tios, tias de um outro tempo. E novamente de agora. Me surpreendo diante de tanto afeto. Sempre me pergunto que sentimento é esse que transforma, em segundos, pessoas desconhecidas em parentes queridos. E a generosidade com que trocamos olhares de reconhecimento foi ainda maior, preenchendo uma existência não-comum mas repentinamente compartilhada. Na despedida, agradeço mais essa benção e percebo que, após tantas outras recebidas, era a minha vez e ousei dizer-lhe: Que Deus, em sua infinita misericórdia, a abençoe!
Telma Miranda



CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine (1844/1896)


CANÇÃO DO OUTONO

Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.

Tradução: Onestaldo de Pennafort






Autumn Leaves


The falling leaves
Drift by the window
The autumn leaves
Of red and gold

I see your lips
The summer kisses
The sunburned hands
I used to hold

Since you went away
The days grow long
And soon I'll hear
Old winter's song

But I miss you most of all
My darling
When autumn leaves
Start to fall
Telma Miranda
Brevíssimos dois minutos.
Desta vez, sem palavras.
Só notas ao tempo...


Telma Miranda
São sete minutos.
Sete breves longos minutos.
Um violoncelo que encanta as notas da partitura de Ennio Morricone.
São dois poemas.
Brevíssimos poemas.
Que deixam longos rastros de pensamentos...
Experimente!





To be or not to be

Desejo de sentir que ora não penso,
ou que penso e o que penso é não vivido.
A alma retrai-se; o espírito, suspenso,
detém-se: é fio irreal interrompido.

Há um ímpeto de fuga que não venço.
Extrai-o de mim mesmo: é sem sentido.
E assim pairo, sonâmbulo, no imenso
campo que fica entre a presença e o olvido.

Como entender o que nem foi vazado
em forma, signo ou luz? Como e por quê ando
perto e longe de mim que ardo a meu lado?

Como esquecer que o próprio esquecimento
do que em mim se rebela e está sonhando
rói a sede de ser em que me invento?

Emílio Moura (1902/1971)


I

A dúvida, essa dádiva cruel
de um deus cartesiano, nos convida
a tudo refratar, e refletir.
Exilado no canto da janela,
eu fecho então os olhos, feito prisma,
e decomponho a luz que desfalece.
Parou o vento. É o tempo que parece
mover os ramos verdes, onde havia,
entre ser e não-ser, uma andorinha
cansada de voar com seu mistério.
Felizes são as aves, que confiam
- eu penso. E fecho as folhas da janela.
Sou um bicho que pensa. E a quem oprime
a solidão de ser, sem nenhum crime.

Jayro José Xavier (10 de junho 1936)
Telma Miranda



Epigrama nº 5

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.

Cecília Meireles
Telma Miranda





Epigrama nº 9

O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.

Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?

Cecília Meireles



XXIV

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugênio de Andrade




"O que sou hoje, nesse momento? Uma folha plana, muda, caída sobre a terra. Nenhum movimento de ar balançando-a. Mal respirando para não se acordar."

Este último trecho de Clarice Lispector está em "Perto do coração selvagem", seu primeiro livro, publicado em 1944, cuja leitura recomendo com urgência. No primeiro capítulo, Joana, ainda criança, diz a seu pai que inventou uma poesia:

"Vi uma nuvem pequena
coitada da minhoca
acho que ela não viu."

O pai, então, pergunta: "Como é que se faz uma poesia tão bonita?". E Joana responde: "Não é difícil, é só ir dizendo."
Também resolvi "ir dizendo"...


Somos folhas breves
- quase nada -
onde repousam
sombras
secreção
sementes

Somos plenos
e faltosos

E a cada gesto
trêmulo
infértil

Mais nos abismamos
em nada ser e tudo querer.

Telma Miranda
Telma Miranda
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim, desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil.. Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Camilo Pessanha (1867/1926)



The Lonely Shepherd de James Last (1929)
Telma Miranda
Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam!)
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trêmulos astros...
Soidões lacustres...
-Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha (1867/1926)




Antonín Dvorák (1841/1904)
Telma Miranda
Ó grandes oportunistas,
sobre o papel debruçados,
que calculais mundo e vida
em contos, doblas, cruzados,
que traçais vastas rubricas
e sinais entrelaçados,
com altas penas esguias
embebidas em pecados!

Ó personagens solenes
que arrastais os apelidos
como pavões auriverdes
seus rutilantes vestidos,
- todo esse poder que tendes
confunde os vossos sentidos:
a glória, que amais, é desses
que por vós são perseguidos.

