Telma Miranda
Telma Miranda
Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.

Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.

Só depois aprendemos
a trilhar o labirinto;
mas como acordar os passos
nos pés há muito dormidos?

Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobre esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.

Ruy Espinheira Filho em Heléboro
Telma Miranda
Telma Miranda
A Rede fez 20 anos no último dia 13 de março. Mesmo ainda jovem, não há como negar seu imensurável poder, a ponto de podermos afirmar que existe uma geração já formada por ela. Ainda “criança”, a rede de relacionamentos Orkut, com apenas 5 anos de existência, também possui lá seu poderes, tendo alcançado um sucesso inimaginável, principalmente entre os jovens e as crianças (embora o acesso só seja "permitido" aos maiores de 18 anos).
Os meios eletrônicos estão presentes no cotidiano de todos nós e as crianças são as mais influenciadas e as que mais poderão ser beneficiadas e /ou prejudicadas e serão também, paradoxalmente, as que mais estarão aptas a intervir em todos esses novos meios de comunicação. Sabemos o quanto esses novos meios são fundamentais hoje, seja na escola (proporcionando novas experiências na elaboração e reelaboração dos saberes) seja em casa (possibilitando inúmeras formas de interação). Sabemos igualmente que a criança é movida pela curiosidade, pelo prazer, pela brincadeira – é a fase das experiências e descobertas. Entretanto, não podemos esquecer, a família é a primeira responsável pela formação e estruturação emocional-cognitivo-afetiva de suas crianças. Dessa formação dependerão os critérios que nortearão suas experiências. Alguns pais estão preocupados com esse novo universo e muitas vezes não sabem como lidar com isso. Na própria rede, há sites com listas disciplinares, com imperativos limitadores. É óbvio que todos os cuidados devem ser tomados – nem estou aqui minimizando a utilização das “listas”, se necessário for – mas insisto na necessidade de uma reflexão maior que englobe os relacionamentos de uma forma geral. Uma vez, quando sugeri a uma mãe que jogasse um determinado jogo junto com o filho, ela me disse: “Ah, não tenho paciência nem tempo para isso.” Para jogar ou para ficar junto ao filho?
O tempo parece não estar mais disponível (ou nós não estamos mais disponíveis para ele). A família já não é o espaço de intimidade, de troca, de conversas, de porto-seguro. Não estou aqui fazendo apologia nostálgica de nenhum modelo familiar. Só a constatação de uma realidade que insiste em se presentificar, principalmente na clínica. O que observamos, em muitas das atitudes dos pais, é uma ausência de qualquer postura crítica diante do mundo em geral (e obviamente diante do mundo virtual). Ora, como esse adulto, completamente à mercê dos discursos midiáticos e refém da ditadura das aparências, pode proteger e cuidar dos pequenos?
A internet é um universo ainda a ser explorado e é preciso refletir acerca das crianças que estão on-line. Mas creio que é preciso pensar além. Afinal, as crianças on-line não são só aquelas que estão plugadas na rede. São também aquelas que estão on-line com o seu tempo. Um tempo hostil em que são submetidas ao medo, à violência, à tirania do consumo, à necessidade de pertencimento, à impunidade diante das leis, ao esfacelamento das relações, à inocuidade das vivências escolares, à iniqüidade das ausências de afeto. Daí uma pergunta: o que acontece quando as crianças se desconectam da internet? A resposta pode ser uma chave para compreender o fascínio poderoso das redes de relacionamentos. Numa sociedade de consumo onde o sentido de pertencer está atrelado a ter (bens, informações, roupas, blogs, i-pods), onde o espaço da intimidade, do sentimento, das emoções? Na sociedade atual tudo é absolutamente descartável, inclusive as pessoas (basta um click e deleta-se um “amigo”) e a lógica que impera é a do mercado. Uma sociedade que oprime tanto os adultos quanto as crianças. Onde achar o acolhimento, o silêncio reconfortante, o abraço consolador, o olhar compreensivo, o gesto misericordioso?
Não sendo encontrado no mundo presencial, procuramos o reconhecimento no mundo virtual. Talvez seja esse um dos motivos do sucesso da rede de relacionamentos Orkut, pois nela criam-se perfis, escolhem-se comunidades, dando a sensação de pertencimento, tão necessária às crianças e aos jovens.
