Telma Miranda
Um acontecimento marcante da minha formação foi quando, no início da adolescência, participei de um grupo de jovens de uma paróquia em um subúrbio do Rio. Principalmente quando alguns componentes do grupo decidiram se insurgir contra as atitudes autoritárias e pouco cristãs do pároco. Criamos então um grupo independente e nos reuníamos inicialmente no porão da igreja e depois na casa de um dos participantes. Era início dos anos 70. Tocávamos violão, cantávamos em um coral, jogávamos War e líamos. Havia uma espécie de biblioteca ambulante. Eu era a "mascote" do grupo, pois era realmente muito mais jovem do que os outros participantes. Daí que, muito cuidadosos, eles me proibiram de ler dois livros que constavam da lista. Um de Jorge Amado (não era linguagem apropriada para uma menina) e outro de Herman Hesse de que, diziam, eu não compreenderia nada. Óbvio que peguei os dois e os li escondidos. "Tereza Batista" não chegou a me impressionar, mas ler "O Lobo da Estepe" foi uma experiência e tanto. Claro que não entendi nada, mas lembro que a experiência da leitura foi muito marcante. Bom, e o que seria um experiência marcante de leitura se não se entende nada?

Vez por outra me faço essa mesma pergunta. Leio poemas que muitas vezes não compreendo e mesmo assim às vezes gosto, às vezes não. E sei que muitas pessoas passam por essa espécie de "desconforto" e dizem apenas "nossa, que lindo!" no lugar de "nossa, não entendi nada". Em uma entrevista publicada no caderno Prosa e Verso (do jornal O Globo), em junho desse ano, por ocasião da FLIP, a poeta escocesa Carol Ann-Duffy diz não se interessar muito quando dizem que seus poemas são "acessíveis" (seja lá o que isso quer dizer). Diz ela: "Um bom poema deve ser acessível na superfície, mas ter algo mais por debaixo, de modo que ele talvez não seja o que parece." Sem dúvida. Aliás, o poema seu publicado no mesmo jornal não deixa nenhuma dúvida sobre a sua assertiva. *

Há poemas assim: entra-se aos poucos nele, ele cresce dentro da gente, e puff! se instala por completo, inteiro, unindo no mesmo flash o não-entendimento e uma compreensão absoluta.
Há aqueles que entendemos "de cara" e depois, oh, céus, vemos que havia muito mais e que há, na verdade, vários outros "entendimentos".
Há aqueles tão herméticos que só um outro poeta pra entender (às vezes nem isso...)
Há aqueles que passam e quase não sentimos, há aqueles que se mudam pra dentro da gente, há aqueles que nos deixam mudos, outros que nos instigam a falar deles.
Há uns que são bons pra ler em voz alta, outros, só na solidão mais absoluta.

Recortei de um jornal antigo (que espero seja deste século, senão, imaginem, guardar jornal do século passado!!!) poesias que, lembro-me bem, me deixavam meio intrigada na época. Primeiro, era mesmo poesia? Segundo, que diacho quer ela dizer com isso? Mas lembro também que ficava, mesmo sem entender, paralisada/mobilizada/extasiada. ** Será que eu era mais jovem e, mesmo não tendo os treze de quando da leitura de Hesse, ainda podia sentir essa estranha sensação? Talvez tenha sido a mesma sensação como a que descreveu Stephen Greenblatt (ah, essa entrevista, ao contrário, é recentíssima: sábado 03/12/2001 no Prosa e Verso) sobre sua experiência de ter lido "O processo" de Kafka e não ter entendido absolutamente nada. "Não compreendi as relações entre os personagens, não entendi por que o homem cometeu suicídio no final da história, nada fazia sentido pra mim. Fechei o livro, e me lembro de momentos depois sentir um incrível...não posso realmente explicar, não tenho as palavras certas para isso. Mas foi algo como se alguém tivesse tangido com força uma corda dentro de mim. Isso não aconteceu porque eu entendi, mas porque eu não entendi".

Ah....
Entendi!