Levantai-vos dessas mesas,
saí das vossas molduras,
vede que masmorras negras,
que fortalezas seguras,
que duro peso de algemas,
que profundas sepulturas
nascidas de vossas penas,
de vossas assinaturas!

Considerai no mistério
dos humanos desatinos!
e no pólo sempre incerto
dos homens e dos destinos!
Por sentenças, por decretos,
pareceríeis divinos:
e hoje sois, no tempo eterno,
como ilustres assassinos.

Ó soberbos titulares,
tão desdenhosos e altivos!
Por fictícia auteridade,
vãs razões, falsos motivos,
inultilmente matastes:
- vossos mortos são mais vivos;
e, sobre vós, de longe, abrem
grandes olhos pensativos!

Romanceiro da Inconfidência
Cecília Meireles

Leio o poema e me assombro. Lembro de 21 de abril (data do enforcamento de Tiradentes, mártir da Inconfidência - 1792) e 29 de abril (data do arquivamento da Ditadura, algoz de tantas vidas - 2010). Que os assassinos não se enganem: os mortos estão vivos. Para sempre. Na nossa memória.

"Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias

Glória à farofa
à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais.

Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais"

O Mestre-Sala dos Mares de João Bosco e Aldir Blanc (referência ao Almirante Negro, personagem da Revolta de Chibata, em 1910)
http://recantodaspalavras.wordpress.com/category/joao-bosco/
Telma Miranda
Vigília

Como o companheiro é morto,
todos juntos morreremos
um pouco.

O valor de nossas lágrimas
sobre quem perdeu a vida,
é nada.

Amá-lo, nesta tristeza,
é suspiro numa selva
imensa.

Por fidelidade reta
ao companheiro perdido,
que nos resta?

Deixar-nos morrer um pouco
por aquele que hoje vemos
todo morto.

Cecília Meireles

Telma Miranda









Cubist Rose (Patti Petersen, 2007)




Quarto motivo da rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.



Cecília Meireles.
Telma Miranda

Ah! se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só prá ser um sonho

Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria

E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, oh brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar.

Johnny Alf

Para lembrar momentos vividos (certamente guardados na memória do coração) por aqueles que compartilharam, na juventude, os sonhos de amor e a beleza da canção.
Telma Miranda

Em setembro de 2009, escrevi um texto sobre hábitos de leitura e Bienal, movida por uma matéria jornalística. Volto ao tema, igualmente inspirada pelos jornais. Desta vez, diferentemente do meu texto anterior (sobre a leitura), para me confraternizar com as idéias de Michèle Petit, expostas em uma entrevista publicada em 20 de fevereiro de 2010. Um trecho da entrevista vai ao encontro do que penso: "Certos discursos de glorificação da leitura dão vontade de jogar videogame! E os discursos jamais fizeram alguém ler, tampouco as campanhas de massificação para "criar" ou "formar" leitores. Seja pai ou professor, quem diz que uma criança tem que ler ( ou pior: que tem que gostar de ler!) faz da leitura um fardo ao qual ela precisa se submeter para satisfazer os adultos." Na verdade não é com suas idéias que comungo, mas sim com todo um pensamento já existente que ela, como antropóloga estudiosa, sistematizou em livros. A idéia da leitura (silenciosa ou compartilhada) como dispositivo para criar espaços de liberdade e resistência, de estruturação da subjetividade e das relações sociais é inegável. Há várias iniciativas neste sentido no Brasil (http://tracasdobem.blogspot.com/, http://www.aletria.com.br/, http://www.acordaletra.com.br/ e tantos outros), além de produções cinematográficas - como "Narrativas de Javé" e "Abril despedaçado." - que abordam o tema da transformação através da leitura. A questão não é, como foi dito, formar leitores mas compartilhar palavras e daí ser possível se apaixonar pelo livro, criando laços subjetivos e sociais. Lembro-me sempre, quando abordo esse assunto, de uma cena de um filme de 1960, dirigido por Kubrick, protagonizado por Kirk Douglas, um líder forte e corajoso do povo de Esparta. Uma noite estão todos ao redor de uma fogueira quando o poeta (interpretado por Tony Curtis) lê e magicamente todos ficam extasiados diante da leitura. O grande guerreiro Spartacus, que não sabia ler, se revela frágil e sensibilizado diante do poeta e da força de suas palavras. Cena comovente para quem sabe das transformações advindas da palavra - escrita ou falada. A viagem através das palavras é libertadora, pois ocorre na imaginação de cada um, onde não há cifras, grilhões e sim todas as possibilidades de existência.
Telma Miranda
A verdadeira viagem de descoberta
não consiste em procurar novas paisagens,
mas em ter novos olhos...

