Telma Miranda


Sexta. Duas da tarde. Da janela do 1001 o mundo se compõe e recompõe. A pobreza aparece nítida, calma. A riqueza, distante e bela. A cada quadro que se me apresenta através da janela penso se o mundo é mesmo assim ou se sou eu que o invento. Aonde vou? Ah, sim: estou indo para a casa de minha irmã encontrar primos que não vejo há muitos anos e dos quais não me lembro - ou muito pouco. Chego antes. Confiro com ela algumas informações, tipo nomes, idades. Enfim, eles chegam. Exclamações, abraços, sorrisos, emoções. Mas o quê exatamente me faz abraçar aquelas pessoas que não conheço, mas que me olham com olhar tão comovido? Sangue comum? Memórias de outrora? Mesmo sobrenome? Nada me responde. Conversamos, olhamos as fotos, revelamos os dados corriqueiros (profissão, número de filhos) conferimos os vivos, os mortos. Ao final trocamos telefones e endereços ( que certamente jamais serão utilizados), mais abraços e olhares sinceros. Simples assim. Saímos. Ao atravessar uma rua, meu primo segura minha mão - que deixo ficar - como há muito tempo quando, nas terras de nossa avó, íamos em direção à fazenda vizinha buscar leite. Volto. Da janela do 1001 o mundo escureceu e penso: os primos já existiam ou eu os criei naquele momento? Não sei. Só sei, como Drummond, que parece existir uma
“estranha idéia de família
viajando através da carne.”

Foto: The Begas Family. Carl the Elder Begas, 1821
Telma Miranda
Música sempre

Era uma casa no Engenho Novo. Uma Senhora, um cachorro manso e um piano esperavam por mim. Sempre às terças. Ainda menina, uns 12 anos, escorregava meus dedos no misterioso mundo preto e branco das teclas. Czerny, Bach, Chopin. Valsas, solfeggietos, lundus. Sons que povoavam minha imaginação romântica.
Um dia, a severa Senhora encontrou – entre os exercícios de Czerny – uma partitura de uma canção: “Preciso aprender a ser só”, de Marcos Valle. Uma verdadeira heresia, segundo ela. Estremeci. O busto de Beethoven e o metrônomo olhavam sérios para mim e eu, triste, sem saber o que era exatamente uma heresia, não reagi quando a partitura foi direcionada para o lixo. Mas o gesto não foi suficiente para me proteger das canções populares. Aos quinze veio o violão (presente inesperado de meu pai). Depois as rodas com os amigos, as composições ingênuas, os festivais de música em um clube na Tijuca, os encontros em Vila Isabel, as tardes na varanda, as noites nas escadas de um prédio no Grajaú.
Um dia me apaixonei, claro, e dele ganhei um “disco”. Que ouvi muitas vezes e - ainda não sabia - ouviria muitas outras, o resto da vida. E chorava. E mais chorava, mais gostava. Era o Adágio de Albinoni. A melodia me invadiu de tal forma, que os sentimentos de alegria, dor, tristeza, melancolia se mesclaram em apenas um: Beleza. E aí soube: eu existia. Em toda a minha plenitude. E a partir daquele momento compreendi que o mundo tinha uma melodia e que bastava ouvi-la para existir.


Telma Miranda
Caverna

Tô hibernando.
Mas não me aguardem.
Nem toda escuridão é grávida.

Nem toda luz indica
Nem todo homem nasce
Nem toda mulher se torna
Nem toda palavra se diz
Nem a dor é sempre redenção.
Nem o nada é suficiente.

Só um pouco.


Sem muita inspiração (ou vontade) de lidar com as letras, imaginei a caverna. Mas a idéia de hibernação parece conter em si mesma a possibilidade de saídas. Afinal, inverno, primavera, verão, outono e novamente inverno.
Um amigo, tentando "salvar-me", me diz que é preciso acender um fósforo. Mas como disse o grande poeta "um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo". Pois é. Resta rezar. Ou não. Ou exatamente o contrário: construir do barro, da terra, do nada, e mesmo assim (ou por isso mesmo) se achar (ou não).



NOTAS PARA UMA POÉTICA

Um poema se escreve sob granizo, ou nas frentes de inverno,
quando nos protegemos sob casamatas de zinco
Um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo
Um poema se escreve quando é preciso renascer das cinzas
- quando todos, para ganhar a vida, se tornaram zelosos funcionários da Morte
Um poema não se escreve com a razão
Um poema se escreve com as mãos
como quem reza
como quem toma nas mãos um punhado de terra.

Jayro José Xavier
Telma Miranda
HÄLFTE DES LEBENS

Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.

Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)


METADE DA VIDA


Pêras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

Tradução: Manuel Bandeira