* Faço a transcrição do poema de Carol Ann-Duffy em inglês pois ainda não há tradução:

Cold

It felt so cold, the snowball which wept in my hands,
and when I rolled it along in the snow, it grew
till I could sit on it, looking back at the house,
where it was cold when I woke in my room, the windows
blind with ice, my breath undressing itself on the air.
Cold, too, embracing the torso of snow which I lifted up
in my arms to build a snowman, my toes, burning, cold
in my winter boots; my mother's voice calling me in
from the cold. And her hands were cold from peeling
then dipping potatoes into a bowl, stopping to cup
her daughter's face, a kiss for both cold cheeks, my cold nose.
But nothing so cold as the February night I opened the door
in the Chapel of Rest where my mother lay, neither young, nor old,
where my lips, returning her kiss to her brow, knew the meaning of cold.


** Aí vão três "experiências" colhidas da Folha de São Paulo. Há muito tempo. São de Ledusha Spinardi:

1.
Sustenidos e Bemóis

Bela bélica e babélica Ofé-
lia à beira do lago. Lima a lín-
gua em labaredas seca para
serrar até o sono dos sapos.
Gelada de mato e garoa a
ninfa espia da moita. Ofélia
freme. Mastiga palavras mal
ditas. Enquanto abana faís-
cas frésias salpicam-lhe a fa-
ce. Alfa, a ninfa, senta-se aos
pés da outra. Garças alvas
pinçam poças, lentas nas
pernas flébeis. As duas mi-
ram. Olhos de lágrimas fá-
ceis. Uma ais outra ohs: sus-
tenidos e bemóis. Suspiros
em róseo uníssono pertur-
bam girassóis.

2.
Bálsamos urbanos

Meus olhos derrapam no
sorriso implícito. Água que
aflora fria da pedra e lambe a
pele salgada, jorro vigoroso
de vinho fresco na sede sen-
sual da alma e do corpo. Su-
bo essa escada rolante às
mesmas 18h17. O tumulto
dos passos no granito em
torno soa como Debussy aos
meus ouvidos. A pálida pos-
sibilidade de que tudo se re-
pita faz crepitar meu umbi-
go. Metida na polpa sucu-
lenta da vida, atenta a certos
encantamentos que na cida-
de surrada pela urgência e
pelo excesso escasseiam, sa-
boreio os respingos incertos
da felicidade.

3.
Terra à vista

Na solitude líquida do
mergulho, acidentes de per-
curso, escalas involuntárias
nos esqueletos dos cascos de
navios esquecidos, silêncio
turvo povoado de sombras e
ímãs. Olhos arregalados na
dança intraduzível. Depois
dos muitos sustos, do des-
conforto limboso nos pés,
feixes intermitentes de luz
sinalizaram a existência ple-
na da superfície. Na esme-
ralda de sonho e algas dei-
xou a lua submersa aos ui-
vos. Tateando a substância
renovada que a envolvia, po-
de sentir a cauda ondulante,
tecida em finos fios, conchas
e sílabas. Lambeu a leda lá-
grima da água e lançou o te-
souro da juventude aos pei-
xes.
Telma Miranda
Um jovem amigo (muito jovem, adolescente ainda) me perguntou um dia como escrever uma crônica. Dei-lhe uma resposta nada original: observe uma borboleta ( não precisa ser a famosa borboleta amarela do Braga) e depois escreva sobre o acontecido: a borboleta, o dia, seus pensamentos, suas sensações. Simples assim? Bom (pensei em refutar, dissertar, explicar, mas desisti)... é... simples assim.

Revendo jornais antigos, encontro uma crônica de Luis Fernando Veríssimo intitulada "Crônica:definições". Com seu humor habitual, ele faz uma distinção - quanto à qualidade da crônica - entre:
a) crônica; b) croniqueta; c) cronicão; d) cronicaço.
Cronicaço é a grande crônica, aquela que consagra seu autor, diz Veríssimo. Já cronicão é a crônica grande, "tem até ponto e vírgula e citação do Montaigne". A crônica é "qualquer crônica, ou uma crônica qualquer". Vamos à croniqueta. Diz ele:

Croniqueta não é o nome científico da crônica curta, como pode parecer. É uma crônica inconsequente, geralmente sobre coisa nenhuma, escrita com desinteresse para ser lida com pouco caso e cara de nojo. Se muita gente recorta crônicas do jornal para guardar, muitos recortam, cuidadosamente, a croniqueta para atirar no chão e pular em cima, gritando argkght!