(Marcel Proust)


Percebi isso há muito tempo. Quando, não sei ao certo. Era muito pequena, mas lembro que meu pai me levava a passear em Niterói e ficávamos horas esperando a hora de embarcar em uma enorme barcaça que atravessava a baía levando os carros - como o karmanguia azul de meu pai- e minha admiração. O rosto gelava com o vento, enquanto os olhos - espremidos - se fartavam de paisagem durante aquela travessia que durava uma eternidade. Alguns anos mais tarde, já universitária, voltava da faculdade na barca das 23:00. A paisagem noturna era sempre estranha, com luzes brilhantes contrastando com o breu da baía. Mais alguns anos e muitas idas e vindas, sempre me surpreendo, pois a cada vez que desbravo a baía, ela é sempre a mesma e sempre outra. Um dia, uma amiga me disse que, durante uma viagem, teve uma experiência interessante: aprendeu sobre o "olhar de turista". Sim, olho de turista. Um olho admirado, como quem vê pela primeira vez. Como um olho de um poeta, de um filósofo, ou mesmo de alguém disposto a viver somente aquele dia. Palavras dela: "atravessar a baía hoje, para mim, é sempre um passeio e me encanto sempre, como alguém que está de passagem". Mais. Ela fala sobre uma certa elegância que nada tem a ver com recursos financeiros. Palavras ainda dela: "posso ir a Paris, não visitar o Louvre e ficar lendo Drummond sentada em um banco do Jardim de Luxemburgo, assim como posso ler Baudelaire em francês a bordo da barca Itapuca". Sábia essa minha amiga; e a compreendo perfeitamente. E imagino que, mesmo não sendo mais aquela menina admirada com a travessia, sei que de alguma forma ainda sou ela. Que mesmo diante de um mundo de sempre (e sempre outro) e das mesmas paisagens, sei que ainda é possível descobrir novos olhares.


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Me lembro ainda de um apólogo ( ou uma parábola, enfim) que havia no livro de leitura silenciosa, nos anos idos. Um homem queria saber o que é a felicidade. Resolveu perguntar a um sábio que, naturalmente, respondeu que não sabia, mas poderia indicar um caminho e pede que ele lhe diga o que está vendo:
- Vejo o mundo, senhor...
- Olha mais!
- Vejo campos, serras, nuvens no céu, bois no campo...
- Olha mais!
- Nada mais vejo, senhor!
- Olha bem!
- Senhor, nada mais vejo.
- Como posso te mostrar o caminho da felicidade, se é isso apenas o que vêem os teus olhos?
Telma Miranda
The Tyger

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart,
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

William Blake (1757-1827)




O TYGRE



Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Tradução: Augusto de Campos
Telma Miranda

Sempre se cantou, de forma dramática, a dor da separação. As letras românticas revelam um sofrimento desesperado pela perda da pessoa amada. Quanto mais tristes estão, mais as pessoas desejam ouvi-las. Sem dúvida, a separação fere, e o amor romântico, por mais que se apresente como maravilhoso de ser vivido, traz mais sofrimento que alegrias.

Quando se rompe uma relação amorosa, aquele que não desejava o desfecho é tomado por profunda angústia e tristeza. Desde crianças aprendemos uma mentira bastante limitadora: só podemos nos realizar afetivamente através de uma relação amorosa estável — namoro ou casamento. Além disso, existe o hábito de se confundir amor com desejo. Ouvir alguém dizer “Não te amo mais” abala a auto-estima, é doloroso e desnecessário, porque na maioria das vezes não corresponde à realidade. A não ser que tenha havido alguma desavença grave ou então que se trate do amor romântico, aquele ao qual não se pode dar crédito, por não possuir quase nada de real, por ser inventado, idealizado. Mas não é desse tipo de amor que quero tratar agora.

Refiro-me ao amor de verdade, em que se percebe o outro com suas próprias características, amando-o pelo seu jeito de ser. Pode-se viver junto, com satisfação durante algum tempo, mas não é raro que, num determinado momento, surjam novos anseios. Não se deseja mais conviver diariamente com aquela pessoa, nem se sente mais desejo por ela. Entretanto, não significa absolutamente que o amor tenha acabado. Gilberto Gil percebeu isso quando compôs Drão para a ex-mulher: Drão/não pense na separação/não despedace o coração/o verdadeiro amor é vão/estende-se infinito/imenso monólito/nossa arquitetura/Quem poderá fazer/aquele amor morrer/nossa caminha dura/cama de tatame/pela vida afora...

