Telma Miranda
Outro ano agoniza diante da boca do tempo... assim começava um longo e-mail que recebi de um amigo. Uma bela imagem do rito de passagem de ano. Sabemos que as práticas ritualísticas estão normalmente associadas às representações da morte e do tempo. Penso em Khronos, que se alimentava inexoravelmente de tempo. O tempo Khronos é aquele dividido em espaços iguais: dias, horas, minutos. Um tempo sem surpresas, que sustenta a fome do Titã e as fábricas de relógios. Mas há o tempo Kairós que é, digamos, medido pela imaginação, pelas batidas do coração (quem não passou pela experiência do tempo infinito do primeiro beijo?).

A afirmação “se não entendemos o Tempo, nos tornamos suas vítimas”, de James Gleick, parece ser uma ótima base para uma reflexão. É fato que o tempo parece não existir mais, pois nos falta a todos. Mas talvez tenhamos que nos esforçar mais para compreendê-lo antes que viremos, junto com ele, alimento para engorda. O tempo "morreu", foi devorado, e se não nos permitirmos "descompassar", Khronos permanecerá a nos devorar. Mas se optarmos por viver no tempo Kairós...
Ah...
Talvez a angústia de se estar na "boca" do tempo (e sentir que anos, dias, meses passaram e que ainda se espera que algo significativo aconteça) possa ser substituída pela alegria de saber que o infinito nos aguarda e que, sem arrogância mas com muita dignidade, possamos dar uma resposta ao tempo.



"Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver"

Telma Miranda


La Peregrinación
Mercedes Sosa


A la huella, a la huella
Jose y maria
Por las pampas heladas
Cardos y ortigas.

A la huella, a la huella
Cortando campo
No hay cobijo ni fonda
Sigan andando.

Florecita del campo,
Clavel del aire
Si ninguno te aloja
¿adonde naces?

¿donde naces, florcita
Que estas creciendo,
Palomita asustada,
Grillo sin sueño?

A la huella, a la huella
Jose y maria
Con un dios escondido
Nadie sabia ...

A la huella, a la huella
Los peregrinos
Prestenme una tapera
Para mi niño.

A la huella, a la huella
Soles y lunas
Los ojitos de almendra
Piel de aceituna.

¡ay burrito del campo!
¡ay buey barcino!
¡que mi niño ya viene,
Haganle sitio!

Un ranchito de quincha
Solo me ampara
Dos alientos amigos
La luna clara

A la huella, a la huella
Jose y maria
Con un dios escondido
Nadie sabia ...
Telma Miranda
Este é um poema de um autor português, Antonio Gedeão.
Melhor ainda é ouvi-lo. É só ir no endereço abaixo:
http://www.truca.pt/ouro/obras/antonio_gedeao.html


Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Telma Miranda





Bergman me estraçalha e Bach me recompõe.
Que eu possa ter a ventura de morrer numa segunda cercada de tantos afetos...





Telma Miranda
"Depois do silêncio, o que mais exprime o inexprimível é a música."
Aldous Huxley - 1894/1963



Telma Miranda


Oito de dezembro: eclipse em conjunção ao eixo nodal. Vou verificar: os nodos são pontos do mapa astral que representam o passado e o futuro. Hum...
Onze horas. Verifico o refrigerador: arroz integral de ontem, anteontem, do passado. O mesmo: como torná-lo diferente? Corto cebolas finas. Seco as lágrimas e enxugo o passado. Pimentão vermelho em cacos. Nozes picadas, damascos em pedaços, castanha ralada. Coração partido.
................................................

Ligo o rádio e ouço o som das cebolas combinando-se com o azeite: pressinto promessas. Concentro-me no tempo presente. Sem precipitação. Simplesmente aguardo. Pimentão-vermelho-paixão, é a sua vez. Jogo agora o arroz do passado. Ah, descoberta alquímica: o jogo, o acaso. Então é isso? Brincar e jogar e criar? Então, vamos lá: nozes, damasco e castanhas (do Pará).
Que mais? O que quiser...
Uva-passa? – Sim...
Azeitonas pretas? - Não...
Aveia grossa? –Sim...
Sementes de linhaça? - Sim...

...e o jogo nunca termina...

E, como uma mágica, o novo acontece. O futuro como obra do acaso, do prazer de criar, do fazer diferente. Agora, é só rodear o arroz com verdes diversos de esperança.
Telma Miranda

Formas ao acaso



"O homem tem de se inventar todos os dias."
Jean Paul Sartre,1905-1980


Numa sexta de novembro, leio em uma revista de agosto: "a mente humana foi configurada para encontrar ordem onde ela não existe." Referia-se, o artigo, à dificuldade humana de reconhecer o acaso, o aleatório. A ideia de que a ordem está ligada a uma perfeição (ou uma aproximação disso) é comum. Mas, incrivelmente, o acaso absoluto é uma forma de perfeição. Ora, ou sempre existe uma ordem (seja ela qual for) ou não existe ordem alguma (e criamos uma ilusão que teimamos em reconhecer como ordem). O texto - que na verdade é uma resenha de um livro intitulado "Andar do Bêbado" do físico americano Leonard Mlodinow - termina com a seguinte afirmação: "A consciência do acaso pode ser libertadora."

Por obra do acaso, nessa mesma sexta assisti a "Viver sem tempos mortos", um monólogo magistralmente interpretado por Fernanda Montenegro sobre a obra de Simone de Beauvoir. "O acaso tem sempre a última palavra", nos diz Simone-Fernanda. Sempre o acaso tecendo tempo e vida, entretendo nosso espanto, surpreendendo dias, desconcertando noites...

Contudo se a consciência do acaso nos liberta - e podemos então compreender o desconcerto como a mais perfeita harmonia - por outro nos condena por saber que não somos nem jamais seremos livres de deixar de ser livre. E que essa liberdade consiste em sempre escolher e que essa escolha é sempre absurda.

Talvez por isso a vida se resuma numa dança cujos movimentos (meus e os do universo) se entrelaçam trazendo surpresas, esbarrões, alegrias, pisões no dedão, prazer e vida. É a tal vida inventada de todos os dias.
Telma Miranda

Butterflies and Poppies, Van Gogh, 1853-1890

1. Uma borboletinha tão branca, quase transparente, pousava mansamente na minha tarde quente. Olhei-a distraída, assim como ela, que não percebeu a aproximação de uma maquiavélica lagartixa. Num impulso, falei: oh, borboletinha, vá embora! vá enquanto é tempo. E ela, absolutamente mansa, nenhuma atenção me deu. Pensei: oh, nada me cabe na tarde, muito menos interferir no tempo das coisas. E pensei mais: porque escolher a borboletinha e preterir a lagartixa? porque entristecer os olhos se a alma se comove tão levemente?
Deixei a tarde com suas mazelas e fui anoitecer em outro lugar.

2. ...sabe que também por aqui elas têm aparecido muito ultimamente? Uma delas surgiu outro dia, enorme, castanha, silenciosa (!!!) e incrivelmente bela. Uma outra era miúda, branquinha e não estava só. Mas eu me sentia só, pensando que ainda hoje, diante deste nada saber sobre o próximo segundo, poderia viver uma dor, dessas que de tão intensa uniria a Tristeza com a Beleza (enfim, stupid things) e aí surgiram as borboletinhas brancas. Me distraí... Acompanhei por um breve tempo o passeio delas e de repente lá se foram, levando o meu espanto... Sei que não perguntei nada, mas me deram respostas. Quais ainda não sei, mas sei que foi assim.....

* Isso já ocorreu há dias, mas na literatura acabou de acontecer...
Telma Miranda
Era muito jovem quando vi o filme "Ensina-me a viver" (Harold and Maude) em um cinema que ficava no final de uma galeria, na antiga praça Saens Pena. Vi umas três vezes. Me lembro até hoje da sensação de um certo estranhamento e muito contentamento. A música de Cat Stevens, claro, ajudava e, nessa mesma galeria, havia uma loja de discos onde comprei o LP. O filme conta a história de um jovem de 20 anos que se recusava a viver da forma como todos esperavam e que vivia encenando situações que sempre envolviam a morte. Um dia encontra uma mulher de 79 anos por quem se apaixona e começa, então, a viver. Mas uma cena sempre me perturbou.

