Telma Miranda
"As coisas que não levam a nada
tem grande importância.
Cada coisa ordinária é um elemento de estima."
Manoel de Barros


Quem nunca guardou um pétala de flor recebida do namorado na agenda? Ou um bilhetinho da melhor amiga dizendo que a amizade era para sempre? Ou uma embalagem de um bombom, um postal ou mesmo umas conchinhas catadas naquela tarde? Coisas insignificantes que significam tanto! Costumava também guardar esses objetos com carinho, como se cada um deles pudesse me devolver, em algum outro momento da vida, a emoção sentida. Como a personagem do filme mexicano "Coisas insignificantes", também me apegava a essas pequenas-grandes insignificantes coisas. Entretanto, no filme, as "coisas insignificantes" adormecidas na pequena caixa de Esmeralda possuem um valor diverso.


Esmeralda é uma adolescente tímida, silenciosa, que resgata objetos esquecidos e os coloca em uma pequena caixa. Não os compreende, muito menos percebe a importância deles. Apenas acaricia os objetos como se, com esse gesto, pudesse resgatar um vínculo afetivo perdido. Eles não lhe pertencem, nem trazem nenhuma recordação vivida. Abandonadas e posteriormente recolhidas por Esmeralda, as coisas "insignificantes" adormecem na caixa, "significando" algo ainda por nascer. Tais objetos, de alguma forma, se relacionam com gestos de amor inconclusos, incompreendidos, e que quedaram inúteis em sua intenção. Foram "criados" em momentos onde a palavra não foi possível, embora as pessoas, ainda assim, acreditassem que, através deles, pudessem comunicar suas emoções. Os pequenos objetos "insignificantes" adormecidos dentro do baú de Esmeralda não pertencem a ninguém. Apenas resistem, na esperança de cumprirem seu papel: "dizer" um afeto. Cada um deles remete a uma história, na qual há fundamentalmente uma impossibilidade de amar. Ou talvez uma enorme dificuldade de expressar esse amor. O que dá no mesmo. Os objetos representam tanto "a ausência da comunicação como a sua possibilidade".

A silente menina se torna guardiã da caixa, já repleta de segredos, silêncios, gritos: tantas mensagens de amor que não chegaram a seu destino. Até o dia em que, ao valorizar seus próprios laços afetivos, Esmeralda percebe que não precisa mais dos objetos alheios, pois descobre em si a possibilidade de efetivamente amar. Abandona a caixa, se aproxima da irmã e compartilha um momento de delírio da avó, acreditando agora que é possível conceber um outro mundo, um mundo de afetos compartilhados.
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1 Response
  1. Eu vi esse filme poucos dias atrás na TV paga. Lindo, uma historia tão simples e tão complexa ao mesmo tempo. Mas é isso mesmo, tudo que guardamos é uma extensão das nossas impossibilidades, daquilo do qual a palavra e a memória não deram conta. Sempre tive as minhas caixas, os meus cadernos... ainda os tenho em algum lugar. Quando tudo é demais, sempre procuro por eles. É bom saber que eles estão lá, e sempre vão estar. É como ter pra onde voltar.
    Belo post. Bom FDS.


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