Telma Miranda
Vinha de ler e ouvir Pessoa (na voz de Bethânia). Lembro bem que aos dezessete (por aí) ler Pessoa-Caeiro fazia todo o sentido. Suas interrogações e exclamações ecoavam agudas no meu não-saber. E eram minhas! E um pensamento ingênuo nascia: ele sabe sobre mim! Seus versos eram meus - ou diziam de mim:

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


*** *** ***

Dormir! Não ter desejos nem esperanças!

*** *** ***

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!


*** *** ***

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!


*** *** ***

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?




Anos depois, talvez mais dezessete, fui apresentada à poesia de Marly de Oliveira. Novo arrebatamento! Havia encontrado uma poesia que sentia como minha, versos que me "diziam", uma nova voz que me levava novamente ao êxtase do sentir poético. O livro "Vida Natural", publicado em 1967, revelava uma poeta inquisitiva que me cativou desde então. Meio "pessoana", é verdade, com seu "questionamento sobre a perenidade das coisas e sobre nosso estar no mundo".

"O sentido das coisas,
onde achá-lo, senão nas próprias coisas?
Ou algo está por trás
da rumorosa vida de um inseto,
da quietude da flor, do meu espanto,
vivendo-nos tranquilo,
e cada dia nos absorve um pouco?"


Ainda

"Sonhamos o que vemos
ou somos nós o sonho
daquilo que não vemos no que vemos?"


E um dos meus preferidos:

"Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.

Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?

Aquela que ontem via
o que ora vejo, não é mais em mim?
Então me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra, ou me acrescento ao que já sou?

No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém."


Há muito....

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Há pouco ganhei um encarte com poemas de Marly na voz de Lauro Moreira Lima. No livro intitulado "O sangue na veia", encontramos versos "onde há o desejo de desligar o conceito de amor do de paixão" (palavras da própria Marly). E é dentre os 56 poemas que compõem este livro que Lauro escolhe alguns que são apresentados aqui neste vídeo. Para nosso enlevo e elevação da alma.


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1 Response
  1. Gostei muito do seu blog.E gostaria muito de conversar contigo.É que estou estudando a questão da Psicanálise/Psicologia e a Literatura.Poderíamos trocar ideias.Deixo aqui o meu e-mail: marcioarthur_pinheiro@hotmail.com .Espero o seu contato


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