Considerações. Primeiro, se guardei essa crônica do Veríssimo ( e nada de argkght!) é porque não a considerei inconsequente. Eis aqui o resultado (tudo bem, tudo bem; se o resultado não é tão bom, a culpa é minha e não do objeto inspirador). Segundo, se essa minha croniqueta for lida, espero que seja salva pelo menos em consideração às referências que faço ao grande cronista (também porque vai ser mais complicado pular em cima da tela do computador). Terceiro, gostaria de acrescentar outra categoria: a croniquinha. Que não quer dizer que seja curta, nem completamente inútil. O diminutivo indicaria o lado afetivo de, por exemplo, achar um recorte de um jornal antigo, ler com prazer e escrever sobre os pensamentos e sensações decorridas da leitura. Tudo bem, tudo bem. Sei que não é simples assim. Mas pode ser. Pelo menos para uma croniquinha. Que nem esta.
Telma Miranda
Todos nós temos nossas manias. Tenho algumas. (Vamos lá, confesse!). Tenho várias. (Agora que confessei, não consigo me lembrar de mais de duas). Tenho algumas. Uma delas é guardar jornais para ler depois. Sempre acreditamos em um "depois" (idealizado, claro) como sendo mais propício: com mais tempo, mais chuva, mais tranquilidade. E sempre nos surpreendemos quando o idealizado não acontece. Condição humana.

Enfim, humanamente maníaca, guardava-os em um canto. E os jornais se acumularam, entulhando-me. Um dia de dezembro dou-me (a) conta do acontecido. Diante da "barata" (não literalmente, por favor, que não tenho sucos gástricos lispectorianos), paralisei-me. E agora? Jogo tudo fora e me orgulho de mim mesma por tal ato inesperado e heróico? Ou dou ainda uma "olhadinha" e guardo "apenas" o que ainda possa ter algum "interesse"?

Já adivinharam a resposta. Certamente não estaria aqui (des)escrevendo minha "vitória" e, sim, escrevendo para.... (Umberto Eco disse em uma entrevista no Caderno Mais, Folha de São Paulo em 11 de maio de 2008 que ele continua escrevendo porque.... ih.... esse se foi ...) dar continuidade e substância à minha mania. Mas, caríssimos, tenho que confessar (de novo?) que o prazer é enorme. E em dobro. Explico. Primeiro prazer é o de fazer acontecer "o" dia ideal. Sábado, chuvinha inesperada e temperatura amena mais inesperada ainda em dias de dezembro, ouvindo "Desert Rose" de Sting, mergulho minhas mãos entre os papéis-jornais. Abaixo o volume. Leio (achei! Umberto Eco!):

Não acredito na felicidade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo - sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram 10 segundos ou meia hora. (...) Existem momentos de felicidade quando vc consegue expressar alguma coisa que o deixa contente. (...) Acredito ainda que a vida serve apenas para recordar nossa própria infância. Cada momento em que consigo me recordar bem de um instante de minha infância é um momento de felicidade, mas isso não quer dizer que os momentos de minha infância tenham sido momentos de felicidade. A infância e a adolescência são períodos muito tristes. (...) Algo de muito bonito que ocorre ao envelhecermos é que nos recordamos de um multidão de coisas da infância que tinham sido esquecidas. (...) Por isso, vou ao encontro de minha velhice com muito otimismo, porque, quanto mais envelheço, mais recordações tenho de minha infância.

E eis meu segundo grande momento de prazer: perceber a felicidade nos poucos segundos dessa leitura. E não importa se concordo ou não com o depoimento, se foi escrito em 2008 ou 2010, se foi de Umberto ou Borges. A felicidade, quase não a sinto mais, foi do acontecimento em si: a música, o vento entrando pela janela, o contato com o papel-jornal, a pausa, nova música ("Fragile" ainda com Sting), e o cheiro da dama-da-noite que insiste em tanto florir nessa manhã de fim de primavera.

