Telma Miranda
Outro ano agoniza diante da boca do tempo... assim começava um longo e-mail que recebi de um amigo. Uma bela imagem do rito de passagem de ano. Sabemos que as práticas ritualísticas estão normalmente associadas às representações da morte e do tempo. Penso em Khronos, que se alimentava inexoravelmente de tempo. O tempo Khronos é aquele dividido em espaços iguais: dias, horas, minutos. Um tempo sem surpresas, que sustenta a fome do Titã e as fábricas de relógios. Mas há o tempo Kairós que é, digamos, medido pela imaginação, pelas batidas do coração (quem não passou pela experiência do tempo infinito do primeiro beijo?).

A afirmação “se não entendemos o Tempo, nos tornamos suas vítimas”, de James Gleick, parece ser uma ótima base para uma reflexão. É fato que o tempo parece não existir mais, pois nos falta a todos. Mas talvez tenhamos que nos esforçar mais para compreendê-lo antes que viremos, junto com ele, alimento para engorda. O tempo "morreu", foi devorado, e se não nos permitirmos "descompassar", Khronos permanecerá a nos devorar. Mas se optarmos por viver no tempo Kairós...
Ah...
Talvez a angústia de se estar na "boca" do tempo (e sentir que anos, dias, meses passaram e que ainda se espera que algo significativo aconteça) possa ser substituída pela alegria de saber que o infinito nos aguarda e que, sem arrogância mas com muita dignidade, possamos dar uma resposta ao tempo.



"Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver"

Telma Miranda


La Peregrinación
Mercedes Sosa


A la huella, a la huella
Jose y maria
Por las pampas heladas
Cardos y ortigas.

A la huella, a la huella
Cortando campo
No hay cobijo ni fonda
Sigan andando.

Florecita del campo,
Clavel del aire
Si ninguno te aloja
¿adonde naces?

¿donde naces, florcita
Que estas creciendo,
Palomita asustada,
Grillo sin sueño?

A la huella, a la huella
Jose y maria
Con un dios escondido
Nadie sabia ...

A la huella, a la huella
Los peregrinos
Prestenme una tapera
Para mi niño.

A la huella, a la huella
Soles y lunas
Los ojitos de almendra
Piel de aceituna.

¡ay burrito del campo!
¡ay buey barcino!
¡que mi niño ya viene,
Haganle sitio!

Un ranchito de quincha
Solo me ampara
Dos alientos amigos
La luna clara

A la huella, a la huella
Jose y maria
Con un dios escondido
Nadie sabia ...
Telma Miranda
Este é um poema de um autor português, Antonio Gedeão.
Melhor ainda é ouvi-lo. É só ir no endereço abaixo:
http://www.truca.pt/ouro/obras/antonio_gedeao.html


Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Telma Miranda





Bergman me estraçalha e Bach me recompõe.
Que eu possa ter a ventura de morrer numa segunda cercada de tantos afetos...





Telma Miranda
"Depois do silêncio, o que mais exprime o inexprimível é a música."
Aldous Huxley - 1894/1963



Telma Miranda


Oito de dezembro: eclipse em conjunção ao eixo nodal. Vou verificar: os nodos são pontos do mapa astral que representam o passado e o futuro. Hum...
Onze horas. Verifico o refrigerador: arroz integral de ontem, anteontem, do passado. O mesmo: como torná-lo diferente? Corto cebolas finas. Seco as lágrimas e enxugo o passado. Pimentão vermelho em cacos. Nozes picadas, damascos em pedaços, castanha ralada. Coração partido.
................................................

Ligo o rádio e ouço o som das cebolas combinando-se com o azeite: pressinto promessas. Concentro-me no tempo presente. Sem precipitação. Simplesmente aguardo. Pimentão-vermelho-paixão, é a sua vez. Jogo agora o arroz do passado. Ah, descoberta alquímica: o jogo, o acaso. Então é isso? Brincar e jogar e criar? Então, vamos lá: nozes, damasco e castanhas (do Pará).
Que mais? O que quiser...
Uva-passa? – Sim...
Azeitonas pretas? - Não...
Aveia grossa? –Sim...
Sementes de linhaça? - Sim...

...e o jogo nunca termina...

E, como uma mágica, o novo acontece. O futuro como obra do acaso, do prazer de criar, do fazer diferente. Agora, é só rodear o arroz com verdes diversos de esperança.
Telma Miranda

Formas ao acaso



"O homem tem de se inventar todos os dias."
Jean Paul Sartre,1905-1980


Numa sexta de novembro, leio em uma revista de agosto: "a mente humana foi configurada para encontrar ordem onde ela não existe." Referia-se, o artigo, à dificuldade humana de reconhecer o acaso, o aleatório. A ideia de que a ordem está ligada a uma perfeição (ou uma aproximação disso) é comum. Mas, incrivelmente, o acaso absoluto é uma forma de perfeição. Ora, ou sempre existe uma ordem (seja ela qual for) ou não existe ordem alguma (e criamos uma ilusão que teimamos em reconhecer como ordem). O texto - que na verdade é uma resenha de um livro intitulado "Andar do Bêbado" do físico americano Leonard Mlodinow - termina com a seguinte afirmação: "A consciência do acaso pode ser libertadora."

Por obra do acaso, nessa mesma sexta assisti a "Viver sem tempos mortos", um monólogo magistralmente interpretado por Fernanda Montenegro sobre a obra de Simone de Beauvoir. "O acaso tem sempre a última palavra", nos diz Simone-Fernanda. Sempre o acaso tecendo tempo e vida, entretendo nosso espanto, surpreendendo dias, desconcertando noites...

Contudo se a consciência do acaso nos liberta - e podemos então compreender o desconcerto como a mais perfeita harmonia - por outro nos condena por saber que não somos nem jamais seremos livres de deixar de ser livre. E que essa liberdade consiste em sempre escolher e que essa escolha é sempre absurda.

Talvez por isso a vida se resuma numa dança cujos movimentos (meus e os do universo) se entrelaçam trazendo surpresas, esbarrões, alegrias, pisões no dedão, prazer e vida. É a tal vida inventada de todos os dias.
Telma Miranda

Butterflies and Poppies, Van Gogh, 1853-1890

1. Uma borboletinha tão branca, quase transparente, pousava mansamente na minha tarde quente. Olhei-a distraída, assim como ela, que não percebeu a aproximação de uma maquiavélica lagartixa. Num impulso, falei: oh, borboletinha, vá embora! vá enquanto é tempo. E ela, absolutamente mansa, nenhuma atenção me deu. Pensei: oh, nada me cabe na tarde, muito menos interferir no tempo das coisas. E pensei mais: porque escolher a borboletinha e preterir a lagartixa? porque entristecer os olhos se a alma se comove tão levemente?
Deixei a tarde com suas mazelas e fui anoitecer em outro lugar.

2. ...sabe que também por aqui elas têm aparecido muito ultimamente? Uma delas surgiu outro dia, enorme, castanha, silenciosa (!!!) e incrivelmente bela. Uma outra era miúda, branquinha e não estava só. Mas eu me sentia só, pensando que ainda hoje, diante deste nada saber sobre o próximo segundo, poderia viver uma dor, dessas que de tão intensa uniria a Tristeza com a Beleza (enfim, stupid things) e aí surgiram as borboletinhas brancas. Me distraí... Acompanhei por um breve tempo o passeio delas e de repente lá se foram, levando o meu espanto... Sei que não perguntei nada, mas me deram respostas. Quais ainda não sei, mas sei que foi assim.....

* Isso já ocorreu há dias, mas na literatura acabou de acontecer...