À beira de um lago, Harold dá um anel a sua amada. Maude, feliz, aprecia o anel e, zás, atira o anel no meio das águas. Como já disse, era muito jovem e aquilo foi um choque. Harold, como eu, estranha: como assim? E ela responde: assim sempre saberei onde está. Ah, como custei a aprender a guardar assim! Era tão jovem e pensava que muitas coisas ainda iriam acontecer e que teria que guardá-las para não esquecer. Queria guardar absolutamente tudo que tivesse alguma importância. Já havia as infinitas caixinhas, em cujo interior conviviam embalagens de diamante negro, um brinco sem par, uma foto de Charles Bronson, papéis amassados com os desenhos que Marcos fazia. As pétalas de flores recebidas iam para dentro dos livros, amarelando as páginas melancolicamente. Mas, afinal, eu sabia onde estavam.
E seguimos assim: folhas desbotadas, bilhetinhos enamorados, guardanapos secretos, versos proibidos, fotos dos filhos, primeiros rabiscos...
Muitas caixinhas depois, percebi que saber onde guardamos esses objetos queridos não os torna vivos. Mais: as caixinhas são pequenos esquifes onde depositamos tempo perdido. Não foi fácil jogar lembranças às águas. Mas não saber onde estão me dá a certeza de sempre saber que existiram. E basta!
Telma Miranda
"Era uma vez, há muito tempo atrás, num lugar muito distante... assim começam as histórias que driblam o tempo, situando-se nas coordenadas imaginárias de passado tão antigo que, paradoxalmente, “parece que foi ontem”. Neste lugar, os poetas são conhecidos como vates, porque fazem vaticínios, enquanto os narradores são conhecidos como aedos e, acompanhando-se à lira, cantam composições épicas.

Vates e aedos debatem-se com a língua porque precisam encontrar uma única forma de dizerem com precisão o que querem dizer. Para tanto, recorrem a formulações alusivas e ambíguas, de modo a que ouvintes e leitores percebam em suas palavras o que querem, ou precisam, ler e ouvir. Apenas dessa maneira paradoxal, através da ambigüidade, comunica-se o que não se pode comunicar: a verdade de cada um.

Semelhante esforço de precisão depende de um esforço equivalente de concisão, para não se dizer nem mais nem menos do que é preciso ser dito. No entanto, a própria língua resiste à pretensão. O gesto de dizer ou escrever sugere o movimento de tentar encher com uma jarra cheia d’água, do alto da cabeça, pequena caneca no chão: se o fazemos com bastante cuidado, até acertamos a caneca, que todavia transborda muito antes de ser preenchida. A palavra, como a água, revela-se tão pletórica quanto insuficiente. “Não era bem isso o que eu queria dizer”, reclamam, desanimados, depois de uma discussão, ambos os namorados, porque, na verdade, nunca dizemos, ou sequer sabemos, o que queríamos dizer: sempre se fala mais – ”eu não disse isso!” – e menos – “você ainda não me entendeu!” – quando não se fala em versos.

Isso acontece porque a língua cotidiana não admite seu caráter pletórico e incompleto, enquanto a poesia parte desse reconhecimento. Por se reconhecer excessiva e incompleta, “a poesia aumenta o território do pensável, mas não diminui o território do impensável”, como já o disse Vilém Flusser. A poesia alarga o horizonte sensível, mas não resolve qualquer mistério. Em outras palavras, se sempre precisamos de outras palavras: faz-se poesia não para resolver os enigmas, mas sim para protegê-los.

A poesia, em si mesma enigmática, procura formalmente a concisão máxima, cortando-se em versos e ampliando o branco da página que a cerca. Talvez por isso façam tanto sucesso, no Ocidente, os poemas orientais do tipo haikai (ou haiku), usualmente reconhecidos como os menores poemas do mundo. Segundo Masuda Goga, o haikai é o poema conciso por definição, formado de dezessete sílabas distribuídas em três versos, na ordem 5-7-5, sem rima nem título.

O poeta que faz haikais (em japonês, um haijin) deve procurar a simplicidade cotidiana, recusando retórica grandiloqüente ou piegas. Como o zen, precisa evitar o raciocínio para poder captar o instante e a transitoriedade “em seu núcleo de eternidade”. O haikai não explica, não discursa – apenas, sugere."

A continuação desse texto está em:
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/editor34.htm

- um site de leitura obrigatório.
Telma Miranda



"Há três séculos - exatamente entre 1644 e 1694 - vivia no Japão o grande poeta Bachô, considerado por muitos o mais admirável representante da poesia no seu país, tanto pela perfeição de seus poemas como pela pureza de sua vida. Chamam-no "o divino Bachô", resumindo nessa expressão sua glória de homem e de artista. Tendo abandonado suas atividades de muito jovem funcionário, tornou-se monge budista, levando existência errante. Mais tarde, teria passado a habitar uma cabana, à sombra de uma bananeira, de onde lhe veio o nome de Bachô, que é pseudônimo literário.
Embora tendo sido também fino prosador, Bachô é mais conhecido no Ocidente pelos seus breves poemas de dezessete sílabas que, no Japão, se chama hái-kái ou kái-ku, tipo de composição a que ele e os da sua escola imprimiram brilho e dignidade excepcionais.
O hái-kái tem sido tentado por muitos poetas ocidentais, seduzidos pela sua extrema concisão de forma. Mas, em japonês, o hái-kái não é apenas um quadro breve, um desenho extremamente sucinto e, na aparência, fácil, representando uma paisagem, uma situação ou um estado de espírito. Os elementos que nele se dispõem e são diretamente perceptíveis pelos sentidos evocam, para os japoneses, sugestões que o Ocidente em geral não pode captar, por aludirem a circunstância, pessoas, acontecimentos inerentes ao Japão e ao seu povo. Às vezes, a poesia decorre de jogos de palavras, intraduzíveis em outros idiomas. De modo que, quase sempre, o que o leitor não iniciado percebe, num desses poemas, nada tema a ver com o que ele verdadeiramente exprime.
Um dos mais conhecidos hái-kái de Bachô é o que diz:

"Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água."

Essa pequena imagem, que nos deleita pelo contraste do silêncio do velho tanque com o súbito salto da rã e o som da água, tem, na análise dos especialistas, um significado mais profundo: ela representaria o choque do momentâneo com o permanente, choque de que resulta a "percepção da verdade". Assim, o hái-kái, nas mãos de um artista da qualidade de Bachô, apresenta dimensões que mal se poderiam adivinhar nas suas dezessete sílabas. É um engano tomá-lo apenas pelo aspecto superficial: precisa-se penetrar na intimidade da sua significação.
Há outro hái-kái de Bachô que se tornou famoso no Ocidente. E nesse, embora, pelo lado plástico, se nos ofereça uma inesquecível imagem, o conteúdo moral se torna trasparente, de modo que o pequeno poema vale duplamente, pela forma e pelo sentido. Na verdade, ele fora composto por Kikaku, um dos discípulos favoritos de Bachô. E dizia:

"Uma libélula rubra.
Tirai-lhe as asas:
uma pimenta."

Bachô, diante da imagem cruel, corrigiu o poema de seu discípulo, com uma simples modificação dos termos:

"Uma pimenta.
Colocai-lhe asas:
uma libélula rubra."

Este pequeno exemplo de compaixão, conservado num breve poema japonês de trezentos anos, emociona e confunde estes nossos grandiosos tempos bárbaros. Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor - porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias."

In: Escolha o seu sonho, Cecília Meireles, Editora Record, 1968
Telma Miranda
"Uma poética do devaneio poético! Grande ambição, ambição grande demais, pois redundaria em dar a todo leitor de poemas uma consciência de poeta."



Interrupted reading, Camille Corot, 1796/1875

Bachelard é um filósofo, mas é sobretudo um poeta. Não escreveu versos, mas tinha uma visão poética do mundo e dos homens. Via na imaginação a riqueza humana. Os poetas imaginam um mundo, sim, mas é também através da fruição da poesia que nos tornamos igualmente criadores de um mundo próprio. Diante das imagens que os poetas nos oferecem, o devaneio poético se instala em nossa alma, e, como uma mágica, nasce em nossa imaginação uma nova imagem poética que ilumina nossa consciência, abrindo novos destinos para a palavra e nos permitindo confiar no universo e perceber as inúmeras possibilidades de ser: "num mundo que nasce dele, o homem pode tornar-se tudo."