Mas é comum se aceitar o amor dentro de limites tão estreitos que ele se torna um sentimento frágil. Acredito numa incompetência generalizada para a vida amorosa. Poucos conseguem depois da separação continuar amando seu antigo parceiro e sendo amado por ele. Um deve ser excluído para que se coloque outro no lugar. Entretanto, a relação amorosa é rica, variada, podendo se realizar de modos diversos. Com o ex geralmente ela se transforma: passa a ter novos códigos e menos convívio. Mas não tem nada a ver com estar amando menos.

É mais ou menos como se plugássemos o afeto pelo antigo parceiro em outro canal, sem que ele diminua de importância na nossa vida. Na hora em que nos dispusermos a reformular o modelo de separação, não será tudo muito mais fácil?

Regina Navarro
Telma Miranda
"Shall I compare thee to a summer's day?"


Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dim'd,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course, untrim'd:
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wandr'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

William Shakespeare (1564-1616)




Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

Tradução: Bárbara Heliodora
Telma Miranda
Janeiro



Um cavaleiro de copas sorri
memórias de temporais
nas mãos um barco
no peito um entardecer


nos olhos um cisco
que teima em
não se desfazer...


Telma Miranda
Telma Miranda



Como há de suportar
este silêncio,
mais mineral
que a pedra,
mais glacial
que o gelo,
mais sideral
que a estrela?

Como há de suportar
este silêncio
ermo e
sombrio,
este silêncio,
que é mais
que silêncio,
espanto e
loucura,
esse
grave
silêncio de Deus?

Marco Lucchesi
Telma Miranda


Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas
defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos
defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias
defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres
defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y de la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa
defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

Mario Benedetti

(Life, it's for you! A poem from your favorite writer!)
Telma Miranda
1. Meus dois filhos foram para casa de um amigo na Ilha do Bananal, em Ilha Grande, passar o Reveillon de 2010. Naquela noite, ainda acordados, ouviram um estrondo, a luz se foi e uma onda invadiu a casa onde estavam. Sem saber ainda o que havia acontecido, alguns se aventuraram e foram até o local, a tal Pousada Sankai, a uns 70 metros; outros, assustadíssimos, permaneceram juntos em casa. Eles conseguiram me avisar que estavam bem, mas sabê-los naquele lugar desolador, aterrador, cercados de sofrimento e dor, me trouxe a sensação, péssima, de que nada poderia fazer. O primeiro pensamento: para protegê-los seria preciso que estivessem debaixo da asa. Penso na solução mágica: um super-homem que os trouxesse sãos e salvos. Depois numa solução cinematográfica: um helicóptero. Não menos mágica, por sinal. Até que em um telefonema, um deles me diz: "Não se preocupe. Afinal estou no lugar mais seguro do mundo: tem bombeiro, defesa civil, exército, marinha. Não vou sair daqui para mergulhar no caos." E, como em todos os dias, me dou conta o quanto aprendo com eles. Mais ainda: que na realidade são eles que me protegem.

2. Diante de tanto sofrimento e espanto estampados nas faces e refletidos nos meus olhos, nesses últimos primeiros dias, não foi possível evitar minha própria dor. Uma inevitável empatia me aproximou daqueles que sofrem e que (oh terrível condição humana), precisam permanecer vivos na dor. Penso na trágica história de uma família: uma noite festiva, um estrondo e, num segundo, só uma pessoa sobrevive. Uma mulher de 40 anos. Só. Sem mais os pais, irmã, marido e filhos. Há algum tempo atrás uma amiga, ao sobreviver a um grave acidente, me disse que o primeiro pensamento que surge é: por que sobrevivi? Ou melhor, disse-me, para quê sobrevivi? Sempre me lembro de um romance de Somerset Maugham intitulado "O Fio da Navalha". Em um episódio na guerra, o personagem Larry sobrevive enquanto o amigo morre em seu lugar. Tudo muda completamente para ele. Passa então a buscar o sentido da vida (vale a pena a leitura). Mas, afinal, existiria resposta para essa pergunta? Não será esta mais uma entre tantas outras para as quais as respostas inexistem? Bem, se há uma resposta, não sabemos. Nunca saberemos: são os Mistérios. Mas posso criar uma, inventar um sentido, fazer algo em que acredito. O escritor Carlos Heitor Cony - cujos livros fazem parte dos meus preferidos - disse certa vez em uma entrevista: "Não sabemos se Deus existe ou não. Mas se ele não existe, precisamos criá-lo". Quem sabe não é por aí: se há ou não uma resposta, não importa. O que é imperativo (imprescindível) é criar uma. A resposta única, singular, exclusiva. E talvez a partir dela poderá ser possível saber a pergunta que realmente importa.