Telma Miranda
"Uma poética do devaneio poético! Grande ambição, ambição grande demais, pois redundaria em dar a todo leitor de poemas uma consciência de poeta."



Interrupted reading, Camille Corot, 1796/1875

Bachelard é um filósofo, mas é sobretudo um poeta. Não escreveu versos, mas tinha uma visão poética do mundo e dos homens. Via na imaginação a riqueza humana. Os poetas imaginam um mundo, sim, mas é também através da fruição da poesia que nos tornamos igualmente criadores de um mundo próprio. Diante das imagens que os poetas nos oferecem, o devaneio poético se instala em nossa alma, e, como uma mágica, nasce em nossa imaginação uma nova imagem poética que ilumina nossa consciência, abrindo novos destinos para a palavra e nos permitindo confiar no universo e perceber as inúmeras possibilidades de ser: "num mundo que nasce dele, o homem pode tornar-se tudo."


Rêverie, Camille Corot, 1796/1875


A imaginação, para Bachelard, pode nos fazer criar um mundo que, paradoxalmente, já existe mas que precisa ser criado por nós. Mais: esse devaneio poético só pode existir na solidão. Uma situação de solidão sonhadora. Winnicott, psicanalista inglês com cujas idéias tenho grande afinidade, nos fala da capacidade de estar só, mesmo estando em presença de outrem. É só quando estamos sós que podemos perceber nossa vida interior, que podemos prestar atenção na existência de um objeto bom na nossa realidade psíquica que nos impulsiona a vivenciar novas descobertas. E é nessa extrema e rica solidão que as recordações tristes podem adquirir, pelo menos, a paz da melancolia.
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1 Response
  1. Os poetas quando criam, recriam o mundo inteiro. Você tem razão, Telma, para escrever é preciso da solidão. Escrever é um ato tão solitário quanto morrer. Lindo texto!
    bjs,
    Carlos Eduardo


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