Rêverie, Camille Corot, 1796/1875


A imaginação, para Bachelard, pode nos fazer criar um mundo que, paradoxalmente, já existe mas que precisa ser criado por nós. Mais: esse devaneio poético só pode existir na solidão. Uma situação de solidão sonhadora. Winnicott, psicanalista inglês com cujas idéias tenho grande afinidade, nos fala da capacidade de estar só, mesmo estando em presença de outrem. É só quando estamos sós que podemos perceber nossa vida interior, que podemos prestar atenção na existência de um objeto bom na nossa realidade psíquica que nos impulsiona a vivenciar novas descobertas. E é nessa extrema e rica solidão que as recordações tristes podem adquirir, pelo menos, a paz da melancolia.
Telma Miranda

Rêverie, John William Godward, 1861/1922


Até o dia 20 de dezembro, a rádio Mec Fm está apresentando, aos domingos, ao meio-dia, um ciclo em homenagem ao pianista brasileiro Heitor Alimonda, falecido em 2002. Em uma dessas entrevistas, ele nos conta que curiosamente não havia, na história da música clássica, nenhuma obra cujo título fizesse menção ao sonho antes da famosa Rêverie de Schumann (1810-1856). Em francês, há uma grande diferença entre rêve (palavra masculina que traduzimos como sonho) e rêverie (palavra feminina que traduzimos por devaneio: esse sonhar acordado...).


Gaston Bachelard (1884-1962), filósofo francês, dedicou um livro a esse assunto: "A poética do devaneio". Ele trata principalmente do devaneio poético: não o devaneio adormecedor, mas sim aquele que alarga e clareia nossa consciência. Um devaneio que poderia ser escrito, em palavras ou em notas musicais. O devaneio poético é um devaneio cósmico que nos possibilita criar um outro mundo e compartilhá-lo através da arte. E a grande singularidade da arte reside justamente no "prolongamento da atividade criadora na alma daquele que por ela se deixa invadir". Haveria, para ele, dois movimentos cruciais: ressonância e repercussão. "As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos de nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento de nossa existência." Convido-os, portanto, a permitir que a música repercuta na alma, possibilitando assim uma experiência de uma existência essencialmente criadora. Temos escolhas: a rêverie de Schumann, ao violão, e a rêverie de Debussy. Ou ambas. Deixar-se tocar pela poesia das notas musicais nos permite sonhar acordado e criar um mundo particular, amoroso e criativo.

Rêverie de Schumann pelo violonista Antonio Lopez Palacios, do México.



Rêverie de Debussy para harpa com Ina Zdorovetchi, nascida na Moldávia.
Telma Miranda

Photografh, D.F.Hectik

Assisti recentemente a uma surpreendente apresentação (inserida nos especiais musicais da TV SENAC): a soprano argentina Lia Ferenese, junto com Ensemble Ópera Nova Zürich, interpretando uma peça de um italiano. Música contemporânea. Para quem tem ouvidos românticos ou clássicos há um enorme estranhamento. Alguns certamente se recusarão, mas posso afirmar que foi uma experiência absolutamente fascinante. De início há um certo mal estar, um espanto, eu diria. Depois surgem a dúvida, o atordoamento; em seguida, começa-se a prestar atenção e descobre-se (em grande parte devido à incrível interpretação da soprano), sem nenhuma sombra de dúvida, que se trata de uma verdadeira obra de arte.
Lohengrin, azione invisibile: eis o nome deste monodrama escrito por Salvatore Sciarrino, nascido em 1947 em Palermo, Itália. Baseado na ópera Lohengrin, de Wagner, é uma obra fascinante, que utiliza recursos vocais e instrumentais de uma forma absolutamente nova, criativa e inesperada. Infelizmente não há vídeo disponível.
Em 1937 (10 anos antes do nascimento de Sciarrino) morria Maurice Ravel, compositor francês que compôs uma peça intitulada Gaspard de la Nuit, de difícil execução. Possui três movimentos. O primeiro intitula-se Ondine, que narra a história de uma fada das águas que utiliza sua voz para seduzir e levar os visitantes ao seu reino que fica nas profundezas de um lago.



Na década de 70, Sciarrino compôs De la nuit, em um diálogo com Ravel. Um impressionista, outro contemporâneo. Não posso negar minha ligação profunda com os românticos, mas novas experiências musicais são sempre bem-vindas.

Telma Miranda
Pelo menos duas vezes por semana preciso atravessar a praça Getúlio Vargas, em Icaraí - Niterói, a caminho do consultório. Um dia me chamou a atenção a presença de um simpático senhor (certamente ele deve ser simpático), elegantemente vestido, sentado em uma daquelas mesas de concreto, absolutamente compenetrado sobre seus papéis e canetas. Sempre pela manhã, lá está ele. Observo e fico a imaginar (ah... sempre a cruel curiosidade) sua vida, sua história, sua escrita, seus amores. E nem o vento de primavera que chega o afasta de sua tarefa: estará escrevendo cartas? poemas? uma composição musical?. Mas ele permanece, incólume e impassível, comovendo-me. Atravesso.

Penso então em dois outros simpáticos e elegantes senhores. Um é poeta, Mário, Quintana, de Porto Alegre. Outro o grande pianista, Vladimir, Horowitz,da Ucrânia. E me deixo, então, embalar pelo vento de primavera que faz saltitar as folhas naquela manhã, lembrando os grilos do Mário, os dedos de Vladimir e aguardando sempre as boas novas que o vento nos pode trazer.

O que o vento não levou

"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
Mário Quintana.


Telma Miranda

View of Dresden at full moon, Johan C.C.Dahl,1839

Uma das composições mais populares de Mendelssohn (1809-1847), este concerto para violino em ré menor, sem dúvida, é belíssimo. Assim como essa visão idílica de Dresden.





Mas...




...Dresden, a cidade barroca que representava a alta cultura da Saxônia, foi bombardeada pelos aliados na noite de 13 para 14 de fevereiro de 1945.

"Sessenta anos após o ataque aéreo que não deixou pedra sobre pedra, o poeta Durs Grünbein, natural de Dresden, publica o poema Porzellan: Poem vom Untergang meiner Stadt.
O longo poema rimado de 49 décimas é emoldurado por duas fotos de Dresden: uma vista aérea da cidade antes da destruição, que mostra o "S" do rio Elba e as construções às suas margens, e um antigo cartão postal da torre do Zwinger, o pavilhão barroco no centro da cidade, com um cupido em primeiro plano. O poeta canta as grandezas de "sua" cidade (apesar de ter nascido 17 anos após sua destruição), intercalando estrofes sobre os horrores da guerra aérea.

Dresden: Pompéia alemã?

Repita: não precisa de muito pra fazer
de uma cidade paisagem lunar. Ou carvão
de quem lá mora. Imagine só: acontecer
na pausa da ópera, buscar cigarro em vão.
E nas ruas, caindo mortos, o breu fervendo.
A mão do ciclista cola azul no guidão, neve,
mar de casas varrido por desértico vento.
Faraós em trajes de inverno queimam em breve.
Mais quente que qualquer verão. O último alarme
mal se dissipa, e no centro a cinza ainda arde."

(http://www.dw-world.de/popups/popup_printcontent/0,,1838439,00.html)



Ainda ouvindo Mendelssohn dá pra imaginar a destruição e a reconstrução de Dresden?



