Telma Miranda
"As coisas que não levam a nada
tem grande importância.
Cada coisa ordinária é um elemento de estima."
Manoel de Barros


Quem nunca guardou um pétala de flor recebida do namorado na agenda? Ou um bilhetinho da melhor amiga dizendo que a amizade era para sempre? Ou uma embalagem de um bombom, um postal ou mesmo umas conchinhas catadas naquela tarde? Coisas insignificantes que significam tanto! Costumava também guardar esses objetos com carinho, como se cada um deles pudesse me devolver, em algum outro momento da vida, a emoção sentida. Como a personagem do filme mexicano "Coisas insignificantes", também me apegava a essas pequenas-grandes insignificantes coisas. Entretanto, no filme, as "coisas insignificantes" adormecidas na pequena caixa de Esmeralda possuem um valor diverso.


Esmeralda é uma adolescente tímida, silenciosa, que resgata objetos esquecidos e os coloca em uma pequena caixa. Não os compreende, muito menos percebe a importância deles. Apenas acaricia os objetos como se, com esse gesto, pudesse resgatar um vínculo afetivo perdido. Eles não lhe pertencem, nem trazem nenhuma recordação vivida. Abandonadas e posteriormente recolhidas por Esmeralda, as coisas "insignificantes" adormecem na caixa, "significando" algo ainda por nascer. Tais objetos, de alguma forma, se relacionam com gestos de amor inconclusos, incompreendidos, e que quedaram inúteis em sua intenção. Foram "criados" em momentos onde a palavra não foi possível, embora as pessoas, ainda assim, acreditassem que, através deles, pudessem comunicar suas emoções. Os pequenos objetos "insignificantes" adormecidos dentro do baú de Esmeralda não pertencem a ninguém. Apenas resistem, na esperança de cumprirem seu papel: "dizer" um afeto. Cada um deles remete a uma história, na qual há fundamentalmente uma impossibilidade de amar. Ou talvez uma enorme dificuldade de expressar esse amor. O que dá no mesmo. Os objetos representam tanto "a ausência da comunicação como a sua possibilidade".

A silente menina se torna guardiã da caixa, já repleta de segredos, silêncios, gritos: tantas mensagens de amor que não chegaram a seu destino. Até o dia em que, ao valorizar seus próprios laços afetivos, Esmeralda percebe que não precisa mais dos objetos alheios, pois descobre em si a possibilidade de efetivamente amar. Abandona a caixa, se aproxima da irmã e compartilha um momento de delírio da avó, acreditando agora que é possível conceber um outro mundo, um mundo de afetos compartilhados.
Telma Miranda

Diogo Macedo, escultor português (1889/1959)



Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

Fernando Pessoa (1888/1935)
Telma Miranda

"O homem (se) constrói o mito da perfeição pela dificuldade de aceitar a inerente imperfeição e incompletude dos atos da vida. Quanto mais o ser humano se ausculte, será para defrontar-se com a impossibilidade de alguma solução pacificadora, permanente, perfeita e acabada. Somos um fazer-se sem descanso. Só temos paz nos raros momentos em que acertamos ou intuímos a existência de uma plenitude cuja percepção escapa, logo depois de alcançada.
Os casos de amor vivem rondados por frustração ou arrependimento. Não o amor. Este é íntegro, irrefutável, cristalino, pleno e indubitável; mas os amantes, seus precários portadores. Quase sempre o tamanho do amor é maior que o dos amantes. As pessoas têm mais amor do que podem. Daí o fardo pesado que é carregar a chance de felicidade.
O amor é pleno mas cada amante vive envolto numa teia de limitações. Sobrevém a eterna disjuntiva: frustração ou arrependimento. Entregar-se a um amor é abandonar outros. Optar é renunciar. E, do que se renuncia e abandona, pode provir, depois, arrependimento. Afastar-se de um amor, ainda que por lúcidas razões, pode gerar, adiante, a frustração pelo que se deixou de viver.
Arrependimento e frustração são, pois, duas ameaças inevitáveis para amantes que se descobrem viáveis em pele, olho, poesia e suspiro, na mesma medida em que se sabem cercados de repressões, compromissos, impossibilidades ou, então , exorbitantes preços existenciais a pagar pela meia felicidade.
Viver implica essa dolorosa tarefa (suplício e enigma): a de integrar esses pedaços opostos, incorporando dificuldades, vivenciando a eterna imperfeição de tudo. Viver é descobrir-se inocente e virgem quando já se considerava pronto, vivido, definido e auto-suficiente. Somos fadados a ser pessoas sempre nalgum limiar. Quanto mais conhecimento e vivência, novos limiares.
O sofrimento do homem deriva dessa estranha divisão de sua alma: ele precisa de nitidez, de encaixes perfeitos, de caminhos retos, mas só lhe é dado viver situações provisórias e incertas, sinuosos pedaços de retidão, o que o leva a manifestar até pela mentira as suas mais fundas verdades.
O amor, porém (não os amantes), rompe esse exercício de sofrimento pois liga o homem a uma finalidade. Por isso o amor permite o sabor-saber, fugidio e delicioso, de algo pleno, sempre fora e além de nós, mas vivido em nós (por isso o enigma), uma certeza adivinhada (e breve vivida) de plenitudes impossíveis aqui.
O amor traz a certeza secreta de uma instância de paz, plenitude e perfeição da qual a vida é um aprendizado, por isso incompleta e inacabada, provisória e sempre em busca. O amor é o filme, mas a vida e os amantes são o trailer de um filme que se intui possível, porém nunca alguém o verá.
O amor é pleno mas os amantes precários, impossíveis, atrapalhados por eles mesmos e suas opções sempre "certo/erradas".
No amor, a todo certo ideal corresponde algum erro real de exercício. Por isso, quem ama vive a misturar pedaços de verdades pela impossibilidade de viver a totalidade. Aqui residem o suplício e o enigma de viver: o amor é total, pleno, mas a vida de quem ama é feita de pedaços, de renúncias ou arrependimentos, de impossibilidades ou carências. Aceitar o enigma sem o deslindar é aprender a viver: é amadurecer. E exige trabalho interior penoso, grandeza, equilíbrio e autoconhecimento.
Somos um todo fragmentado que para se recompor e harmonizar precisa viver as divisões, os sofrimentos e os açoites das mentiras que conduzem às nossas verdades mais profundas. Viver em plenitude todos os pólos de que somos compostos, eis a ressurreição em vida. O amor, em sua qualidade de rio de muitas vertentes, ajuda e ilumina esse processo de autodesconhecimento permanente que é a única forma de autoconhecer-se. Por isso o amor é um estranhamento; e ao vivê-lo, os amantes atrapalham-se, atropelando-o."

Artur da Távola (1936-2008)