O Orkut é um espaço virtual, mas também um espaço público. E aí a questão: saberá a criança compreender essa diferença? Qualquer um pode ter acesso às informações postadas. Quem será “qualquer um” dentro do universo infantil? Tanto pode ser o conhecido como o estranho que tanto fascina. Como nos contos de fada (se assim não fosse, não existiria Lobo Mau), como nas esquinas da vida, como na vida a fora. Imaginamos que a criança, quando acessa esse site de relacionamentos, queira brincar, ser reconhecida, encontrar os seus 120 “amigos” (?!?), trocar “figurinhas”, pertencer a um grupo. É a fase da descoberta, da brincadeira, de vivência de novas experiências. E a cautela que devemos ter em relação ao Orkut, me parece, é a mesma para todas as áreas da vida – virtual ou não. O Orkut não é ruim nem bom "per se". A utilização dele - e de tantos outros sites - é que pode trazer conseqüências negativas ou positivas. A rede hoje é uma ferramenta didático-pedagógica importante. As facilidades, as trocas, as inúmeras possibilidades de interação devem ser exaltadas. Mas é preciso estarmos atentos à sua outra face, que pode ser fascinante mas perigosa. É como entrar no labirinto sem o fio de Ariadne. O risco, para todos, é enorme, mas no caso de nossos pequenos “brincantes” toda atenção é pouca. A viagem pelo labirinto pode ter duas conseqüências: a pior delas é perder-se. Ou achar-se em fragmentos. E, last but not least, a quem interessaria toda um geração fragmentada, descentrada e não-compromissada? Em época de excessos como essa em que vivemos (que possui como suporte toda uma teoria neo-liberal) é preciso estar atento e fazer escolhas sem a falsa idéia de liberdade que a mídia nos “vende”. Equilíbrio afetivo, consciência crítica e prudência – talvez aí esteja a receita para enfrentar esses novos tempos.
Telma Miranda
Nos "verdes" anos, no meio do turbilhão de adolescer, a poesia pode ser uma espécie de um outro que te entende, que diz o que vc sente, que te faz chorar, que te consola, principalmente quando o grande amor da sua vida passa por vc e nem percebe a sua existência.
Os primeiros sonetos são nossos primeiros amigos na solidão. A gente os conhece, decora, copia e os leva consigo muitas vezes durante muito tempo: um amigo fiel, que se faz presente, sempre que necessário. Assim aconteceu com "Dualidade" de J.G. Araújo Jorge, "Sete anos de pastor Jacó servia" de Camões e o soneto "estrelado" da Via-Láctea de Bilac - que eram copiados, no caderno de versos, ilustrados e adornados com os famigerados "decalques" (hoje seriam "stickers") de flores. Embora ainda "verdes", ousamos pensar que já podemos produzir frutos e aí surgem os primeiros versos. Estes também anotados com todo o capricho, em caderno especial, com canetas coloridas, sem rasuras nem arranhões. Macios e monótonos - variações sobre o mesmo tema. Mais tarde, os amigos sonetos ficam de lado, escondidos num tempo, amarelando. Não mais os encontros solitários entre olhos e palavras. Entretanto, nas primeiras ( e depois inúmeras) desilusões necessárias, são os sonetos que nos acolhem em sua musicalidade, nos fazem companhia, como outrora, e, numa nova leitura, surpreendentemente nos invade a sensação de que tudo, absolutamente tudo, pode começar de novo.

1. Dualidade

Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!

J. G. de Araujo Jorge

2.
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa a servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís de Camões

3.
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora; "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac
XXV
Telma Miranda
Solta no espaço vivo, onde me leva
minha meditação? É suficiente
o desenho das coisas
nítido e limpo aos olhos?

O que antes me bastava não me basta
mais? que procuro? a ponto de nem ver
o visível, matéria
silenciosa que vive,

e porque vive não é só matéria,
e volta um dia ao nada inteiro e vivo,
ao nada que é um ventre
(não um vazio) ativo.

Chega ao nada ultrapassando tudo.
Tudo o que compreendo ainda tem forma,
e portanto depende
de um dos modos de ver.

Mas se ultrapasso não entendo mais:
vermelhas flores, campos, rios, árvores,
são formas de uma ausência
absoluta de forma?

São formas aparentes do Real?
O real é o invisível do visível?
a distância que vai
do que sei ao que sou.

Marly de Oliveira in "A Vida Natural"