A melancolia e a tristeza de existir persiste. Seja 1839, 1945, 2005. Assim como as cidades, também nós sofremos momentos de destruição e permanente necessidade de reconstrução. Entretanto a mesma dor que nos sufoca é também ela que nos impulsiona a criar novos sentidos, a reconhecer a não-dor, a partir ou a ficar, desde que se escolha a dor e não o nada. E Mendelssohn.
Telma Miranda

Brazilian Forest, Charles Comte de Clarac, 1877-1927


Um grande amigo me enviou uma belíssima peça de Bach: Siciliana, com Evgeny Kissin ao piano. A composição não tem, formalmente, os aspectos característicos do romantismo. Falta o arrebatamento e a afetação. É uma melodia clara,despretensiosa, sem ornamentos, ingênua, quase infantil. Entretanto há uma certa "transcendência" que, a mim, me reenviou aos quadros de Friedrich. Entretanto, essa mania de sempre experimentar algo diferente, escolhi a interpretação de Sérgio Monteiro (de Niterói) da obra do barroco alemão e um quadro de um francês do final do século XIX, retratando a floresta amazônica que lembra o romance indigenista Ubirajara de José de Alencar, de 1874. Não sei se tudo se encaixa. Se não, o jogo recomeça.




Telma Miranda
O primeiro quadro pertence ao sombrio romantismo alemão do início do século XIX, o segundo tem as cores da Califórnia fixadas pelo artista no início do século XX. Vangelis é um compositor grego, segunda metade século XX. A solidão e o silêncio... eternos.


Solitary tree - Caspar David Friedrich, 1774-1840



The great silence - Fred Grayson Sayre, 1879-1939





Prelude, Vangelis, 1943
Telma Miranda

Mad Woman, Delacroix, 1822



Madness


A tal lucidez incomunicável

Que nos deixa mais sós

Não na noite infinda

Mas na manhã

apenas iniciada...



Escrevi isso há algum tempo. Sobre um verso de Pessoa: " A lucidez incomunicável é a pior solidão". Loucura e lucidez unidas na angústia da incomunicabilidade. Muitas vezes me surpreendo palavreando na tentativa de dar conta do tamanho da manhã. Daí a ilusão de clareza e urgência tamanha do papel. Ou da tela, anyway.
E me desconcerto, enquanto o mundo se desconserta.
Mas, paradoxalmente, toda essa loucura (habitada e alheia) que nos aprisiona também nos liberta. Como se brotasse, da alma desassossegada, uma chave que não abre coisa alguma mas que existe em si mesma como possibilidade. Tudo isso pra dizer que reli Clarice e me incomuniquei nela. E acordei com ela um acordo de silêncio. ( A incomunicabilidade junto à Clarice set me free...)


PS: Como não há mais bosques, decidi que a partir de amanhã vou caminhar todos os dias até a praia de Itacoatiara para des-palavrear o mundo. Quem sabe amanhece uma manhã lúcida de sol...
Telma Miranda



Em dias de Clarice, mal consigo rabiscar letras, quanto mais escrever palavras.
Impossível. Só ler e restar. Que nem barata morta esquecida num canto...
Telma Miranda


Para medir sua obra, Antônio Houaiss citou as "angústias afins" de Erasmo, Swift e Valéry; já Alfredo Bosi festejou: "Não é só o metro que agora se libera e espraia: a música toda se desata procurando seguir de perto as ondulações sutis dos estados de alma".

Ambos se referem a Jayro José Xavier, que é considerado por alguns um dos maiores poetas brasileiros vivos, ao lado de Manoel de Barros. Pois o autor acaba de lançar um livro feito por conta própria - mesmo. Recém-aposentado e sem editora, Xavier aproveitou seus conhecimentos de encadernação, uma prensa de madeira e papel reciclado de Itamonte, e tratou de confeccionar Poemas, onde reúne textos de 40 anos de carreira literária.

Uma pena que, no Brasil, uma obra tão preciosa fique relegada a uma tiragem de 250 exemplares (encomendados no e-mail jayroxavier@gmail.com). Ao mesmo tempo, é importante dizer: a edição caseira é um charme só. E, para dar um gostinho de seu conteúdo, segue o poema "O caracol":

"Mora entre as sombras eternas do fundo do pátio
e não canta. Antes inclina as antenas
e capta
a branda aspereza do dia

À noite sai,
tece uma seda líquida nos ladrilhos de cimento

Nem é um bicho, é
um silêncio
lentíssimo - mucosa e casa
movendo-se

Sábio molusco

No estio adverso encolhe-se feito feto
na valva em espiral. E adere
- úmido -
à dura pele da terra

(todo ele concha
e nostalgia
da unidade)"

Juliana Krapp
http://www.jblog.com.br/ideias.php?itemid=8208
Telma Miranda

Butterflies - Van Gogh

Frühlingslied

Die Luft ist blau, das Tal ist grün,
Die kleinen Maienglocken blühn,
Und Schlüsselblumen drunter;
Der Wiesengrund
Ist schon so bunt
Und malt sich täglich bunter.

Drum komme, wem der Mai gefällt,
Und schaue froh die schöne Welt
Und Gottes Vatergüte,
Die solche Pracht
Hervorgebracht,
Den Baum und seine Blüte.


Spring song (Traduction:English)

The sky is blue, the valley is green
The little lilies of the valley bloom,
And primroses underneath;
The meadowland
Is already so colorful
And paints itself more colorful every day.

Come around, you who love May
And look gladly at the beautiful world,
And at the fatherly kindness of God
[So good that] such splendor
Bursts out,
In the tree and its blossoms.

Letra: Ludwig Heinrich Christoph Hölty (1748-1776)
Música: Schubert

Essa canção de Schubert é um presente nesse início de primavera. Entre no endereço: www.das-lied.org opção: The Lieder, escolha "Frühlingslied" e ouça este belíssimo lied na voz do barítono Peter Schöne com Boris Cepeda ao piano.
Telma Miranda


POEMA I


Duro caminho é o de saber que não há caminho.
O que há são fragmentos de rota que o tecido do acaso
une ou desune. Estar, andar. Identificar-se com as cousas,
com o tempo. Estar aqui, ali. Estar antigamente, estar futuro,
ou buscar-se no espelho onde não há espelho.
Isso é tudo.
Mesmo assim nos sonhamos, e sonhamos
um roteiro, um destino.
Não no espaço, ou no tempo,
Mas na parte de nós, ah, tão frágil, que se devora
e, perdida, se salva.



POEMA II


Só agora é que compreendo haver inventado
tantas maneiras de não ser,
ou de ser, dividido,
disperso.
Ah, vida simplesmente pensada
e não apenas vivida, ou se sonhando entre mil fogos,
e por isso despida
de seu dom de unidade ou de sua própria essência!
Colado à sombra das cousas, viajo, desesperadamente,
dividido, disperso.
Onde estou, não sou.
Nunca sou totalmente.
E é um ficar, sem deter-me, e um partir, sem levar-me.
Telma Miranda

Poetry - Sanzio Raffaello, 1509

O inconsciente - seja lá o que isso quer dizer - é onde as palavras jazem à espera de redenção. Os poetas sabem disso. O poeta - que difere daquele que escreve apenas versos - vê o mundo de uma forma especialmente particular, única, indizível, enfim, poética. E aí as palavras vêm e ficam a seu dispor. O poeta as (a)colhe e as dispõe de tal forma que a nós só resta extasiarmos diante da beleza com a qual ele embala as simples palavras transformando-as em pontes entre nós e nossa humanidade. Continuo (e continuarei para sempre) a acreditar que precisamos como nunca dos poetas. Nossa sobrevivência como humanos depende, fundamentalmente, da poesia. Eis a nossa chance de redenção.

"Mas, amigo! Chegamos tarde demais.
Decerto vivem os deuses,
mas lá em cima, noutro mundo, por sobre as nossas
cabeças. (...)
Entretanto às vezes melhor me parece
dormir do que viver assim sem companheiros, ter
de esperar assim;
e o que fazer e dizer entretanto
não sei;
e para quê Poetas em tempos de indigência?
Mas eles são, dizes tu, como os santos sacerdotes do
do deus do vinho,
que iam de terra em terra em noite sagrada."

