Telma Miranda
Janeiro



Um cavaleiro de copas sorri
memórias de temporais
nas mãos um barco
no peito um entardecer


nos olhos um cisco
que teima em
não se desfazer...


Telma Miranda
Telma Miranda



Como há de suportar
este silêncio,
mais mineral
que a pedra,
mais glacial
que o gelo,
mais sideral
que a estrela?

Como há de suportar
este silêncio
ermo e
sombrio,
este silêncio,
que é mais
que silêncio,
espanto e
loucura,
esse
grave
silêncio de Deus?

Marco Lucchesi
Telma Miranda


Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas
defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos
defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias
defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres
defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y de la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa
defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

Mario Benedetti

(Life, it's for you! A poem from your favorite writer!)
Telma Miranda
1. Meus dois filhos foram para casa de um amigo na Ilha do Bananal, em Ilha Grande, passar o Reveillon de 2010. Naquela noite, ainda acordados, ouviram um estrondo, a luz se foi e uma onda invadiu a casa onde estavam. Sem saber ainda o que havia acontecido, alguns se aventuraram e foram até o local, a tal Pousada Sankai, a uns 70 metros; outros, assustadíssimos, permaneceram juntos em casa. Eles conseguiram me avisar que estavam bem, mas sabê-los naquele lugar desolador, aterrador, cercados de sofrimento e dor, me trouxe a sensação, péssima, de que nada poderia fazer. O primeiro pensamento: para protegê-los seria preciso que estivessem debaixo da asa. Penso na solução mágica: um super-homem que os trouxesse sãos e salvos. Depois numa solução cinematográfica: um helicóptero. Não menos mágica, por sinal. Até que em um telefonema, um deles me diz: "Não se preocupe. Afinal estou no lugar mais seguro do mundo: tem bombeiro, defesa civil, exército, marinha. Não vou sair daqui para mergulhar no caos." E, como em todos os dias, me dou conta o quanto aprendo com eles. Mais ainda: que na realidade são eles que me protegem.

2. Diante de tanto sofrimento e espanto estampados nas faces e refletidos nos meus olhos, nesses últimos primeiros dias, não foi possível evitar minha própria dor. Uma inevitável empatia me aproximou daqueles que sofrem e que (oh terrível condição humana), precisam permanecer vivos na dor. Penso na trágica história de uma família: uma noite festiva, um estrondo e, num segundo, só uma pessoa sobrevive. Uma mulher de 40 anos. Só. Sem mais os pais, irmã, marido e filhos. Há algum tempo atrás uma amiga, ao sobreviver a um grave acidente, me disse que o primeiro pensamento que surge é: por que sobrevivi? Ou melhor, disse-me, para quê sobrevivi? Sempre me lembro de um romance de Somerset Maugham intitulado "O Fio da Navalha". Em um episódio na guerra, o personagem Larry sobrevive enquanto o amigo morre em seu lugar. Tudo muda completamente para ele. Passa então a buscar o sentido da vida (vale a pena a leitura). Mas, afinal, existiria resposta para essa pergunta? Não será esta mais uma entre tantas outras para as quais as respostas inexistem? Bem, se há uma resposta, não sabemos. Nunca saberemos: são os Mistérios. Mas posso criar uma, inventar um sentido, fazer algo em que acredito. O escritor Carlos Heitor Cony - cujos livros fazem parte dos meus preferidos - disse certa vez em uma entrevista: "Não sabemos se Deus existe ou não. Mas se ele não existe, precisamos criá-lo". Quem sabe não é por aí: se há ou não uma resposta, não importa. O que é imperativo (imprescindível) é criar uma. A resposta única, singular, exclusiva. E talvez a partir dela poderá ser possível saber a pergunta que realmente importa.