Telma Miranda
Ó grandes oportunistas,
sobre o papel debruçados,
que calculais mundo e vida
em contos, doblas, cruzados,
que traçais vastas rubricas
e sinais entrelaçados,
com altas penas esguias
embebidas em pecados!

Ó personagens solenes
que arrastais os apelidos
como pavões auriverdes
seus rutilantes vestidos,
- todo esse poder que tendes
confunde os vossos sentidos:
a glória, que amais, é desses
que por vós são perseguidos.

Levantai-vos dessas mesas,
saí das vossas molduras,
vede que masmorras negras,
que fortalezas seguras,
que duro peso de algemas,
que profundas sepulturas
nascidas de vossas penas,
de vossas assinaturas!

Considerai no mistério
dos humanos desatinos!
e no pólo sempre incerto
dos homens e dos destinos!
Por sentenças, por decretos,
pareceríeis divinos:
e hoje sois, no tempo eterno,
como ilustres assassinos.

Ó soberbos titulares,
tão desdenhosos e altivos!
Por fictícia auteridade,
vãs razões, falsos motivos,
inultilmente matastes:
- vossos mortos são mais vivos;
e, sobre vós, de longe, abrem
grandes olhos pensativos!

Romanceiro da Inconfidência
Cecília Meireles

Leio o poema e me assombro. Lembro de 21 de abril (data do enforcamento de Tiradentes, mártir da Inconfidência - 1792) e 29 de abril (data do arquivamento da Ditadura, algoz de tantas vidas - 2010). Que os assassinos não se enganem: os mortos estão vivos. Para sempre. Na nossa memória.

"Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias

Glória à farofa
à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais.

Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais"

O Mestre-Sala dos Mares de João Bosco e Aldir Blanc (referência ao Almirante Negro, personagem da Revolta de Chibata, em 1910)
http://recantodaspalavras.wordpress.com/category/joao-bosco/
Telma Miranda
Vigília

Como o companheiro é morto,
todos juntos morreremos
um pouco.

O valor de nossas lágrimas
sobre quem perdeu a vida,
é nada.

Amá-lo, nesta tristeza,
é suspiro numa selva
imensa.

Por fidelidade reta
ao companheiro perdido,
que nos resta?

Deixar-nos morrer um pouco
por aquele que hoje vemos
todo morto.

Cecília Meireles