Telma Miranda

Young woman with a wine glass - Octave Tassaert (1800/1874)


Vinho

A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci,
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.

Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste, à minha procura.

A taça foi brilhante e rara:
mas, com certeza enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.

Cecília Meireles (1901/1964)


Vinho e poesia: inevitavelmente pensamos em Omar Khayyam (poeta persa do séc. XI). Seus versos remetem ao vinho e ao amor - que deve ser vivido hoje. Apenas hoje. Pois tudo é sempre e somente provisório.

"Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã."

Se nada sabes, e tudo o que tem é hoje, diz o poeta, resta apenas o vinho:

"Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência."


"Ouço dizer que os amantes
Do vinho vão para o inferno.
Não há verdades na vida,
mas há evidentes mentiras.
Se porventura os amantes
Do amor e do vinho vão
Para o inferno, então vazio
Deve estar o paraíso".

"Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos."

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Pensamos também em Baudelaire (poeta francês do séc. XIX), em seu famoso poema, do qual um fragmento foi retirado e é muito divulgado como "citação":

"É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se."

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Bom, se tudo que temos é apenas este fim de tarde, então...
Andiamo! Uma garrafa de vinho!
É tudo que precisamos. Qualquer uma.
Mas...parece que falta algo. O quê?
Seguindo uma outra "citação":

"Para o vinho ter gosto de vinho, deve ser tomado com um amigo"

Saúde!

Telma Miranda
"Lutei para escapar da infância o mais cedo possível.
E assim que consegui, voltei correndo pra ela."
Orson Welles



Children's games - Pieter Bruegel (1525/30 - 1569)

"Eu com as quatro,
eu com ela, eu sem ela,
eu por cima, eu por baixo."

...e lá íamos nós cantando, movimentando mãos, prestando atenção, experimentando posições. Sem querer (nem saber) íamos construindo um eu e tecendo laços com outros eus.

"Lá em cima daquela montanha,
avistei uma bela pastora,
que dizia em sua linguagem,
que queria brincar.
Bela pastora entra na roda,
para ver como se brinca.
Uma roda, roda e meia
Abraçais quem vós quereis."

As cantigas de roda... esquecemos? Mas ficamos marcados pela ciranda de mãos que dávamos, largávamos, dávamos de novo, e mais brincávamos, mais queríamos brincar.

"São três irmãos.
O primeiro já morreu;
o segundo vive conosco
e o terceiro não nasceu?"

- passado, presente e futuro! Adivinhávamos, sem saber que exatamente naquele momento vivíamos um tempo e construíamos outro.


Mas um dia o jogo muda e o brincar emudece.

Mais tarde, quando a poesia pode ser nossa possibilidade de redenção, como encontrá-la?

"Ela está para além da seriedade, naquele plano mais primitivo e originário a que pertencem a criança, o animal, o selvagem e o visionário, na região do sonho, do encantamento, do êxtase, do riso. Para compreender a poesia precisamos ser capazes de envergar a alma da criança como se fosse uma capa mágica, e admitir a superioridade da sabedoria infantil sobre a do adulto.", nos diz Huizinga em seu livro "Homo Ludens".

Tudo isso por causa de uma experiência recente. Tenho sempre certa cautela com vídeos que expõem crianças, seja de que forma for. Mas um deles me comoveu. O pequeno Howard parecia se divertir diante das pessoas que o assistiam, surpresas diante da potencialidade do menino. Não sei das condições reais, mas parecia uma brincadeira onde risos, seriedade, erros e acertos compõem, ao final, a música de um momento poético.