Momentos memoráveis. E de repente o que era passado se torna presente e o presente se enche de um passado tão vivo. Daí que as lembranças evocadas pelos jornais antigos podem se tornar tão doces "presentes"...


PS:
1.Em entrevista publicada no caderno Prosa e Verso do Jornal O Globo - 31 de janeiro de 2009 - uma pianista chinesa afirma que há humor na música de Bach, principalmente nas "Variações Goldberg". Na décima e décima oitava. A conferir.
2. É possível que o título dessa postagem se torne um "marcador" e aí teremos outras "croniquinhas" acerca de "Jornais Antigos". Ou não.
3. Se houver a próxima, será exatamente sobre "Crônica:definições" - texto de Veríssimo publicado em.... sei lá, só sei que foi em uma revista de um jornal já extinto. Ui!
4. Me apaixonei (de novo) pelo Sting.
Telma Miranda
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa (1924)



"For the love of God", com Steve Vai:

Telma Miranda

Qualquer música


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música – guitarra,
Viola, harmônio, realejo…
Um canto que se desgarra…
Um sonho em que nada vejo…

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida…
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa



Telma Miranda
Heráclito

Não só o rosto de Teresa,
Teresa inteira e este arcebispo,
o fragmento do asteróide
Franz Kafka, tudo é irrepetível,

e a cada ano a Terra, doente,
circunda um sol bem diferente;

não há, pois, um plágio perfeito
desse vento vindo do nada
a erodir o chão dos eleitos;

e eis o castigo original:
ser impossível ser igual.

Alberto da Cunha Melo (1942-2007)
Telma Miranda
In primavera le piante e le passioni si risvegliano.

Na primavera, as plantas e as paixões despertam.



Minerva and the nine muses - Hendrick van Balen (1575-1632)




Spring Song - Félix Mendelssohn (1809-1847)
Telma Miranda



Vivendo


Contro il vetro

il disegno di un respiro

- prima e dopo, invisibile.


Vivendo

Contra o vidro

o desenho de uma respiração

- antes e depois, invisível.


Donatella Bisutti

Telma Miranda
VERRÀ LA MORTE E AVRÀ I TUOI OCCHI

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Così li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.
Per tutti la morte ha uno sguardo.

Verrá la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello specchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.





Virá a morte e terá teus olhos.
A mesma morte que, de manhã à noite,
nos acompanha, insone e surda,
como um velho remorso
como um vício absurdo.
Teus olhos são palavras vãs,
grito contido, silêncio.
Os mesmos olhos que, a cada manhã,
vês refletidos no espelho, quando te inclinas sobre ti mesma.
Ó cara esperança!
Neste dia saberemos que és vida e és nada.

Para cada um, a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá teus olhos.
E então será
como abandonar um vício
como ver no espelho refletido o rosto desfeito
como ouvir o som de lábios cerrados.
E desceremos ao abismo. Mudos.

(Tradução Telma Miranda)

Cesare Pavese, poeta italiano, nasceu em 9 de setembro de 1908. Este poema - dedicado a Constance Dowling, atriz americana por quem se apaixonara - foi escrito em 1950, depois do término do relacionamento e um pouco antes de se suicidar em um quarto de hotel. É dele a seguinte frase:

"Non ci si uccide per amore di una donna. Ci si uccide perché un amore, qualunque amore, ci rivela nella nostra nudità, miseria, inanità, nulla".

"Ninguém se mata por amor a uma mulher e sim porque o amor - qualquer amor - nos revela nossa nudez, nossa miséria, nossa vulnerabilidade, nosso vazio."



Telma Miranda
A promessa da Web era sobretudo política: qualquer um poderia ter acesso às informações expandindo assim conhecimentos, fazendo escolhas e, principalmente, construindo um novo tipo de existência: mais livre e democrática. Entretanto, as empresas da Web passaram a nos servir "a la carte" com gosto enganoso de "self-service". Ou seja, pensamos que escolhemos, mas há uma escolha prévia. E, paradoxalmente, esse "cardápio" se baseia não em uma ideologia a priori, mas a partir de nossos desejos. Sabemos, todos, que o poder espreita nossos desejos. E assim somos servidos sob medida. Sem perceber, caímos em uma cilada: a filter bubble. "Filtros-bolha". E aí reside o perigo de sempre, como também a possibilidade de sempre resistir.



