Telma Miranda


Sexta. Duas da tarde. Da janela do 1001 o mundo se compõe e recompõe. A pobreza aparece nítida, calma. A riqueza, distante e bela. A cada quadro que se me apresenta através da janela penso se o mundo é mesmo assim ou se sou eu que o invento. Aonde vou? Ah, sim: estou indo para a casa de minha irmã encontrar primos que não vejo há muitos anos e dos quais não me lembro - ou muito pouco. Chego antes. Confiro com ela algumas informações, tipo nomes, idades. Enfim, eles chegam. Exclamações, abraços, sorrisos, emoções. Mas o quê exatamente me faz abraçar aquelas pessoas que não conheço, mas que me olham com olhar tão comovido? Sangue comum? Memórias de outrora? Mesmo sobrenome? Nada me responde. Conversamos, olhamos as fotos, revelamos os dados corriqueiros (profissão, número de filhos) conferimos os vivos, os mortos. Ao final trocamos telefones e endereços ( que certamente jamais serão utilizados), mais abraços e olhares sinceros. Simples assim. Saímos. Ao atravessar uma rua, meu primo segura minha mão - que deixo ficar - como há muito tempo quando, nas terras de nossa avó, íamos em direção à fazenda vizinha buscar leite. Volto. Da janela do 1001 o mundo escureceu e penso: os primos já existiam ou eu os criei naquele momento? Não sei. Só sei, como Drummond, que parece existir uma
“estranha idéia de família
viajando através da carne.”

Foto: The Begas Family. Carl the Elder Begas, 1821
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2 Responses
  1. Querida Telma,
    Adorei estes teus quadros ficcionais da janela da vida. A família algumas vezes também é uma ficção. Algo que a gente inventa e recria a cada vez, a cada reencontro. Ou será que eles existem mesmo? Bela viagem pelas palavras.
    Bjs do seu leitor,
    Carlos Eduardo


  2. Obrigada, Carlos Eduardo, pela leitura. Afinal, é ela que magicamente dá luz às palavras recém-nascidas. Beijos.Telma.


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