Hölderlin
Telma Miranda
Em tempos de Bienal é preciso uma reflexão. Hoje, no jornal "O Globo", lemos (relemos) a mesma ladainha: que as pessoas não têm o hábito de leitura, que o maior motivo é a falta de tempo e que o tal "hábito" se forma na infância. Primeira reflexão: "hábito" de leitura não se forma na infância. A primeira relação com a leitura é através do prazer e este só acontece quando encontramos o "primeiro" livro que realmente faça diferença. Este encontro pode acontecer a qualquer momento. Não adianta expor as crianças a livros (muitos deles subestimam qualquer sensibilidade), a exposições (idas obrigatórias pela escola), a peças de teatro "sofríveis", enfim, a toda uma série de atividades ditas culturais de que, dizem, precisamos participar. Ai daquele que ousa, diante do gato torto de Picasso, dizer que o pintor precisava de óculos. "Não, você não compreende. Isto é arte." E ponto. Voltando.
Quando temos nas mãos O tal livro, através do qual realizamos a grande experiência de leitura, aí sim, nos tornamos leitores. A aventura de ler torna-se uma paixão. Primeiro é a paixão, depois (claro) queremos mais, e a leitura pode assim se tornar um hábito. Este encontro pode acontecer a qualquer momento, em qualquer época: aos cinco anos, com o livro escolhido pelo avô, aos nove, na leitura silenciosa na escola, aos quinze com o livro emprestado pela melhor amiga, aos dezoito, com o livro-presente do namorado, aos trinta, quando compramos "A mulher de trinta anos" de Balzac. Segunda reflexão: a falta de tempo, citada como o grande motivo da falta de hábito de leitura, é o motivo, real sem dúvida, pelo qual deixamos de fazer tudo aquilo que nos traz prazer: não há tempo para conversas, para passeios, para ouvir música (sim, para ouvir música mesmo e não fazer uma trilha sonora para dirigir), enfim, o tempo não existe. E não existe mesmo. Por isso precisamos criá-lo. Terceira reflexão: temos que distinguir o leitor de um comprador de livros. A Bienal, por exemplo, que tem lá seus méritos, visa sobretudo o comprador de livros. Essa insistente estratégia junto ao público infantil, não nos enganemos, visa sobretudo à formação de um novo consumidor. O incômodo que causa em saber que há poucos leitores se transforma em um obstáculo às vendas e ao sucesso da indústria dos livros. Afinal, esta indústria não está preocupada com a leitura - e, com ela, que "as ideias voltem a ser perigosas" - e sim com seus lucros. É claro que existem histórias, como as relatadas no jornal, de pessoas que, ao terem contato com os livros - e a Bienal, como tantas outras iniciativas, é bem-vinda - possam se tornar leitores. Mas é preciso estar atento. Até porque há várias outras tentativas nesse sentido - como a de alguém que colocava livros usados em pontos de ônibus - que não tiveram nenhum apoio. Last but not least, o livro tem o poder de nos libertar e nos levar a um tempo sem ponteiros, um tempo de imersão, possibilitando uma inesquecível experiência. A leitura é ameaçadora, é transformadora. Nos tornamos leitores quando um livro se torna "um espelho coberto de areia sobre o qual depositamos, cheios de temor e de pudor, o que trazemos escrito dentro de nós."(José Castello). Só a verdadeira arte é capaz de nos transformar: é quando após a leitura de um livro, de um filme, de um quadro, nos sentimos outra pessoa e, paradoxalmente, nos sentimos, como nunca, tão intensa e verdadeiramente nós mesmos.
Telma Miranda



Lembro
ainda
quando ouvi,
pela primeira vez,
a valse nº 5 de Chopin.

Dos dedos de minha mãe
vi surgirem
asas,
cores,
que se transformavam em pássaros
que fugiam
voltavam
e novamente
desapareciam
num presságio de alegria...

Um estremecimento, então,
percorreu minhas mãos que,
ainda pequeninas,
desejaram ser as irrequietas avezinhas.

Mais tarde
(enquanto tocava a Berceuse)
percebi,
com o mesmo estremecimento,
que a emoção que nos torna livres como pássaros
também pode
- a mesma emoção –
aniquilar a alma.

Telma Miranda



Telma Miranda



OPUS III


O luar invade a casa
como uma serenata para cordas.

Na memória
essa lua olha
naquela sala antiga
o amor.

Minto.
Não era a mesma lua.
Nem a mesma sou.

Maria José Giglio


Telma Miranda
Ainda "habitada" por Orlando (não é fácil partir para outra aventura) preciso compartilhar palavras. Não para me libertar, pois me quero presa a elas para sempre, mas porque talvez assim minha prisão seja ainda mais doce.



Lovers in the country. G. Coubert, 1844





Sobre o homem/mulher:

"Orlando transformara-se em mulher - não há que negar. Mas, em tudo o mais, continuava precisamente o que tinha sido. A mudança de sexo, embora alterando o seu futuro, nada alterava da sua identidade."

"Um pouco de carne, senhora? - perguntou. (...) Qual o êxtase maior? O da mulher ou o do homem? Não serão talvez o mesmo? Não, pensava, este é o mais delicioso (agradecendo ao capitão, mas recusando); recusar e vê-lo entristecer. Bem, aceitaria, se ele o desejava, um pedacinho pequenino, o menorzinho possível. Isto era a coisa mais deliciosa: ceder e vê-lo sorrir. Pois nada(...) é mais divino do que resistir e ceder, ceder e resistir."

"Recordava como tinha insistido, nos seus tempos de rapaz, em que as mulheres devem ser obedientes, castas, perfumadas e caprichosamente enfeitadas. "Agora, tenho de pagar com o meu corpo por aquelas exigências", refletiu; "pois as mulheres não são ( a julgar pela minha própria curta experiência do sexo) obedientes, castas, perfumadas e caprichosamente enfeitadas já por natureza. Só podem conseguir essas graças, sem as quais não lhes é dado desfrutar nenhuma das delícias da vida, mediante a mais enfadonha disciplina. Só o penteado", pensava, "me tomará uma hora, todas as manhãs; outra hora para mirar-me ao espelho; há o espartilho, o banho, os pós, há que trocar a seda pela renda e a renda pelo brocado; há que ser casta o ano inteiro."

"É melhor", pensou, "estar vestida de ignorância e pobreza, que são os obscuros ornamentos do sexo feminino; é melhor deixar a outros o governo e a disciplina do mundo; é melhor estar livre da ambição marcial, do amor ao poder e de todos os outros desejos varonis, desde que se possam fruir em toda a plenitude os mais sublimes arrebatamentos do espírito humano, que são", disse em voz alta, como era seu costume quando estava profundamente comovida, "contemplação, solidão, amor." "Graças a Deus que sou mulher", gritou.

"Orlando já sabia, pela sua própria experiência de homem, que os homens choram tão frequentemente e tão sem razão quanto as mulheres; começava, porém, a perceber que as mulheres se escandalizam quando os homens manifestam sua emoção diante delas, e estava escandalizada."

"Mesmo agora (...) estava em vias de fabricação. A mudança era incessante; a mudança talvez não cessasse nunca. (...) Como tinha mudado tão pouco em tantos anos. Fora um rapaz melancólico, enamorado da morte, como são os rapazes; depois amoroso e exuberante; (...)Apesar de todas essas mudanças - refletia - tinha ficado fundamentalmente a mesma. Afinal de contas, nada mudou."





Man writing a letter. Met Su, 1662

Sobre escrever:

"Estava descrevendo, como todos os poetas jovens sempre descrevem, a natureza, e, para determinar precisamente um tom de verde, olhou (e nisso mostrou mais audácia que muitos) para a própria coisa, que era um loureiro por baixo da janela. Depois disso, naturalmente, não pôde mais escrever. Uma coisa é o verde na natureza; outra coisa, na literatura. Entre a natureza e as letras parece haver uma natural antipatia; basta juntá-las para que se estraçalhem. O tom de verde que Orlando agora via estragou-lhe a rima, quebrou-lhe o metro."

"Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura. Muita gente de seu tempo, mais ainda, da sua hierarquia, se livrou desse mal, e tinha assim a liberdade de correr, cavalgar ou amar como bem lhe apetecesse. (...) Porque a doença de ler, uma vez tomando conta do organismo, enfraquece-o a ponto de torná-lo fácil presa desse outro flagelo que habita no tinteiro e supura na pena. O desgraçado dedica-se a escrever."