Telma Miranda

Morada


Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos
nas nossas pequenas razões. Estas ruas
ainda prometem mais do que podem cumprir?
A breve epifania do amor ou simplesmente
um cúmplice que nos diga, à mesa de um café,
que não faz mal, que pouco importam
as perdas e danos que sofremos.

De qualquer modo o mundo continua.

Entre o medo e a esperança
procuramos a nossa incerta morada
e enquanto isso envelhecemos mais um dia,
colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças,
nos quintais, a noite aparece depois do jantar
cheia de boas promessas, mas já vem condenada
ao tropel dos crentes, ao cego movimento da manhã.



A nossa vez


É o frio que nos tolhe ao domingo

no Inverno, quando mais rareia

a esperança. São certas fixações

da consciência, coisas que andam

pela casa à procura de um lugar


e entram clandestinas no poema.

São os envelopes da companhia

da água, a faca suja de manteiga

na toalha, esse trilho que deixamos

atrás de nós e se decifra sem esforço

nem proveito. É a espera


e a demora. São as ruas sossegadas

à hora do telejornal e os talheres

da vizinhança a retinir. É a deriva

nocturna da memória: é o medo

de termos perdido sem querer


a nossa vez.


Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Lisboa: Averno, 2005

Telma Miranda
Primeira Elegia

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face - a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos - talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

(...)

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. - Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações - que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

Elegias de Duíno - Rilke (1875-1926)

Para Professora Elsa Savino, que compartilhava seu amor pela poesia.
Grazie per tutto.



Telma Miranda






ESPANTA-ESPÍRITOS

Amanhã tudo será pior
ainda, eu sei: o hábito, a inércia,
o sem remédio da vida - tão pouco
haverá a salvar.

Por toda a cidade os desconhecidos
subirão outro degrau para o escuro
da noite, e a memória será talvez
um remorso:

aquela manhã de sol
na varanda, o espanta-espíritos
com peixes de alumínio num rosário
de contas profanas.

Ainda o tens? Ainda canta,
de madrugada, se o vento sopra
do mar?

Não importa. Foi sempre de menos
o muito que pedimos

e a parte que tivemos.

Rui Pires Cabral (Portugal - 1967)










É FAVOR FECHAR A PORTA

Descer a rua numa noite de Agosto
e por momentos nada ouvir senão
uma voz na cabeça que faz e repete
o poema mais desnecessário;

ver por toda a parte os sinais
perdidos e as cicatrizes dum fortuito
trânsito: alguém insiste em abrir
ao perigo a porta do número 133,
enquanto os rapazes do café vizinho
fumam sob o toldo à hora do fecho
e invadem o verso com uma frase
avulsa: coitado, morreu-lhe a filha;

tomar à esquina o táxi onde espera
um homem sem rosto, seguir
essa estrada - para um recomeço
ou uma despedida? - e entender
de súbito que tudo é por acaso,
não ter a ilusão doutra certeza.

Rui Pires Cabral (Portugal - 1967)




Telma Miranda
Telma Miranda





Telma Miranda



PIDO SILENCIO

AHORA me dejen tranquilo.
Ahora se acostumbren sin mí.

Yo voy a cerrar los ojos

Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raices preferidas.

Una es el amor sin fin.

Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.

Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé, la caricia
del fuego en el frío silvestre.

En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía.

La quinta cosa son tus ojos,
Matilde mía, bienamada,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.

Amigos, eso es cuanto quiero.
Es casi nada y casi todo.

(...)

Pablo Neruda (1904-1973)

Telma Miranda






"No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar
E andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir teu calor
E ser tudo"

Beto Guedes e Ronaldo Bastos
Telma Miranda
Telma Miranda


Telma Miranda
"Don't worry about a thing
Every little thing is gonna be all right"





Together we continue to connect the world through music
Telma Miranda




Rio
As pedras pulsam na manhã grená
Frio
Vejo arrepios na pele azul crepom do mar
As folhas caem no Jardim de Alá
Ah! Por que, no outono, o coração dói mais?