"Qualquer pessoa regularmente familiarizada com os rigores da composição dispensará pormenores; como escreveu e pareceu-lhe vil; corrigiu e rasgou; aparou; acrescentou; extasiou-se; desesperou-se; teve suas noites boas e suas manhãs ruins; apreendeu idéias e perdeu-as; viu diante de si o seu livro nítido, e desvaneceu-se; personificou seus heróis, enquanto comia; recitou suas falas, a caminhar; ora chorava; ora ria; vacilou entre este e aquele estilo; ora preferia o heróico e pomposo, em seguida, o singelo e simples; agora os vales de Tempe, depois os campos de Kent ou Cornwall; e não chegou a saber se era o mais divino dos gênios ou o maior louco do mundo."

"...Orlando retirava-se sozinho para o seu quarto. Lá, com a porta fechada, e certo da sua solidão, tirava um velho caderno, cosido com seda roubada ao costureiro de sua mãe e rotulado, com uma redonda letra de colegial, O Carvalho - poema. Nele escrevia até muito além da meia-noite. Mas como apagava tanto quanto escrevia, no fim do ano o total de versos costumava ser bastante menor do que no princípio, e era como se, à medida que o escrevesse, o poema fosse ficando inteiramente por escrever."

"A letra s - reflete - é a serpente no Éden do poeta. Mas o s não era nada, em sua opinião, comparado à terminação "ando". O particípio presente é o próprio demônio, pensava(...). Evitar tais tentações é o primeiro dever do poeta, concluía, pois, como o ouvido é a antecâmara da alma, a poesia pode arruinar e destruir com mais segurança do que a luxúria ou a pólvora. O ofício do poeta, continuava, é portanto o mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para os outros é inatingível."

"Pois, se é temerário entrar desarmado no antro do leão, se é temeráio navegar pelo Atlântico num barco a remo, temerário ficar num pé só no alto da Catedral de São Paulo, é ainda mais temerário ir para casa a sós com um poeta. O poeta é ao mesmo tempo um leão e o Atlântico. Um nos afoga e o outro nos rói. Se sobrevivemos aos dentes, sucumbimos nas ondas. Um homem que pode destruir ilusões é, ao mesmo temo, fera e dilúvio."

"A mais banal conversação é muitas vezes a mais poética, e a mais poética é precisamente a que se não pode anotar. Razão pela qual aqui deixamos um grande espaço em branco, o que servirá para indicar que o espaço está completamente repleto."



A Dance to the music of time. Nicolas Poussin, 1635



Sobre o tempo:

"Mas, desgraçadamente, o tempo, que faz florescerem e murcharem animais e vegetais com espantosa pontualidade, não tem sobre a mente humana um efeito tão simples. A mente humana atua com igual estranheza sobre o corpo do tempo. Uma hora, instalada no estranho elemento do espírito humano, pode ser distendida cinquenta ou cem vezes mais do que a sua medida no relógio; inversamente, uma hora pode ser representada no tempo mental por um segundo. Esse extraordinário desacordo entre o tempo do relógio e o tempo do espírito é menos conhecido do que devia ser, e merece mais profundas investigações. Mas o biógrafo, cuja tarefa, como já dissemos, tem de ser limitada, deve reduzir-se a declarar: quando um homem chega aos trinta anos, como Orlando, o tempo dedicado a pensar se torna estranhamente longo, e o tempo dedicado a agir estranhamente curto."

"A verdadeira extensão da vida de uma pessoa, diga o que disser o Dicionário Biográfico Nacional, é sempre matéria discutível. Porque é difícil esse registro do tempo: nada o desordena mais rapidamente que o contato com qualquer das artes."

"A memória faz a sua agulha correr para dentro e para fora, para cima e para baixo, para cá e para lá. Não sabemos o que vem em seguida, o que virá depois."
Telma Miranda

Uma grande e inesquecível experiência de leitura! Reler Orlando, de Virgínia Woolf (na tradução primorosa de Cecília Meireles) foi um verdadeiro êxtase. É uma obra prima. Orlando nasce homem no século XVI, transforma-se em mulher e vai até o século XX. Um passeio pela história da Inglaterra (a descrição da inundação no final do primeiro capítulo é primorosa: é o próprio fluxo da história). O relógio toca as badaladas: o céu claro do século XVIII torna-se escuro no século XIX. As casas ficam recobertas de heras e há umidade por toda a parte: no madeiramento, nos pensamentos, no tinteiro. "Os adjetivos se multiplicaram; a poesia lírica tornou-se poema épico; e pequenas bagatelas, que tinham sido ensaios de uma coluna, eram agora enciclopédias de dez ou vinte volumes." Orlando um dia acorda mulher, olha em volta e percebe que todos andam aos pares: é a era do casamento. Lady Orlam se casa e rende-se à maternidade. Chega o século XX: a água aquecida, "a um toque a sala inteira estava iluminada", a fábrica de guarda-chuvas, o trem, as vitrines, "uma loja que vendia livros", os empregados de banco, a fragmentação da identidade do ser humano, os "rios de gente". A hera havia secado. E Lady Orlam presta, então, uma reverência ao espírito da época...
Tudo é genial. Cada página, cada parágrafo, cada palavra nos ata para sempre ao próprio ato de ler. Passear pelas frases, conduzida por Virgínia e Cecília através das palavras escolhidas, é uma experiência absolutamente necessária e imprescindível. Tempo infinito da mais pura Beleza.
Telma Miranda
Hoje, dia 20 de agosto, às 7:01, o encontro: Lua e Sol. Mais uma lua nova. Dizem que é o momento propício para iniciar projetos. Dizem também que não é uma boa hora para cortes de cabelo. Essas indicações nada mais são do que tentativas de nos aproximarmos mais da natureza e agir em comunhão com ela. Pela manhã, portanto, aconteceu o encontro, escondido pelas nuvens. Na minha imaginação (santa e terrível imaginação!), visualizei o "encontro" dos dois no espaço infinito. Na imaginação, tudo é possível, pois é claro que esse encontro não existe. Ou melhor, existe de um ponto de vista nosso, mas ambos estão apenas "passeando" no cosmos a quilômetros de distância. Mas, insistindo no imaginar, penso nos dois astros tão próximos que quase se tocam no silêncio do vazio. Me lembro então do primeiro movimento da Sonata ao Luar. Beethoven (1770-1827) foi um dos grandes representantes do romantismo na música erudita. Ele compôs a sonata 14, opus 27, n.2 que só mais tarde recebeu o nome de Sonata ao Luar. A melodia, tão melancólica, tem a densidade característica do romantismo. Principalmente o primeiro movimento - o adágio - que me pareceu uma boa dica para esse dia de lunação.

Telma Miranda
Claude Debussy (1862-1918) é um compositor francês considerado impressionista, autor de uma música vaga "que se ouve com a cabeça reclinada nas mãos". Ou então podemos ouvi-la passeando pelos jardins de Claude Monet (1840-1926), pintor francês também impressionista, cuja técnica, inovadora, fazia com que os quadros, vistos de perto, apresentassem apenas borrões, mas ao distanciar a visão, o quadro se formava com extrema nitidez.



A música de Debussy também tinha esse caráter vago, sutil e ao ouvi-la temos a impressão que a melodia simplesmente vai se dissolver. A peça intitulada Clair de Lune é a mais popular.
Para um dia de encontro entre sol e lua, ao som do romântico Beethoven ou do impressionista Debussy, o que importa é refletir sobre o que é um encontro. E aí nada como o cinema para unir uma melodia, uma manhã e uma história de duas pessoas que se encontram. A cena abaixo é o final do filme Frankie and Johnny, realizado em 1991, e que merece ser visto ou revisto. Fala de uma profunda solidão humana e da necessidade de se estar conectado a algo ou alguém. As resistências de Frankie, a insistência de Johnny, o desejo de se relacionarem verdadeiramente tornam os personagens figuras emblemáticas dessa busca incansável e tão difícil do encontro. Amanhece. E a luz do sol - acompanhada pelas notas da melodia Clair de Lune de Debussy - penetra pelas frestas da janela, desfazendo defesas e iluminando esses dois seres agora dispostos a se unirem em uma união dos opostos: Sol e Lua.


Telma Miranda

Uma amiga, bem sucedida no mundo dos negócios, me diz que iniciou um curso de filosofia. Nada sabe sobre o assunto, mas, por curiosidade, inscreveu-se e lá foi ela. No primeiro encontro, disse-me, entendeu pouco mas o suficiente: "o tal filósofo falou que vivemos em um mundo com excesso de informação e um vazio de conhecimento - me sinto exatamente assim". É verdade, caríssima, que todos nós temos esse sentimento. Estamos absolutamente cheios: de informação, de oferta, de retórica, de compromissos, de comida e de dor. Por outro lado, vazios de verdades, de pátria, de afeto. Com fome e sem nenhum apetite, atravessamos os dias entre os excessos e as faltas. Mas há quem diga que este vazio pode ser o primeiro passo para uma nova construção: um vazio, digamos, criativo. Talvez esse sentimento do vazio seja exatamente a melhor forma de resistir às "cheias" contemporâneas. Como se do "nada" é que pudéssemos partir: sem malas, nem referências. Construindo cada passo, mesmo sem direção certa, tendo como bússola apenas a vontade de viver e de ser algo o mais próximo de si mesmo. Cheios de cascas e marcas, talvez seja necessário o sofrimento do vazio, da nudez, da consciência do sem-sentido, para que possamos experimentar novos dias, sendo e criando um novo "si-mesmo". Não é fácil fazer escolhas, mas uma delas é imprescindível e urgente: escolher viver a própria vida do jeito que queremos e não como querem que ela seja.
Telma Miranda
"Amar é regozijar-se, ou mais exatamente, amar é regozijar-se com. Imagine que alguém lhe diga: "Fico contente com a idéia de que você existe", ou então "quando penso que você existe, fico contente". Você vai considerar isso uma declaração de amor - e com razão. Mais do que isso, é uma declaração de amor que não lhe pede nada. Vocês podem objetar: "Mas, quando alguém diz "eu te amo", também não está pedindo nada..." Está sim. E não apenas que o outro responda "eu também". Ou antes, tudo depende de que tipo de amor se declara. Quando você diz "eu te amo", isso significa: "Você me falta" e, portanto, "eu te quero". Então é, sim, pedir alguma coisa, é até mesmo pedir tudo, já que é pedir alguém, já que é pedir a própria pessoa! "Eu te amo: quero que você seja minha". Ao passo que dizer "Estou contente com a idéia de que você existe" não é pedir absolutamente nada: é manifestar uma alegria, em outras palavras, um amor que, é claro, pode ser acompanhado de um desejo de união mas que não poderia ser reduzido a ele. Tudo depende do tipo de amor de que se dá prova, por que tipo de objeto. É aí que residem, explica Spinoza, "toda a nossa felicidade e toda a nossa miséria."
Este é um trecho livre de uma passagem de um pequeno grande livro chamado A Felicidade Desesperadamente, do filósofo francês André Comte-Sponville. Esta é uma indicação de leitura para todos aqueles que ficam felizes quando pensam que certas pessoas existem.
Telma Miranda

Natalia Goncharova, 1913

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.

Ferreira Gullar
Telma Miranda
Há coisas que não decifro.
E nem por isso sofro.
Estar no mundo é que é o
difícil.

O sol é uma bola imensa.
Eu, pó de mésons.
Em torno a mim nenhuma só
tormenta.

A tarde é linda, pássaros
chilreiam. Na radiola
uma sonata para violino
de Bach.

Antonio Brasileiro

Telma Miranda


Sexta. Duas da tarde. Da janela do 1001 o mundo se compõe e recompõe. A pobreza aparece nítida, calma. A riqueza, distante e bela. A cada quadro que se me apresenta através da janela penso se o mundo é mesmo assim ou se sou eu que o invento. Aonde vou? Ah, sim: estou indo para a casa de minha irmã encontrar primos que não vejo há muitos anos e dos quais não me lembro - ou muito pouco. Chego antes. Confiro com ela algumas informações, tipo nomes, idades. Enfim, eles chegam. Exclamações, abraços, sorrisos, emoções. Mas o quê exatamente me faz abraçar aquelas pessoas que não conheço, mas que me olham com olhar tão comovido? Sangue comum? Memórias de outrora? Mesmo sobrenome? Nada me responde. Conversamos, olhamos as fotos, revelamos os dados corriqueiros (profissão, número de filhos) conferimos os vivos, os mortos. Ao final trocamos telefones e endereços ( que certamente jamais serão utilizados), mais abraços e olhares sinceros. Simples assim. Saímos. Ao atravessar uma rua, meu primo segura minha mão - que deixo ficar - como há muito tempo quando, nas terras de nossa avó, íamos em direção à fazenda vizinha buscar leite. Volto. Da janela do 1001 o mundo escureceu e penso: os primos já existiam ou eu os criei naquele momento? Não sei. Só sei, como Drummond, que parece existir uma
“estranha idéia de família
viajando através da carne.”

Foto: The Begas Family. Carl the Elder Begas, 1821
Telma Miranda
Música sempre

Era uma casa no Engenho Novo. Uma Senhora, um cachorro manso e um piano esperavam por mim. Sempre às terças. Ainda menina, uns 12 anos, escorregava meus dedos no misterioso mundo preto e branco das teclas. Czerny, Bach, Chopin. Valsas, solfeggietos, lundus. Sons que povoavam minha imaginação romântica.
Um dia, a severa Senhora encontrou – entre os exercícios de Czerny – uma partitura de uma canção: “Preciso aprender a ser só”, de Marcos Valle. Uma verdadeira heresia, segundo ela. Estremeci. O busto de Beethoven e o metrônomo olhavam sérios para mim e eu, triste, sem saber o que era exatamente uma heresia, não reagi quando a partitura foi direcionada para o lixo. Mas o gesto não foi suficiente para me proteger das canções populares. Aos quinze veio o violão (presente inesperado de meu pai). Depois as rodas com os amigos, as composições ingênuas, os festivais de música em um clube na Tijuca, os encontros em Vila Isabel, as tardes na varanda, as noites nas escadas de um prédio no Grajaú.
Um dia me apaixonei, claro, e dele ganhei um “disco”. Que ouvi muitas vezes e - ainda não sabia - ouviria muitas outras, o resto da vida. E chorava. E mais chorava, mais gostava. Era o Adágio de Albinoni. A melodia me invadiu de tal forma, que os sentimentos de alegria, dor, tristeza, melancolia se mesclaram em apenas um: Beleza. E aí soube: eu existia. Em toda a minha plenitude. E a partir daquele momento compreendi que o mundo tinha uma melodia e que bastava ouvi-la para existir.


Telma Miranda
Caverna

Tô hibernando.
Mas não me aguardem.
Nem toda escuridão é grávida.

Nem toda luz indica
Nem todo homem nasce
Nem toda mulher se torna
Nem toda palavra se diz
Nem a dor é sempre redenção.
Nem o nada é suficiente.

Só um pouco.


Sem muita inspiração (ou vontade) de lidar com as letras, imaginei a caverna. Mas a idéia de hibernação parece conter em si mesma a possibilidade de saídas. Afinal, inverno, primavera, verão, outono e novamente inverno.
Um amigo, tentando "salvar-me", me diz que é preciso acender um fósforo. Mas como disse o grande poeta "um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo". Pois é. Resta rezar. Ou não. Ou exatamente o contrário: construir do barro, da terra, do nada, e mesmo assim (ou por isso mesmo) se achar (ou não).



NOTAS PARA UMA POÉTICA

Um poema se escreve sob granizo, ou nas frentes de inverno,
quando nos protegemos sob casamatas de zinco
Um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo
Um poema se escreve quando é preciso renascer das cinzas
- quando todos, para ganhar a vida, se tornaram zelosos funcionários da Morte
Um poema não se escreve com a razão
Um poema se escreve com as mãos
como quem reza
como quem toma nas mãos um punhado de terra.

Jayro José Xavier
Telma Miranda
HÄLFTE DES LEBENS

Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.

Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)


METADE DA VIDA


Pêras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

Tradução: Manuel Bandeira
Telma Miranda
Telma Miranda
Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.

Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.

Só depois aprendemos
a trilhar o labirinto;
mas como acordar os passos
nos pés há muito dormidos?

Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobre esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.