Rio
O verde vibra na manhã lilás
Frio
Copacabana é um cartão postal vazio
E o batimento das marés é blues
jazz

O sol enfeita a zona sul
de luz
em vão, em paz

Pardais passeiam sobre o Vidigal em paz
Flamingos flanam na Rocinha em paz
O Rio de maio acorda quase em paz
Bem perto de mim
Dois sabiás se amam, perto de mim
Adolescentes beijam, perto de mim

Ai que saudade de você e de mim
Os beijos de amor na tarde sem fim
Se fosse um filme a nossa vida era assim:
Um beijo imenso e o mar cantando Jobim
O grande amor se reprisando a vida inteira

Tom
As pedras pulsam na manhã grená
Frio
Vejo arrepios na pele azul crepom do mar
As folhas caem no Jardim de Alá
Ah! O outono faz o coração doer demais...

Ivan Lins
Telma Miranda


The evening
Caspar David Friedrich (Alemanha, 1774-1840)


Im Herbst

1. Ernst ist der Herbst, und wenn die Blätter fallen,
sinkt auch das Herz zu trübem Weh herab.
Still ist die Flur, und nach dem Süden wallen
die Sänger stumm, wie nach dem Grab.

2. Bleich ist de Tag, und blasse Nebel
schleiern die Sonne wie die Herzen ein.
Früh kommt die Nacht: denn alle Kräfte feiern,
und tief verschlossen ruht das Sein.

3. Sanft wird der Mensch. Er sieht die Sonne sinken,
er ahnt des Lebens wie des Jahres Schluss.
Feucht wird das Aug', doch in der Träne Blinken
entströmt des Herzens seligster Erguss.


Klaus Groth (Alemanha, 1819-1899)





Im Herbst
Johannes Brahms (Alemanha, 1833-1897)



Outono

1. Sério é o outono, e quando as folhas caem,
também o coração mergulha em obscura dor.
Silêncio há no campo, e para o sul peregrinam
cantores mudos, como ao túmulo.

2. Pálido está o dia, e neblina esbranquiçada
envolve o sol bem como os corações.
A noite chega breve: folgam todas as forças,
e o ser repousa em silêncio profundo.

3. Suave se torna o homem. Vê como o sol se põe,
pressente o fim da vida como do ano o fim.
Seu olho umedece, porém no reluzir da lágrima
escapa feliz desabafo do coração.

(http://www.dhbyte.com.br/ccantorum/TraduBrahms_Herbst.pdf)
Telma Miranda



Os dias nunca mais serão os mesmos em Realengo. A vida se desfez. Faltam peças fundamentais no quebra-cabeça e, por isso, já não há sentido. A dor é tamanha que ecoa dentro de todos nós. Como fazer para recuperar os dias? Não há como. Nunca mais a vida será a mesma. As peças continuarão ausentes e o mundo queda em um silêncio/grito mortal. Quase impossível lidar com as perdas, os absurdos, o não-entendimento. Neste momento só cabe a dor de tudo sentir e nada compreender. E a cada dia, mais dor parece advir e quanto maior a dor, menos se torna possível entender. Mas justamente neste momento é preciso não adoecer e sim adolescer. Sem dúvida, é preciso ser Karine ou Larissa e imaginar uma nova vida a partir da presença de suas ausências. Uma vida diferente, sim, muito diferente do que se imaginava. Por isso mesmo, imaginar é preciso. Sonhar, como elas, um mundo possível. E aí um dia - de sol ou de chuva -, diante de um mundo sem sentido, poder reunir os fragmentos e inventar um novo desenho, novos rumos. Como só a adolescência é capaz.
Telma Miranda
Telma Miranda

Jiri Kolar (Praga, 1914-2002)


DIA DE OUTONO

Senhor: é tempo. O verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.

Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda dois dias mais meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será,
fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.

Rainer Maria Rilke (Praga, 1875-1926)
Tradução: Paulo Quintela





Antonín Dvorak (Praga,1841-1904)

Concerto para violoncelo e orquestra (1º movimento)
Telma Miranda




É URGENTE O AMOR

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugenio de Andrade (Portugal, 1923-2005)


Telma Miranda
POR QUÊ?