Ruy Espinheira Filho em Heléboro
Telma Miranda
Telma Miranda
A Rede fez 20 anos no último dia 13 de março. Mesmo ainda jovem, não há como negar seu imensurável poder, a ponto de podermos afirmar que existe uma geração já formada por ela. Ainda “criança”, a rede de relacionamentos Orkut, com apenas 5 anos de existência, também possui lá seu poderes, tendo alcançado um sucesso inimaginável, principalmente entre os jovens e as crianças (embora o acesso só seja "permitido" aos maiores de 18 anos).
Os meios eletrônicos estão presentes no cotidiano de todos nós e as crianças são as mais influenciadas e as que mais poderão ser beneficiadas e /ou prejudicadas e serão também, paradoxalmente, as que mais estarão aptas a intervir em todos esses novos meios de comunicação. Sabemos o quanto esses novos meios são fundamentais hoje, seja na escola (proporcionando novas experiências na elaboração e reelaboração dos saberes) seja em casa (possibilitando inúmeras formas de interação). Sabemos igualmente que a criança é movida pela curiosidade, pelo prazer, pela brincadeira – é a fase das experiências e descobertas. Entretanto, não podemos esquecer, a família é a primeira responsável pela formação e estruturação emocional-cognitivo-afetiva de suas crianças. Dessa formação dependerão os critérios que nortearão suas experiências. Alguns pais estão preocupados com esse novo universo e muitas vezes não sabem como lidar com isso. Na própria rede, há sites com listas disciplinares, com imperativos limitadores. É óbvio que todos os cuidados devem ser tomados – nem estou aqui minimizando a utilização das “listas”, se necessário for – mas insisto na necessidade de uma reflexão maior que englobe os relacionamentos de uma forma geral. Uma vez, quando sugeri a uma mãe que jogasse um determinado jogo junto com o filho, ela me disse: “Ah, não tenho paciência nem tempo para isso.” Para jogar ou para ficar junto ao filho?
O tempo parece não estar mais disponível (ou nós não estamos mais disponíveis para ele). A família já não é o espaço de intimidade, de troca, de conversas, de porto-seguro. Não estou aqui fazendo apologia nostálgica de nenhum modelo familiar. Só a constatação de uma realidade que insiste em se presentificar, principalmente na clínica. O que observamos, em muitas das atitudes dos pais, é uma ausência de qualquer postura crítica diante do mundo em geral (e obviamente diante do mundo virtual). Ora, como esse adulto, completamente à mercê dos discursos midiáticos e refém da ditadura das aparências, pode proteger e cuidar dos pequenos?
A internet é um universo ainda a ser explorado e é preciso refletir acerca das crianças que estão on-line. Mas creio que é preciso pensar além. Afinal, as crianças on-line não são só aquelas que estão plugadas na rede. São também aquelas que estão on-line com o seu tempo. Um tempo hostil em que são submetidas ao medo, à violência, à tirania do consumo, à necessidade de pertencimento, à impunidade diante das leis, ao esfacelamento das relações, à inocuidade das vivências escolares, à iniqüidade das ausências de afeto. Daí uma pergunta: o que acontece quando as crianças se desconectam da internet? A resposta pode ser uma chave para compreender o fascínio poderoso das redes de relacionamentos. Numa sociedade de consumo onde o sentido de pertencer está atrelado a ter (bens, informações, roupas, blogs, i-pods), onde o espaço da intimidade, do sentimento, das emoções? Na sociedade atual tudo é absolutamente descartável, inclusive as pessoas (basta um click e deleta-se um “amigo”) e a lógica que impera é a do mercado. Uma sociedade que oprime tanto os adultos quanto as crianças. Onde achar o acolhimento, o silêncio reconfortante, o abraço consolador, o olhar compreensivo, o gesto misericordioso?
Não sendo encontrado no mundo presencial, procuramos o reconhecimento no mundo virtual. Talvez seja esse um dos motivos do sucesso da rede de relacionamentos Orkut, pois nela criam-se perfis, escolhem-se comunidades, dando a sensação de pertencimento, tão necessária às crianças e aos jovens.
O Orkut é um espaço virtual, mas também um espaço público. E aí a questão: saberá a criança compreender essa diferença? Qualquer um pode ter acesso às informações postadas. Quem será “qualquer um” dentro do universo infantil? Tanto pode ser o conhecido como o estranho que tanto fascina. Como nos contos de fada (se assim não fosse, não existiria Lobo Mau), como nas esquinas da vida, como na vida a fora. Imaginamos que a criança, quando acessa esse site de relacionamentos, queira brincar, ser reconhecida, encontrar os seus 120 “amigos” (?!?), trocar “figurinhas”, pertencer a um grupo. É a fase da descoberta, da brincadeira, de vivência de novas experiências. E a cautela que devemos ter em relação ao Orkut, me parece, é a mesma para todas as áreas da vida – virtual ou não. O Orkut não é ruim nem bom "per se". A utilização dele - e de tantos outros sites - é que pode trazer conseqüências negativas ou positivas. A rede hoje é uma ferramenta didático-pedagógica importante. As facilidades, as trocas, as inúmeras possibilidades de interação devem ser exaltadas. Mas é preciso estarmos atentos à sua outra face, que pode ser fascinante mas perigosa. É como entrar no labirinto sem o fio de Ariadne. O risco, para todos, é enorme, mas no caso de nossos pequenos “brincantes” toda atenção é pouca. A viagem pelo labirinto pode ter duas conseqüências: a pior delas é perder-se. Ou achar-se em fragmentos. E, last but not least, a quem interessaria toda um geração fragmentada, descentrada e não-compromissada? Em época de excessos como essa em que vivemos (que possui como suporte toda uma teoria neo-liberal) é preciso estar atento e fazer escolhas sem a falsa idéia de liberdade que a mídia nos “vende”. Equilíbrio afetivo, consciência crítica e prudência – talvez aí esteja a receita para enfrentar esses novos tempos.
Telma Miranda
Nos "verdes" anos, no meio do turbilhão de adolescer, a poesia pode ser uma espécie de um outro que te entende, que diz o que vc sente, que te faz chorar, que te consola, principalmente quando o grande amor da sua vida passa por vc e nem percebe a sua existência.
Os primeiros sonetos são nossos primeiros amigos na solidão. A gente os conhece, decora, copia e os leva consigo muitas vezes durante muito tempo: um amigo fiel, que se faz presente, sempre que necessário. Assim aconteceu com "Dualidade" de J.G. Araújo Jorge, "Sete anos de pastor Jacó servia" de Camões e o soneto "estrelado" da Via-Láctea de Bilac - que eram copiados, no caderno de versos, ilustrados e adornados com os famigerados "decalques" (hoje seriam "stickers") de flores. Embora ainda "verdes", ousamos pensar que já podemos produzir frutos e aí surgem os primeiros versos. Estes também anotados com todo o capricho, em caderno especial, com canetas coloridas, sem rasuras nem arranhões. Macios e monótonos - variações sobre o mesmo tema. Mais tarde, os amigos sonetos ficam de lado, escondidos num tempo, amarelando. Não mais os encontros solitários entre olhos e palavras. Entretanto, nas primeiras ( e depois inúmeras) desilusões necessárias, são os sonetos que nos acolhem em sua musicalidade, nos fazem companhia, como outrora, e, numa nova leitura, surpreendentemente nos invade a sensação de que tudo, absolutamente tudo, pode começar de novo.

1. Dualidade

Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!

J. G. de Araujo Jorge

2.
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa a servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís de Camões

3.
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora; "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac
XXV
Telma Miranda
Solta no espaço vivo, onde me leva
minha meditação? É suficiente
o desenho das coisas
nítido e limpo aos olhos?

O que antes me bastava não me basta
mais? que procuro? a ponto de nem ver
o visível, matéria
silenciosa que vive,

e porque vive não é só matéria,
e volta um dia ao nada inteiro e vivo,
ao nada que é um ventre
(não um vazio) ativo.

Chega ao nada ultrapassando tudo.
Tudo o que compreendo ainda tem forma,
e portanto depende
de um dos modos de ver.

Mas se ultrapasso não entendo mais:
vermelhas flores, campos, rios, árvores,
são formas de uma ausência
absoluta de forma?

São formas aparentes do Real?
O real é o invisível do visível?
a distância que vai
do que sei ao que sou.

Marly de Oliveira in "A Vida Natural"