Desejo de fugir para uma região impossível que não existe,
onde a paisagem fosse tão triste que nos desse vontade de não viver mais.
Meu coração pesado,
minha boca tão fria.
Por quê tantos olhos cheios de tantas lágrimas?
Por quê tantas palavras e tantos gestos?
Por quê este sol tão vivo,
este sol, meu Deus, e este sorriso,
este sorriso que é dela e que está dizendo,
dizendo agora, como sempre,
que a vida é bela, que a vida é bela?


Emílio Moura (1902-1971)
Telma Miranda
ELEGIA

Somos os grandes solitários,
corpos na noite, vozes sem sentido.
A qualquer hora, a mesma sombra
cai sobre nós.

Podes falar, ninguém te ouve.
Noite tão noite, nunca se viu.
Cada soluço, que vem de longe,
chega (mas, de onde? ninguém sabe),
como se fora o teu soluço
que vem de longe.

Somos os grandes solitários.
Só a morte cresce em nós e deita raízes em nosso espírito.

Corpos na sombra, vozes sem sentido,
mudos erramos sem destino.

E, a qualquer hora, a mesma sombra
cai sobre nós.

Emílio Moura (1902-1971)
Telma Miranda

Symphony n 5 (Adagietto) de Gustav Mahler (1860-1911)
Telma Miranda

Juan Gris (Madrid, 1887 — 1927)



VIOLÕES QUE CHORAM...


Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

(...)

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

(...)

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

(...)

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

(...)

Cruz e Souza (Santa Catarina,1861-1898)






"Tango Suite" de Astor Piazzola (Argentina, 1921-1992). Duo Assad.
Telma Miranda
AVE VIÚVA POUSADA





Ave viúva pousada
Chorando por seu amado
Sobre um ramo regelado

Acima o vento gelado
Se arrasta sobre o riacho
a congelar-se lá abaixo

Folha alguma, a floresta, recobria
Sobre o solo nenhuma flor subia

E pouco movimento lá no ar
só a roda de moinho a soar.



Percy B. Shelley (1792/1822)
Telma Miranda


Todo início de ano é assim: tudo é novo e tudo se repete. Ansiamos pelo novo ou insistimos em projetos não realizados, sempre na expectativa de que boas novas acontecerão. No fundo, a grande interrogação humana: temos, afinal, um destino? As opiniões, óbvio, são várias e variam de acordo com a fé, ideologia, filosofia de cada um. Sabemos, todos nós, que não há resposta. Cada um acredita na sua versão: é apenas uma questão de fé. Daí a encruzilhada: tenho desejo, exerço minha vontade, faço acontecer ou há algo mais que desconheço e que estranhamente sinto que concorre não a meu favor? É exatamente este o ponto crucial de nosso sofrimento: como não podemos saber, o que mais desejamos é justamente saber. Saber o futuro, o que nos espera. Saber, enfim, o tal destino.
Muitos filósofos, teólogos, poetas já se debruçaram sobre esse assunto. O poeta Emílio Moura, em seu poema intitulado "Interrogação", nos revela uma bela imagem. Vejamos:




INTERROGAÇÃO

Sozinho, sozinho, perdido na bruma.
Há vozes aflitas que sobem, que sobem.
Mas, sob a rajada ainda há barcos com velas
e há faróis que ninguém sabe de que terras são.

- Senhor, são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco?
Eu tenho as mãos cansadas
e o barco voa dentro da noite.



Aí temos o homem, sozinho, perdido na bruma, na "noite", com uma pergunta e sem resposta. É o quadro da nossa condição humana: somos absolutamente sós, perdidos, buscando compreender a vida, a morte. Podemos entender as ondas como o destino, o imponderável, o que nos cerca e que não podemos controlar. Seriam as ondas que dirigem o barco? Ou seriam os remos - as minhas mãos, o meu trabalho, os meus esforços, a minha responsabilidade, as minhas escolhas - que me levariam em segurança para a praia? Não sabemos. Nunca saberemos. Na dúvida, usemos os remos.